Aguardar a Justiça

Entrevista exclusiva: 'Eu vou aguardar o que a Justiça decidir', diz Sari Corte Real

A primeira-dama de Tamandaré (PE) pode receber uma pena de quatro até 12 anos de prisão por abandono de incapaz. Mirtes, ex-empregada dela e mãe do menino, se emociona e diz que espera justiça: 'Que ela pegue a pena máxima'.

06/07/2020 por FANTÁSTICO

O Fantástico traz uma entrevista exclusiva com a mulher acusada de um ato criminoso que levou à morte de uma criança de cinco anos. Sari Corte Real, esposa do prefeito de Tamandaré, em Pernambuco, foi indiciada esta semana por abandono de incapaz e pode ser condenada até 12 anos de prisão.

No início de junho, ela deixou o menino Miguel, filho de sua empregada doméstica, sozinho no elevador do prédio. E foi essa decisão que provocou uma tragédia irremediável.

O que Sari tem a dizer sobre sua atitude naquele dia? E o que Mirtes, a mãe de Miguel, falou sobre a ex-patroa, a quem vê como insensível e irresponsável? A reportagem é de Beatriz Castro e Wagner Sarmento.

“Ele era tudo para mim. Ele era a minha vida. Eu não sei se essa dor vai passar, o que eu sei é que no momento agora está aumentando”, diz Mirtes, a mãe de Miguel.

Exatamente um mês e três dias sem o filho único: para Mirtes, que perdeu Miguel, de 5 anos, depois que ele caiu do nono andar de um prédio de luxo no Recife, o tempo passou a contar lentamente. Só o que aumenta é a dor. A maior de todas: quando uma mãe enterra um filho.

“E pensar que eu ainda tenho o resto da vida sem ele é o que dói mais ainda. Está muito difícil mesmo. Dói muito olhar para cada cantinho desta casa e não ter meu filho junto comigo. E cada dia que passa é mais difícil, mais difícil”, lamenta ela.

2 de junho: Mirtes saiu para passear com a cachorra da família onde trabalhava como empregada doméstica. O filho, Miguel, ficou aos cuidados da patroa, Sari Corte Real. “Ela disse: Mirtes pode ir que eu tranquei a porta”, relembra a empregada.

Imagens das câmeras de segurança mostram que, pelo menos por quatro vezes, Sari consegue convencer Miguel a sair dos elevadores. Na quinta tentativa, Miguel entra no elevador de serviço e a patroa da mãe parece tocar no botão da cobertura. Na sequência, Miguel aperta vários botões. E fica sozinho no elevador.

De acordo com a investigação, o elevador desce do quinto para o segundo andar. Miguel não sai. Depois, o elevador sobe até nono andar. Miguel sai e abre uma porta, escala uma janela, e usa a condensadora de ar condicionado como escada para descer do outro lado. Depois, sobe na grade. Uma das hastes se solta. Ele se desequilibra e cai de uma altura de 35 metros. Entre o momento que ele sai do elevador e a queda, se passaram 58 segundos.

“Ela foi irresponsável com o meu filho. Ela não cuidou do meu filho. No momento que ela deixa o meu filho dentro do elevador, em nenhum momento ela se preocupou em saber para qual andar o meu filho foi”, afirma Mirtes.

Sari Corte Real, que é casada com o prefeito de Tamandaré, recebeu o Fantástico e falou pela primeira vez sobre o caso. Ela preferiu dar entrevista sem máscara. A nossa equipe respeitou o distanciamento e usou máscaras.

Beatriz: Ele abriu a porta sozinho para ir atrás da mãe?
Sari: Para ir atrás da mãe.
Beatriz: E o que aconteceu quando você vai atrás dele e vê que ele está indo para o elevador?
Sari: Ele corre para o elevador, chama o elevador. Em um instante ele chega. Aí, quando abre a porta, eu digo: Miguel, você não vai descer. Volta para casa, espera sua mãe.
Beatriz: Você não apertou o botão da cobertura?
Sari: Não apertei. Eu só botei a mão, fazendo de uma forma como se eu fosse acionar.
Beatriz: Por que que você fez isso?
Sari: Para ver se eu conseguia, minha última alternativa para ver se eu convencia ele a sair. Para ver se dessa forma, se ele achasse que ia ficar lá, ele fosse sair.

Uma a lei municipal proíbe que crianças até dez anos andem sozinhas no elevador.

Beatriz: Ele não estava acostumado com elevador. Você não achou que ele poderia correr risco ali sozinho?
Sari: Não, isso não me passou pela cabeça.
Beatriz: Que é que você achou que poderia acontecer se ele ficasse sozinho no elevador?
Sari: Eu não achei que seria essa tragédia. Eu acreditei que ele voltaria para o andar, que ele voltaria para o quinto andar. Até porque ele sabia os números, sabia tudo. Eu imaginei que ele voltaria para o andar.
Beatriz: Ele conhecia os números? Ele saberia qual andar apertar dentro do elevador?
Mirtes: Miguel tinha um pouco de dificuldade com alguns números. Ele tinha facilidade com zero, com número um, dois, quatro, sete... E, assim, alguns números a gente tinha que dizer a ele como é que fazia, como o número nove,. Eu dizia: filho, o número nove você faz uma bolinha e puxa uma perninha para baixo.
Beatriz: Ele não sabia andar de elevador?
Mirtes: Não, ele não sabia andar de elevador. As pouquíssimas vezes que ele andou de elevador sempre estava acompanhado, tanto de mim quanto da minha mãe.

Beatriz: Quando você viu o Miguel no chão, e a mãe desesperada...
Sari: No primeiro momento, o que eu imaginei foi em socorrer, o que a gente podia fazer por ele... Eu dirigi, só Deus sabe como eu dirigi. Nunca cheguei tão rápido na minha vida num hospital. Eu fiquei com ela lá até por volta de 16h30, 16h45, que foi quando eu tive que vir para casa. Minha amiga precisava voltar para casa, para eu poder ficar com a Sofia.

Nesse momento, Sari ainda não havia contado a Mirtes o que havia acontecido no elevador.

O inquérito sobre a morte de Miguel foi concluído esta semana. Não fica claro se Sari apertou o botão da cobertura, mas o delegado explicou que este não era o fato mais determinante na investigação.

“Independentemente da ação, da conduta de pressionar ou não a tecla da cobertura, o que nós entendemos de relevante, já no ato de prisão flagrante delito dela, foi o que nos manteve, ainda assim, firmes no sentido de que aquela ação omissiva - perdão, aquela conduta omissiva -, de permitir o fechamento da porta, aquilo sim tem valor jurídico penal bastante relevante, inclusive para responsabilização penal”, explica o delegado.

No inquérito ao qual o Fantástico teve acesso com exclusividade, o delegado afirmou que, quando a porta do elevador se fechou, Sari voltou para o apartamento sem acompanhar a movimentação de Miguel para saber se ele estava subindo ou descendo. Ela podia ter conferido pelo visor que fica do lado de fora do elevador.

Beatriz: O delegado coloca no relatório que você não olhou no painel para saber o que aconteceu com o elevador: se ele subiu, se ele desceu. Você não se preocupou com o que ia acontecer depois?
Sari: Na mesma hora eu liguei para Mirtes. Mas, ao mesmo tempo, eu estava tentado acalmar a minha filha, que também estava desesperada com a situação. Eu me via ali, naquela situação, com toda aquela movimentação: minha filha, ele. Eu me senti ali naquela situação, sem conseguir falar com Mirtes, minha filha. Foi tudo muito rápido. Foi tudo muito rápido.
Beatriz: Mas muita gente se pergunta e perguntou até para você: porque que você não puxou e tirou o menino do elevador?
Sari: Porque o maior contato que eu tive com Miguel foram nesses dois meses na pandemia e, todas as vezes que precisou ser chamada a atenção dele, todas as vezes, eu solicitava ou a mãe ou a avó que fizessem isso. Eu nunca me dirigi diretamente a ele para repreender ele em nada. Sempre a mãe ou a avó. Eu não me senti segura para isso.

Outro detalhe crucial do inquérito foi revelado pela manicure que atendia Sari. No depoimento ela disse que Sari voltou para o apartamento e tentou continuar o tratamento das unhas enquanto ligava para Mirtes.

“Outros elementos de informação bastante importantes para o desfecho do caso, a exemplo do depoimento da manicure que lá trabalhava, de que a moradora retorna ao seu apartamento para a retomada dos serviços de manicure, tratamento e embelezamento das suas unhas, quando rapidamente acontece a tragédia”, fala o delegado.

Beatriz: Você tentou voltar fazer a unha?
Sari: Não deu tempo de sentar, não deu tempo de eu sentar.
Beatriz: Você voltaria a fazer a unha? Era esse o objetivo?
Sari: Jamais. Não, naquela situação não tinha como, não tinha cabimento um negócio desse, não tinha cabimento.

Esta semana Sari prestou depoimento. A delegacia abriu às 6h, duas horas antes do expediente normal para ouvir a primeira-dama de Tamandaré. Mirtes também esteve na delegacia e confrontou Sari.

“Ela não tem arrependimento nenhum. A cara dela mostra que ela não tem arrependimento nenhum pelo que ela fez com o meu filho. Se fosse eu que tivesse feito algo para os filhos dela, eu sairia dessa delegacia dentro de uma viatura da polícia, dentro de um camburão, ia direto para o presídio”, acusou Mirtes.

Beatriz: Você sente algum tipo de culpa? Ou de arrependimento?
Sari: Eu sinto que eu fiz tudo que eu podia. E, se eu pudesse voltar no tempo, eu voltava. Se eu soubesse que tudo isso ia acontecer, eu voltava no tempo e ainda tentava fazer mais do que eu fiz naquela hora.
Beatriz: O que que você faria de diferente?
Sari: Esperava mais. Não sei, não sei dizer. Eu só sei que eu fiz, naquela hora, tudo o que eu podia. E, em nenhum momento, eu fiz nada prevendo o que aconteceu. Em nenhum momento eu fiz nada prevendo o que aconteceu.

A Polícia Civil de Pernambuco justificou que a abertura da delegacia mais cedo foi um pedido da defesa, que temia aglomeração e algum tipo de agressão à Sari.

Depois da tragédia, ainda veio à tona uma irregularidade envolvendo o marido de Sari. Mirtes e a mãe dela, Marta, trabalhavam como domésticas para a família do prefeito, mas eram pagas pela prefeitura de Tamandaré.

Esta semana, o Tribunal de Justiça de Pernambuco determinou o bloqueio parcial dos bens do prefeito Sérgio Hacker Corte Real e o Ministério Público entrou com uma ação para que o prefeito responda por improbidade administrativa.

A mãe e a avó de Miguel não receberam um centavo depois da morte do menino. “Judicializamos, pedindo as verbas rescisórias, o reconhecimento do período contratual delas, pagamento de FGTS, de décimo, de tudo que corresponde à indenização à dispensa do funcionário”, conta Karla Cavalcanti, advogada trabalhista que representa Mirtes.

O Fantástico procurou o prefeito, que afirmou em nota que não foi comunicado oficialmente da ação judicial. Ele disse que vai recorrer da decisão de indisponibilidade de bens porque considera uma medida completamente desnecessária.

Ao concluir o inquérito depois de 30 dias de investigação, o delegado mudou o entendimento inicial sobre o crime cometido por Sari Corte Real. Os depoimentos e a perícia foram determinantes para essa mudança. Sari, que tinha sido autuada por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, vai responder por abandono de incapaz que resultou em morte.

“No momento em que essa criança de cinco anos entra num elevador sozinha, ela é abandonada à própria sorte, né? Poderia não ter ocorrido nenhum resultado mais grave, mas neste caso ocorreu. E esse resultado mais grave, embora não fosse desejo da pessoa que abandonou, ela vai ser responsabilizada por esse resultado em razão do comportamento anterior, que foi de abandono. Nesse caso específico, se houvesse apenas o abandono, a pena seria uma. Se houvesse apenas uma lesão corporal, a pena seria outra. E como houve morte, nós temos aí uma pena bem alta de quatro a 12 anos, que é bem maior do que a pena de homicídio culposo, que é de um a três anos”, detalha Thiago Bottino, professor de Direito Penal da FGV.

O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público, que vai decidir se oferece denúncia ou não. “Abandono é aquela vontade consciente de abandonar aquele incapaz; seja uma criança, seja um idoso. É a vontade consciente de abandoná-lo no elevador. Ela não teve essa vontade. Ela não conseguiu demovê-lo de ficar no elevador”, defende Célio Avelino, advogado de Sari.

Beatriz: O que você achou do resultado do inquérito: a mudança da tipificação do crime para um crime mais forte? Você não esperava?
Sari: Não, não dessa maneira. Não dessa maneira.
Beatriz: Você tem medo de parar na prisão, Sari?
Sari: Não, até hoje eu estou aqui firme, porque muita gente depende de mim. E, se lá na frente, o resultado for esse, eu vou cumprir o que a lei pedir. Eu acho que está na mão da Justiça, não cabe a mim, não cabe à mãe de Miguel julgar, não cabe à sociedade. Cabe à Justiça. Eu vou aguardar o que a Justiça decidir.
Beatriz: Você pediu perdão à Mirtes?
Sari: Pedi.

“Não tenho como perdoar ela, porque ela acabou com a minha - não só acabou com a vida do meu filho -, ela acabou com a minha vida”, afirma Mirtes.

O desfecho agora está nas mãos da Justiça. “Eu agora não tenho mais meu filho. Eu não tenho mais meu Neguinho por conta da irresponsabilidade dela, por conta da vaidade dela. Eu não tenho mais meu filho. Ela hoje tem dois filhos, graças a Deus. Eu não tenho mais nenhum para dar amor, carinho, atenção. Dar dengo como eu dava ao meu filho, dava tanto dengo ao meu neném. Que ela pegue a pena máxima. Eu tinha muitos planos, muitos sonhos, e todos eles incluíam meu filho e minha mãe. Infelizmente, tudo isso foi junto com meu filho no caixão e eu não parei ainda para replanejar minha vida. Porque o que eu quero realmente, o meu foco agora, é que se faça justiça pela morte do Miguel, que ela realmente pague pelo erro dela. Minha razão de viver agora é a justiça pela morte do meu filho”, emociona-se Mirtes.

 


Fonte: g1.globo.com

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