Aliados em campanha

Bolsonaro e aliados em campanha: entenda os movimentos em São Paulo e no Rio

Presidente dá aval a Russomanno, e apoiadores defendem nome do PSL em vez de Crivella

16/09/2020 por Redação Gustavo Schmitt, Guilherme Caetano e Bernardo Mello

SÃO PAULO E RIO — Com a reta final das convenções partidárias, que só podem ocorrer até hoje, o presidente Jair Bolsonaro e aliados aceleraram as articulações e tornaram mais claros os movimentos de apoio, mesmo nas cidades onde há mais de um candidato interessado nos dividendos do bolsonarismo. Em São Paulo, o pré-candidato do Republicanos, Celso Russomanno, aguarda até o último minuto a desistência do PSL, ex-partido de Bolsonaro e possível futuro destino. No Rio, mesmo com a candidatura à reeleição do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que busca associar a imagem à do presidente

Em São Paulo, até ontem havia forte expectativa sobre uma possível aliança do pré-candidato do Republicanos, Celso Russomanno, com o PSL. A estratégia de emplacar um vice do partido ao qual já pertenceu Bolsonaro traria benefícios ao presidente em três frentes: tiraria o Republicanos da base de apoio do governador João Doria na Assembleia Legislativa de São Paulo - desgastando o tucano até a eleição presidencial de 2022 -, emplacaria uma candidatura competitiva na eleição da maior cidade do país, e, por fim, fortaleceria Marcos Pereira na disputa para substituir Rodrigo Maia na presidência da Câmara.

Russomanno se encontrou com Bolsonaro diversas vezes nas últimas duas semanas. Presidente do Republicanos, Marcos Pereira intensificou os telefones para o deputado Júnior Bozzella, presidente estadual do PSL.O empenho de Russomanno durou durante boa parte da semana. Numa estratégia casada, aliados do pré-candidato dizem que a estratégia seria convencer o PSL a tirar a deputada Joice Hasselmann da corrida eleitoral paulistana. Houve, no entanto, forte resistência na ala paulista do partido.

A abrupta retirada de Joice do pleito em São Paulo, ponderam dirigentes do PSL, demonstraria insegurança dentro do próprio partido e subserviência ao Planalto, o que vai contra a estratégia do partido, que pretende disputar a presidência da Câmara dos Deputados, com Luciano Bivar (PE), presidente nacional da legenda. Em agosto, após Bolsonaro cogitar o retorno para o PSL, Bivar disse ao GLOBO que uma eventual volta ao partido teria que passar não só pelo crivo da executiva nacional, mas pelo da bancada de deputados em Brasília.

Pressionada para largar a candidatura e concorrer como vice de Celso Russomano (Republicanos) à prefeitura de São Paulo, a deputada federak Joice Hasselman (PSL) apresentou o seu pedido de registro de candidatura na Justiça Eleitoral. O PSL de São Paulo resistiu aos avanços e, segundo membros do diretório municipal, a campanha de Joice está sendo tocada normalmente.Apesar da pressão fora e dentro do próprio partido para que a candidatura de Joice, desafeta do presidente Jair Bolsonaro, fosse retirada, a avaliação da executiva nacional do PSL é de que seria "desmoralizante" para Joice, e para o próprio partido, voltar atrás após o nome da deputada ser oficializado em convenção partidária.

Hoje, dos políticos com mandato com expressão nacional, apenas o deputado federal Junior Bozzella e o senador Major Olimpio - desafetos da ala bolsonarista - estão mergulhados na campanha de Joice. A maioria do partido, inclusive membros da executiva nacional do PSL, é a favor da reaproximação com Bolsonaro e de uma relação pacífica com o Planalto.Bozzella nega que a campanha do PSL em São Paulo tenha sido ameaçada pela pressão do Republicanos. Ele diz ter sido procurado pelo presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, e por "enviados de Russomanno" para tratar do assunto.

— O PSL já tinha uma decisão de que a Joice seria candidata. Isso nunca foi moeda de troca. Tanto é que fizemos a convenção no primeiro dia. Quem deixou a convenção para o último dia foi o Celso — diz Bozzella.

Apesar da pressão por uma reviravolta na candidatura de Joice Hasselmann, advogados de partidos reservadamente ouvidos pelo GLOBO afirmam que a única hipótese para a deputada perder o posto seria a direção nacional anular a convenção realizada em 31 de agosto e realizar uma nova nesta quarta-feira. Para eles, no entanto, não existe tempo hábil.

Para Silvio Salata, advogado especialista em direito eleitoral e partidário, Joice não tem o que temer em relação à sua candidatura.

— Ela foi escolhida em convenção, a Justiça Eleitoral já foi comunicada e hoje ela deu entrada no registro. Não tem mais nada que possam fazer para tirarem ela. O diretório nacional poderia até questionar isso judicialmente, mas seria preciso haver um indicio de vício ou fraude — afirma Salata.

Antes de assediar o PSL, Russomanno tentou várias articulações (com PSDB, MDB e até o PTB) porque sempre considerou importante a questão do tempo de TV. No entanto, nenhuma das empreitadas deu certo, e ele pode acabar numa chapa pura de forma isolada. A única opção então seria o apoio de Bolsonaro.

Mesmo diante de acenos do presidente Jair Bolsonaro ao prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), o deputado federal Luiz Lima (PSL-RJ) tenta atrair parlamentares e a militância digital para ter o apoio do bolsonarismo nesta eleição municipal. Lançado à prefeitura pelo PSL, em convenção no último sábado, Lima procura também se esquivar de uma proibição imposta pelo senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), aliado de Crivella, de que outros candidatos usem a imagem do presidente para impulsionar suas campanhas. Em seu primeiro vídeo de campanha, Lima usou imagens de Bolsonaro na campanha de 2018, sem que estivesse acompanhado por outros candidatos.

A narração do vídeo afirma que a eleição de Bolsonaro representou “uma ânsia de renovação nunca antes vista na história desse país”, e depois lembra que o próprio Lima se elegeu deputado federal no mesmo pleito. Além disso, o material de Lima usa imagens de Crivella e do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), outro adversário nessas eleições, ao criticar “grupos políticos que sempre lotearam a política carioca e entristeceram a cidade”.

Após lançar a candidatura, Lima recebeu sinalizações de apoio de integrantes da bancada bolsonarista no Congresso Nacional, como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) e a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF). Outro que fez um aceno ao deputado, nas redes sociais, foi o secretário de Cultura Mário Frias. Ele endossou uma publicação na qual Silveira afirmava que, com o candidato do PSL, “temos agora uma opção alinhada à base bolsonarista” concorrendo à prefeitura do Rio. A pré-candidata do PSL em Nova Iguaçu, Raquel Stasiaki, citou em mensagem nas redes a aliança entre o Republicanos, partido de Crivella, com o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, nas eleições de 2018, e afirmou que apoiaria “um bolsonarista de verdade”. Lima agradeceu a mensagem.

A estratégia inicial de Lima é de concentrar as críticas na gestão pública, colocando também Paes como alvo, e evitar ataques ideológicos por conta de antigos laços do ex-prefeito e de Crivella com governos do PT e do MDB. Ex-nadador olímpico, Lima assumiu durante um ano, no início do governo de Michel Temer, a Secretaria Nacional de Esportes de Alto Rendimento.

— É claro que eu sei de compromissos assumidos, principalmente em âmbito nacional, com o Republicanos. Não tenho um problema pessoal com o prefeito Crivella. Mas, como cidadão carioca, não estou satisfeito com a história política da minha cidade, tanto com Eduardo Paes, quanto com Crivella — afirmou Lima na convenção do PSL.

Enquanto parte da militância bolsonarista nas redes vem compartilhando fotos de Lima ao lado de Bolsonaro, perfis que defendem um apoio a Crivella vêm compartilhando a narrativa, alimentada por aliados do prefeito, de que o deputado teria se afastado do núcleo duro do bolsonarismo no racha do PSL em 2019. Lima chegou a apoiar a criação do partido Aliança pelo Brasil, projeto encabeçado pelo clã Bolsonaro, mas saiu do grupo de WhatsApp no início deste ano alegando que a falta de homologação da legenda inviabilizaria sua participação nas eleições municipais. À época, o deputado afirmou também que seria motivo de “constrangimento” deixar o PSL, citando sua boa relação com o presidente da legenda, Luciano Bivar.

Aliados de Crivella pretendem explorar, na campanha, a participação de Lima em cursos do RenovaBR, movimento de renovação suprapartidário que reúne alguns parlamentares de oposição ao governo Bolsonaro, como Tábata Amaral (PDT-SP) e Marcelo Calero (Cidadania-RJ). Nesta terça-feira, Lima divulgou um vídeo em suas redes sociais defendendo sua participação no movimento, afirmando que a participação o deixou “ainda mais convicto das escolhas políticas” e o ensinou a “ser tolerante com pessoas que pensam diferente”. Segundo o deputado, “foi como fazer um curso de inglês”.

Desde o início do ano, quando Bolsonaro deixou mais nítida uma sinalização de apoio a Crivella, deputados estaduais e federais da base bolsonarista vinham resistindo a aderir à candidatura do prefeito do Rio. A equipe de Crivella, no entanto, apostou numa "neutralidade relativa" do presidente e de sua base, acreditando que nenhuma outra candidatura receberia o apoio maciço do bolsonarismo. Com a reaproximação entre Bolsonaro e PSL neste ano, Crivella tentou atrair o partido para indicar o vice em sua chapa, que já tem o apoio de outras sete legendas. Dirigentes do PSL mantiveram conversas com Crivella até a última sexta-feira, véspera da convenção do partido, mas o acordo não prosperou porque o Republicanos se recusou a apoiar candidaturas de aliados de Luciano Bivar em outros municípios, especialmente em Curitiba.


Fonte: oglobo.globo.com

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