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Hoje o CPA homenageia ao maior artilheiro de todos os tempos de Penedo - Xavier!

História de Xavier contada por Bernardino Souto da Revista Placar

29/08/2020 por Por Raul Rodrigues
Crédito revista Placar

Em viagem feita à Arapiraca-AL, na terça-feira, 30/07, por lá encontrei um penedenses da gema que na capital do fumo – como foi conhecida a terra de Manoel André – Robson – conhecido em Arapiraca por Robin Gol – filho do amigo Zé Américo – o Diet Now – que consertava rádio aqui na cidade do Penedo.

Amante do futebol, área em que trabalhou por anos, Robson fez questão de mostrar um verdadeiro acervo futebolístico das Alagoas, o que guarda com todo cuidado fotos, revistas e um caderno contendo todos os resultados das participações do Cruzeiro nos campeonatos alagoanos que disputou.

Devoto do Sport Clube Penedense, porém apaixonado pelo Cruzeiro, clube e time criado nas terras da Arapiraca por dissidentes do ASA, Robin Gol assim apelidado pelos vizinhos da rua onde mora, mostrou-nos centenas de fotos sendo uma em particular do time do Penedense de 1986.
Todavia, a maior preciosidade da coleção de Robson foi uma Revista Placar de abril de 1977, constando da mesma uma rica reportagem sobre a vida do maior artilheiro do futebol da cidade dos sobrados, das ruas estreitas e largas avenidas. Xavier, o Flecha Negra.
A reportagem que iremos repetir na íntegra é do jornalista Bernardino Souto da Revista Placar com fotos de José Feitosa, intitulada: Ninguém Segura este Vovô!

A reportagem começa assim:

Na caça ao gol, o Penedense conta com os 40 anos de Xavier. “Ninguém Segura este Vovô”!
Um monumento que ainda faz gols: assim é que o pessoal de Penedo vê o Vovô Xaxá. Os mais afoitos já falam no que será sua festa de despedida. Terão de esperar demais – Xaxá diz que só pensa em apara daqui a 05 anos.

1 – Não fume, não beba. Durma cedo aí pelas nove da noite. Treine normalmente. Não engane o preparador físico.

2 – almoce bem, com muita verdura. Cenoura é indispensável. Não tome refrigerantes; os sucos naturais são melhores e ainda é produto nacional.

3 – mulheres, sim; farra não.

4 – nada de colares, pulseirinhas, penduricalhos variados, faceirices suspeitas.

5- seja capaz de dizer: “jamais pensei em chegar à seleção Brasileira”. Se por acaso chegar lá, tudo é lucro.

6 – descubra enfim que é possível aposentar-se como jogador de futebol. Por tempo de serviço.

Fora a aversão à cenoura, talvez descubra certa lógica na receita de José Augusto Xavier, nascido no dia 28 de agosto de 1936. E contratado há pouco pelo Penedense – de Penedo, Alagoas – para resolver um problema que parecia insolúvel: a objetividade de um ataque sem vocação para o gol.

Vovô Xavier é como é chamado pelos jogadores. “Um centroavante de idade avançada”, dizem os gozadores. Mas todos se veem obrigados a reconhecer que esse jogador é capaz de aguentar os 90 minutos e, mais ainda, de transmitir entusiasmo a sues antes desanimados companheiros.

Educação escolar é o que ele não tem: começou a jogar aos 10 anos, mas só se profissionalizou aos 23. Assim, no começo – de família pobre, 20 irmãos ao todo – faltou dinheiro. Depois, faltaria tempo. Saúde é o que não lhe falta, tanto que Vovô Xavier garante: vai jogar mais cinco anos.

O reencontro

Sua volta ao futebol foi coisa simples. O Penedense sonhou acordado: ia mandar um emissário ao Sul, ia sondar o Santos. Ia trazer dessa viagem um dois ou três homens de alguma competência ofensiva. Bastou acordar: onde o dinheiro? Onde a certeza de que não viriam outros bondes?

De repente, o pessoal despertou. Lá estava Xavier, com seu 1,74m de altura, seus permanentes 74 Kg, seu inacabável vigor. Livre, depois de haver passado pelo Bahia e o Botafogo, em Salvador; pelo Itabaiana de Sergipe, pelo Botafogo da Paraíba. E de ter jogado, lá mesmo em Penedo, cinco vezes pelo Penedense – onde começou, muito antes de se tornar profissional – e duas vezes pelo Santa Cruz.

O retrospecto era bom. No mesmo ano em que começou a jogar por dinheiro, integrou o pentacampeão Bahia, numa escalação que os baianos custarão a esquecer: Nadinho, Florisvaldo, Henricão, Vicente e Nezinho, Nelsinho e Mário, Biriba, Marito Xavier e Léo. Sua fama seria maior se os dirigentes do Botafogo de Salvador, não tivessem complicado sua ida para Portugal, onde Xavier pretendia, além de mostrar jogo, fazer com uma jovem de lá o que os portugueses andaram fazendo por aqui: dar força à miscigenação, colorir a raça.

A despedida

Não deu. A solução foi ir mudando de time, vagando pelos estados. Chegar ao Botafogo paraibano e ser campeão em 1968, pular para o Itabaiana e ganhar o título de 1969. Recordar que lá levou o Penedense a decidir título com o CSA, que, nesse time do interior foi artilheiro do campeonato de 1966 – o que estimulou o CRB a comprá-lo por 500 cruzeiros, preço alto para o lugar e a época.

O passado, pois, era bom. E o presente?

Luiz Bodão, último remanescente de um time que há mais de dez anos marcara o melhor momento do Penedense, garantiu: “tenho visto o negão Xaxá”. E continua o mesmo.

O veterano Bodão, 32 anos, conheceu Xavier há 15 anos, mal saído do juvenil. Ouviu conselhos, mas acha que ainda tem o que aprender com velho.

A gente anda numa fase ruim. Perigando até cair, no próximo ano ter de disputar o acesso. O Xaxá ainda pode nos salvar.

Ganhou pouco no futebol. Comprou uma casa, ajudou o pai na compra de um sítio, está conseguindo dar educação às quatro filhas. Seu salário hoje é de 3 mil cruzeiros e, ao fazer aniversário das coisas que o futebol lhe deu, não se esquece de mencionar com um riso quase escandaloso: - Antes que esqueça: há oito anos, no Itabaiana, ganhei como bicho dois velocípedes para minhas filhas.

Deve rir de outras coisas. Do prefeito Raimundo Marinho, que promete decretar feriado no dia da despedida do velho jogador. Até mesmo de seu amigo e presidente do Penedense, José Paulo Barros, que fala em trazer grandes times do Sul para esse jogo do adeus. Saudado pela Gazeta de Alagoas(Vovô Xaxá: a nova esperança do Penedense”) Xavier, com sua ideia de jogar mais cinco anos, sabe muito bem que, salvo acidente futebolístico ou institucional, no dia em que ele parar haverá no mínimo um outro prefeito.

Quanto ao feriado, ele não se incomoda.

Bernardino Souto – para a Revista Placar

Atualmente Xavier, aos 76 anos ainda anda de bicicleta por toda a Penedo, brinca e se mostra alegre qual pássaro raro que deu todas as alegrias possíveis aos seus admiradores mesmo não tido sido escolhido pelo IBAMA do futebol para representar a espécie em extinção: o jogador de futebol.

E, não o mercenário do futebol.

 

Essa revista Placar fiz questão de presentear ao próprio Xavier.


Fonte: correiodopovo-al.com.br

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