Liberação do vídeo compromete fim do governo

Vídeo de reunião demonstra miséria moral e falta de preocupação com pandemia, dizem colunistas do GLOBO

Merval Pereira, Míriam Leitão e Ascânio Seleme analisam as imagens que revelam as entranhas do governo

23/05/2020 por Redação

RIO — Aberto por determinação do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, o HD externo número 195.1992, patrimônio da Presidência da República, foi tornado público sexta-feira como parte da investigação que pretende descobrir se o presidente Jair Bolsonaro tentou intervir politicamente na Polícia Federal, como denunciou o ex-ministro da Justiça Sergio Moro.


Vídeos: Confira os principais momentos da reunião citada por Moro

Gravada no dia 22 de abril, quando o Brasil registrava 45.757 casos do novo coronavírus e 2.906 mortes, a reunião ministerial se soma a outros indícios que compõem o inquérito nas mãos da Procuradoria-Geral da República.

Para além dos trechos diretamente relacionados à tentativa de interferência na PF, a divulgação do vídeo expôs outras faces do governo. Bolsonaro chegou a defender que a população se arme para reagir a medidas de isolamento social, enquanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, advogou que se aproveite as atenções voltadas à pandemia para afrouxar a legislação ambiental. Nos trechos que foram divulgados, pouco foi falado sobre como reduzir o índice de contágio que seria praticamente multiplicado por dez em pouco tempo.

Merval Pereira
Vergonha nacional
Todo mundo sabe que o presidente Bolsonaro interveio na Polícia Federal, e é preciso ser um nefelibata para acreditar que essa intervenção não tinha intenções não republicanas. Mas, como tudo na vida, depende de quem quer ver e escutar. Agora, é a vez do atual procurador-geral, Augusto Aras, querer ou não ver e ouvir.

Se, como tudo indica, ele decidir arquivar o processo, sem oferecer a denúncia, estará fazendo como o centrão, que provavelmente protegerá Bolsonaro como protegeu Temer, em troca de cargos no governo. Fechando os olhos para as evidências, sem se esforçar para juntar dois mais dois. (Leia mais)

Ascânio Seleme
O golpista e o interventor
A nação assistiu estarrecida ao vídeo da fatídica reunião ministerial que culminou na demissão do ministro da Justiça, Sergio Moro. Foi um festival de barbaridades e palavrões capaz de fazer corar até mesmo Celsinho da Vila Vintém. Tão grave quanto a reunião, ou até mais, foi a nota do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que ameaçou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, e de resto todo o país, numa defesa despropositada do presidente Jair Bolsonaro. Foi a declaração mais acintosamente antidemocrática de um general desde o fim da ditadura, há 35 anos. (Leia mais)

Míriam Leitão
Brasil à deriva no meio da tragédia
O mais espantoso na reunião é o conjunto. São duas horas repletas de palavrões e delírios, de escárnio e desrespeito com o país. O Brasil atravessando a sua pior crise em décadas, e em nenhum momento o presidente fala da pandemia como um problema que o preocupasse. Essa ausência choca. Suas falas coléricas são concentradas na defesa da sua família e dos amigos, no insulto aos adversários políticos, e em ordens para que os ministros defendam o governo. E sim, ele claramente quis interferir na Polícia Federal e disse que tem um sistema particular de informação. Na breve fala do ministro Nelson Teich, ele disse “a gente não é um barco à deriva”. Engano. Aquela reunião prova que o Brasil não tem governo, está à deriva no meio de uma tragédia. 


Fonte: OGlobo.com

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