Dificuldades de mulheres candidatas

Mulheres candidatas contam suas dificuldades na campanha municipal em quatro capitais brasileiras

Tainá de Paula, no Rio, Preta Oliveira, em Salvador, Ana Graf, em São Paulo e Luciana Müller, em Curitiba, disputaram eleições

17/11/2020 por Redação Elisa Martins e Thiago Herdy

O papo seguia bom no comício virtual da candidata a vereadora Tainá de Paula (PT), de 37 anos, por meio do aplicativo Zoom, quando um convidado pediu a palavra. Perguntou se ela não considerava muito difícil alcançar um mandato no Rio, tendo em vista que, em geral, mulheres negras não ocupam este lugar. É como se as condições fossem empecilhos para realizar seus planos políticos, como fardos a carregar.

— Falei sobre minha experiência como gestora, as assessorias que presto em políticas públicas no campo do urbanismo. Mais uma vez, tive que explicar que sou capaz — conta Tainá, que resignou-se em ser alvo de cobrança sempre maior sobre a qualidade de suas propostas e capacidade de articulação institucional.

Embora a lei preveja igualdade de vagas e recursos para candidatas mulheres, o protagonismo ainda esbarra em condições do mundo político onde ainda prevalece o ponto de vista essencialmente masculino, e muitas vezes também são obrigadas a lidar com preconceito e machismo. O GLOBO acompanhou a batalha de quatro candidatas de diferentes partidos e cantos do Brasil. Gente cujos obstáculos começam em casa, com a dificuldade de aceitação da família sobre a ideia de uma carreira política feminina, ou se encerram no partido que, após garantida a cota obrigatória de candidatas mulheres, se recusa a transferir os prometidos recursos do fundo eleitoral.

Entre as quatro candidatas, Tainá foi a única vitoriosa: a arquiteta e urbanista foi eleita no último domingo com 24.864, 20% a mais do que tinha como meta. Diz ter levado a sério o puxão de orelha do rapper Mano Brown, que há dois anos, em comício do PT no Rio, denunciou o isolamento do partido, outrora popular, de suas bases.

— Topamos fazer um movimento coletivo de repensar nossa postura em campo e não nos encastelarmos nos partidos — disse a petista, que durante a campanha destacou-se pela defesa de pautas estruturantes — como o investimento em saneamento — em lugar de uma agenda exclusivamente identitarista.

Promessa descumprida

Igualmente negra, mas de campo político totalmente distinto, a candidata do PL à Câmara dos Vereadores de Salvador (BA), Preta Oliveira, de 38 anos, ex-ambulante, fez sua campanha sob o slogan “Lugar de mulher é onde ela quiser”, mas não viu serem cumpridas promessas de investimento de recursos e de apoio político do partido.

— No início venderam a ilusão de que eu era importante para o partido. Só depois fui perceber que me colocaram para cumprir a cota de mulheres — conta a candidata que mobilizou outras mulheres para protestar na sede do partido, mas ouviu de dirigentes que simplesmente cabia a eles decidirem a quem endereçarem os valores do fundo.

No sistema do TSE, ela viu candidato do mesmo partido receber parcela de até R$ 280 mil. Teve que dispensar o contador de sua campanha e ainda não sabe como vai fazer para pagar pelo material de divulgação que distribuiu. Só conseguiu fazer campanha de rua quando um amigo se colocou à disposição para levá-la em seu carro.

— Mulher na política não é credibilizada. Sempre fomos colocadas em lugar de vulnerabilidade. E, sem ocupar espaços, acabamos não sendo ouvidas. Estamos em um caminho de expansão da mulher na política, mas ainda falta muito a trilhar — crê.

No último domingo, obteve apenas 72 votos e não foi eleita vereadora em Salvador.

Grana para o pastor

Em São Paulo, a candidata Ana Graf (PSL) também fez uma campanha sem recursos, mas por decisão própria. Abriu mão do fundo eleitoral para manter a coerência do discurso que sempre teve contra o uso dos valores, mas no fim da campanha, já não sabia se a decisão havia sido acertada.

— Não poderia voltar atrás em minha palavra. Mas hoje vejo como é desleal a disputa quando você tem um candidato grande, com muito mais dinheiro e gente para entregar material — pontua.

Ela buscou apoio político na igreja evangélica frequentada pela família, na Zona Sul de São Paulo. Ouviu do pastor que ele orava a Deus para que colocassem alguém honesto no caminho dele, para a igreja apoiar. Na mesma conversa, ele lembrou que a pandemia havia afetado a arrecadação da congregação, perguntou se ela poderia pagar alguns aluguéis e uma mesada a ele, para sobreviver nestes tempos bicudos. O apoio tinha um preço: R$ 70 mil.

— Respondi que aquele ato o levaria ao inferno. Este fato entrou em choque com tudo o que acredito e penso. Ver de perto como a política funciona foi muito decepcionante — lamentou a mulher, que até dois anos atrás, não tinha trajetória na política.

Ela trancou a faculdade de Administração depois que casou e engravidou, há 13 anos. Nesse tempo, vendeu roupas infantis na internet. Retomou as aulas há pouco tempo, com foco em gestão pública.

— A vida não me permitia trabalhar fora por conta da profissão do meu marido, que é aviador. E fui acompanhar de perto a educação da minha filha — conta a mulher, que há alguns anos começou a participar de audiências públicas e protestos, percebendo que “a política poderia ser uma forma de fazer algo pelas outras pessoas”.

Para tentar dar mais visibilidade à sua campanha, ela colou na agenda da candidata a prefeita de seu partido, Joice Hasselmann (PSL). A estratégia naufragou. Joice teve apenas 1,84% dos votos na cidade. Ana, um total de 1.005, por isso não foi eleita.

Família Tradicional
Quando Luciana Müller (PP), de 28 anos, contou no Natal passado que havia decidido se candidatar a vereadora em Curitiba, a família de agricultores, conservadora, não gostou. Nascida em Chopinzinho e crescida em Saudade do Iguaçu, na zona rural do Paraná, tinha que lidar com os planos preparados pela família para ela, e nenhum deles incluía participar da política.

— Vivi muito tempo resignada, por não ter voz ativa nem poder ter opinião sobre nada. Meu sonho era estudar porque eu sabia que poderia ter meu espaço no mundo — conta ela, segunda mais velha de cinco irmãos e a primeira da família a concluir o Ensino Superior, com o curso de Engenharia Ambiental.

Engajada, ela foi presidente do Centro Acadêmico e fez mestrado em Engenharia Civil, na área de saneamento. Passou a dar aulas e fazer pesquisa. Em Curitiba, começou a participar de ONGs e redes de jovens e mulheres. Mas a ideia da candidatura só surgiu no ano passado, depois de participar da escola de formação política do movimento RenovaBR.

— Antes disso nunca tinha pensado em participar da política. Foi empoderador — lembra Luciana, que em seguida virou presidente do grupo Mulheres Progressistas, do PP.

Amparada em questões ambientais e de sustentabilidade, fez campanha intensa nas ruas, munida de máscara, álcool gel e santinhos, adesivo com seu número pregado na camisa e cartilhas com "41 ideias para Curitiba" que tirava da pochete. Antes de sair, postava agenda e propostas na internet, por onde não raro também conseguia doadores que simpatizavam com suas proposições.

Com essa ajuda, diz, investiu em impulsionamento nas redes sociais e materiais de campanha, custeados ainda com R$ 1 mil do próprio bolso. Do partido, recebeu R$ 3 mil do fundo eleitoral, usados para fazer vídeos para redes sociais e encomendar um jingle de campanha, "pechinchando muito”.

Luciana (PP) obteve 712 votos e não foi eleita. Para ela, a derrota eleitoral é menor que a vitória pessoal de quem reafirma o valor da autonomia adquirida ao longo da vida. No domingo, ela postou em sua redes: "Se queremos renovação precisamos dar um primeiro passo. Tenho muito orgulho de tudo o que construímos. (…) Seguimos firmes na missão com a certeza que está apenas começando”.


Fonte: oglobo.globo.com

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