Maia x Araújo

Maia x Araújo: visita de Pompeo ao Roraima feriu independência nacional, dizem analistas

Segundo diplomata e professor de relações internacionais, governo Bolsonaro se deixou utilizar pelos EUA durante viagem do representante do governo americano, que teve objetivo eleitoral

22/09/2020 por Redação Marina Gonçalves

A passagem-relâmpago do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, pelo Brasil, em uma visita na sexta-feira à Operação Acolhida, em Roraima, na fronteira com a Venezuela, não apenas fere o Artigo 4 da Constituição do Brasil, que estabelece o princípio da independência nacional nas relações exteriores do país, como quebra tradições de décadas da diplomacia brasileira, avaliam analistas ouvidos pelo GLOBO. Segundo eles, o governo de Jair Bolsonaro vem se deixando utilizar por um governo estrangeiro, que, por sua vez, usa a crise na Venezuela como plataforma política a menos de 50 dias das eleições americanas, em 3 de novembro.

A vinda do representante do governo de Donald Trump, que também esteve em Suriname, Guiana e Colômbia, teve como principal objetivo discutir a situação na Venezuela. No encontro com o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, Pompeo chamou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de traficante de drogas.

Como pano de fundo, avaliam os especialistas, está a busca pelo voto de venezuelanos e cubanos exilados nos EUA, principalmente na Flórida, estado decisivo para a reeleição de Trump. Para o diplomata Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e ex-ministro da Fazenda, a visita é  “uma jogada eleitoral”.

— Fui encarregado diplomático na fronteira, uma área remota, com territórios pouco habitados. Não faz sentido um representante americano ir até ali para tratar desse assunto. Se Brasil e EUA querem discutir uma posição conjunta para a Venezuela, o natural seria ir a Brasília, não a Roraima — afirmou Ricupero ao GLOBO.  — A grande questão é: por que o Brasil permite que seu território seja utilizado?

Após críticas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que chamou a presença de Pompeo na fronteira de “afronta”, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou, na segunda-feira, um convite ao ministro de Relações Exteriores brasileiro para dar explicações sobre a visita.

Araújo, por sua vez, defendeu no sábado que “Brasil e EUA estão na vanguarda da solidariedade ao povo venezuelano, oprimido pela ditadura de Maduro”, e lembrou que as relações internacionais do país também devem ser pautadas, segundo o mesmo Artigo 4 Constituição, pela "prevalência dos direitos humanos".

Erro de tradução
No sábado, um dia após a visita, a embaixada americana esclareceu que Pompeo não disse a frase “vamos tirar Maduro de lá” na entrevista em Roraima. Segundo a missão diplomática, a frase foi traduzida de maneira errada pelo profissional contratado pela própria embaixada.

Mesmo assim, os analistas lembram que governo Trump já disse, reiteradas vezes, que não descarta uma intervenção militar na Venezuela. Para Guilherme Casarões, cientista político e professor de Relações Internacionais da FGV-SP, ao apoiar a postura americana o governo brasileiro está “subscrevendo uma suposta intervenção no país”.

— O que Pompeo diz neste momento não é relevante, porque, sob a liderança de Trump, os EUA já disseram várias vezes que todas as opções estão na mesa. A percepção é que o governo americano teria apoio do brasileiro para qualquer tipo de ação armada na Venezuela para tirar Maduro — explica. — Quanto à  defesa dos direitos humanos, o Brasil pode e deve fazer críticas ao governo venezuelano, mas não pode ser seletivo, ou seja, criticar Maduro e não criticar a Arábia Saudita. Além disso, o próprio presidente já fez elogios explícitos à ditadura militar brasileira e às de outros países, como o Chile.

O especialista afirmou ainda que, além de violar os princípios constitucionais da independência nacional e da defesa da paz como balizadores das relações internacionais do Brasil, o alinhamento automático com os Estados Unidos mostra como o governo brasileiro vem tomando decisões que visam unicamente à “sobrevivência política de Bolsonaro”.

— Vivemos níveis inéditos de subserviência política. O Brasil vem reproduzindo todas as diretrizes do governo Trump, inclusive causando prejuízos ao país, como no caso do apoio à  eleição de um americano para o BID — diz Casarões.

Ele acrescentou que diplomaticamente o governo rompe com uma longa tradição “que preza pelos princípios de universalismo, multilateralismo e pacifismo”:

— O governo Bolsonaro abre mão do princípio do universalismo, já que o Brasil nunca antagonizou outro governo ou o tratou como inimigo. O país também sempre teve o entendimento de que problemas internacionais teriam que ser resolvidos segundo o multilateralismo, e não unilateralmente. Por último, sempre defendemos a solução pacífic de conflitos.

O tour do representante do governo americano pela região acontece em um momento de tensão política na Venezuela, que se prepara para realizar eleições parlamentares em 6 de dezembro. Enquanto parte da oposição, liderada por Juan Guaidó, afirma que não há condições igualitárias para ir às urnas e anunciou boicotará o pleito, outro grupo opositor, capitaneado pelo ex-governador e ex-candidato à Presidência Henrique Capriles, é a favor da participação nas eleições.

— As eleições legislativas dividiram a oposição venezuelana. Ao vir ao Brasil, Pompeo manda uma mensagem também à oposição liderada por Capriles que quer participar do pleito. Ou seja, há uma interferência óbvia no processo eleitoral. Não vejo por que o Brasil deva condenar um setor da oposição venezuelana em detrimento do outro. O país está sendo usado como ferramenta da campanha eleitoral tanto americana quanto venezuelana  — diz Ricupero.


Fonte: oglobo.globo.com

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