Não existe a expressão Polícia Federal, mas...

Vídeo registra insultos, ameaças e a intervenção de Bolsonaro na PF

* CELSO DE MELLO LEVANTA SIGILO DE REUNIÃO, QUE TEM 37 PALAVRÕES * PRESIDENTE DIZ TER APARATO PARTICULAR DE SEGURANÇA E PEDE POPULAÇÃO ARMADA * WEINTRAUB OFENDE STF

23/05/2020 por Redação

Não sabemos ainda (...) esse vírus, pra onde tá indo nosso barco. Pode tá indo em direção a um iceberg O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo [Doria], esse estrume do Rio de Janeiro [Witzel]

Jair Bolsonaro

presidente da República Por mim colocava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF

Abraham Weintraub

ministro da Educação Nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos

Damares Alves

ministra de Direitos Humanos

A reunião que precipitou a saída de Sergio Moro do governo Bolsonaro teve ao menos 37 palavrões, 29 ditos pelo presidente, insultos a governadores, ameaças a políticos, ofensas ao Supremo Tribunal Federal e a confirmação de que Jair Bolsonaro desejava interferir na Polícia Federal.

A gravação do encontro, de 22 de abril, foi liberada ontem pelo ministro Celso de Mello, condutor do inquérito no STF que apura a acusação do ex-ministro da Justiça contra o chefe.

No vídeo, Bolsonaro demonstra grande preocupação em ser destituído, revela contar com sistema “particular” de informação, alheio aos órgãos oficiais , reforça os indicativos de ingerência na polícia e utiliza reiteradas vezes a palavra “bosta”.

Cobra de forma veemente lealdade de seu gabinete, citando diversas vezes o risco de impeachment, e ameaça rupturas institucionais quanto a eventuais atos do STF. Defende ainda que a população se arme para reagir a decisões de autoridades locais que considera ditatoriais.

O tom ofensivo é replicado por ministros. Abraham Weintraub (Educação) chama ministros do Supremo de “vagabundos”, e Damares (Direitos Humanos) fala em pedir a prisão de políticos que adotam ações vistas como arbitrárias na pandemia. Ninguém fala dos mortos.

A imprensa é alvo: Bolsonaro ameaça demitir quem for elogiado pela Folha, a que chama de “bosta”. Para o presidente, a divulgação do vídeo foi “mais um tiro n’água”.

brasília A divulgação, nesta sexta-feira (22), do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril mostrou grande preocupação de Jair Bolsonaro em ser destituído. O presidente da República revelou, também, que conta com sistema de informação particular, alheio a órgãos oficiais, e reforçou as indicações de interferência política na Polícia Federal.

O encontro, recheado de palavrões, ameaças de prisão, morte, rupturas institucionais, xingamentos e ataques a governadores e integrantes do Supremo Tribunal Federal, foi tornado público em quase sua integralidade pelo ministro da corte Celso de Mello.

A gravação da reunião foi entregue pelo governo ao STF no inquérito que apura as acusações do ex-ministro Sergio Moro (Justiça), que deixou o cargo acusando o chefe de tentar interferir politicamente na PF.

No encontro, o presidente diz que tem um sistema “particular” de informação que funciona bem, diferentemente dos órgãos oficiais, reforça os indicativos de interferência na PF para proteger familiares e amigos e usa reiteradas vezes a palavra “bosta” e congêneres para se referir a políticos como os governadores João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ). Foram ao menos 37 palavrões, 27 deles proferidos pelo presidente. Já ações de combate à pandemia são tratadas de forma lateral na reunião.

Bolsonaro cobra de forma veemente lealdade de ministros, cita diversas vezes o risco de que sofra impeachment, ameaça rupturas institucionais em caso de eventuais decisões de ministros do STF e defende que toda a população se arme para reagir a decisões de autoridades locais que ele considera serem ditatoriais.

“Se reunindo de madrugada pra lá, pra cá. Sistemas de informações: o meu funciona. O meu, particular, funciona. Os ofi... que tem oficialmente, desinforma [sic]. Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho”, diz Bolsonaro, sem deixar claro que sistema privado seria esse.

Nesta sexta, após a divulgação do vídeo, Bolsonaro falou mais sobre esse sistema paralelo em entrevista à noite na porta do Alvorada.

“É um colega de vocês da imprensa que com certeza eu tenho, é um sargento no Batalhão de Operações Especiais no Rio, um capitão do Exército em Nioaque [município de Mato Grosso do Sul[, é um capitão da Polícia Civil em Manaus, é um amigo que eu fiz em um determinado local”, disse.

Segundo interlocutores de Moro, a queixa de Bolsonaro sobre o sistema de informação foi um ataque direto ao então titular da Justiça. O presidente teria requerido à equipe do ministro que levantasse se o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tinha se reunido com autoridades numa madrugada para tramar um impeachment.

Moro afirmou a ele que o encontro não existiu. Diante disso, o presidente, irritado, disse que sua rede de informações privada era mais eficiente.

Na sequência, Bolsonaro se queixa da falta de dados dos órgãos de inteligência e de uma suposta perseguição a irmãos. Então, faz uma declaração central para o inquérito que apura se ele tentou, de fato, interferir indevidamente na PF, especialmente na superintendência do Rio.

“Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”.

Em depoimento, Moro afirmou que Bolsonaro se referia à mudança em postos-chave da PF, preocupado com apurações em curso.

O presidente sustenta que da troca de equipes do Gabinete de Segurança Institucional, responsáveis por proteger seus familiares, versão que se enfraquece mais ainda com a

“Sistemas de informações: o meu funciona. O meu, particular, funciona. Os ofi... que tem oficialmente, desinforma [sic]. Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho

divulgação do vídeo.

Dois dias depois do encontro com os ministros no Palácio do Planalto, o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, foi demitido por Bolsonaro. O primeiro ato da nova gestão do órgão foi trocar o superintendente no Rio.

Em outro trecho da reunião, Bolsonaro confirma o interesse em intervir na polícia, mas também em outros órgãos do Executivo. Ele cita “PF” (sigla de Polícia Federal) num contexto de insatisfação com a falta de informações de inteligência. E a relaciona entre os órgãos que seriam objeto de sua interferência. “A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção.”

O conteúdo da reunião foi divulgado quase que na íntegra. Celso de Mello só manteve sob sigilo trechos em que há referência a outros países.

Em relação aos políticos, Bolsonaro abusa de palavrões.

“Que os caras querem é a nossa hemorroida! É a nossa liberdade! Isso é uma verdade. O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo [Doria], esse estrume do Rio de Janeiro [Witzel], entre outros, é exatamente isso. Aproveitaram o vírus, tá um bosta de um prefeito lá de Manaus [Arthur Virgílio] agora, abrindo covas coletivas. Um bosta. Que quem não conhece a história dele, procura conhecer, que eu conheci dentro da Câmara, com ele do meu lado!”, diz.

A gravação vem a público um dia depois de Bolsonaro se reunir em uma amistosa videoconferência com os governadores. Citando supostas atitudes arbitrárias de governadores e prefeitos, ele defende armar toda a população.

“Eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo!”

O tom ofensivo da reunião é replicado por ministros e auxiliares.

Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final!

A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção Jair Bolsonaro em 22 de abril

Abraham Weintraub (Educação), por exemplo, diz que, se dependesse dele, colocaria “esses vagabundos todos na cadeia”, em referência aos ministros do STF. Damares Alves (Família e Direitos Humanos) fala que sua pasta irá processar e pedir a prisão de governadores e prefeitos, que, segundo ela, estão adotando ações arbitrárias no combate ao coronavírus.

Doria e Witzel falaram sobre os ataques na reunião. Segundo Doria, “o Brasil está atônito com o nível da reunião ministerial”, e os termos usados “demonstram descaso com a democracia”. Witzel disse que a “falta de respeito de Bolsonaro pelos Poderes atinge a honra de todos”.

Sem ter visto o vídeo, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que “alguns ministros não precisam de reunião reservada para ser agressivos e nem atacar as instituições”.

Os arroubos não se limitaram aos ministros. O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, disse que se um policial prendesse sua filha por descumprimento das regras de distanciamento social, poderia “matar ou morrer”. “Que porra é essa? O cara vai pro camburão com a filha. Se fosse eu, ia pegar minhas quinze armas e... ia dar uma... eu ia se... eu ia morrer. Porque se a minha filha fosse pro camburão, eu ia matar ou morrer.”

Já Ricardo Salles (Meio Ambiente) propõe que o governo aproveite a crise sanitária para aprovar reformas infralegais, incluindo alterações ambientais.

A análise das revelações desta sexta-feira ficará a cargo do procurador-geral da República, Augusto Aras, indicado ao cargo por Bolsonaro e autor, até agora, de manifestações favoráveis a interesses do Palácio do Planalto.

A decisão de Celso de Mello tem 55 páginas e é a mais extensa proferida pelo ministro no inquérito. Ele decidiu liberar a divulgação do vídeo afirmando, entre outros pontos, que não há “espaço possível reservado ao mistério na vigência da Constituição”. Matheus Teixeira, Fábio Fabrini, Ricardo Della Coletta, Talita Fernandes, Gustavo Uribe, Renato Onofre e Ranier Bragon


Fonte: pressreader.com - Folha de S.Paulo

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