UFC em 2020

Jon Jones revela conversa com o UFC: "Antes mesmo de falarmos de dinheiro ouvi um 'Não' seco"

Campeão dos meio-pesados diz que esperava ser compensado por arriscar a vida contra Francis Ngannou: "Estou disposto a lutar com o cara mais assustador do planeta e eles não me pagam?"

23/05/2020 por Combate.com

A relação entre o UFC e Jon Jones definitivamente sofreu um duro golpe na última quinta-feira. O lutador, que esperava receber um aumento nos valores do seu contrato ao subir para o peso-pesado e fazer uma superluta contra o camaronês Francis Ngannou, foi pego de surpresa com a negativa imediata de reajuste por parte da organização. Em entrevista exclusiva ao programa "MMA Road Show", Jones revelou a conversa que teve com alguém que ele reputa como "um das cabeças do UFC" e a posição que a direção da empresa teve sobre a sua expectativa de receber um reajuste compatível com o passo que ele estava prestes a dar.

- Tive uma conversa com um dos cabeças do UFC, e antes mesmo de falarmos sobre dinheiro - e não foi o caso de eu ter pedido muito dinheiro -, eu ouvi um "Não" seco, direto. Eles não falaram nada sobre bilheteria, pandemia ou algo do tipo. Apenas disseram achar que cuidam muito bem de mim e que, se eu quisesse ganhar dinheiro de verdade, esse dinheiro inevitavelmente viria da venda de pacotes de pay-per-view da luta contra Francis Ngannou, e de outras desse nível. Mas o contrato permaneceria o mesmo caso eu subisse para os pesados. O problema é que estava nos meus planos fazer as minhas maiores lutas na reta final da carreira, e agora eu sei que não darei esse tipo de salto na minha vida. É ruim, porque você sente que alguém está te colocando freios, colocando um limite nas suas possibilidades.


Jones garantiu que nunca falou abertamente com o UFC sobre a ida para a maior categoria do MMA mundial, mas revelou que, sempre que o assunto foi abordado, ouviu da organização que, quando fosse chegada a hora, a negociação seria em cima de números que mudariam a sua vida. Para ele, isso não foi cumprido nessa semana, mesmo diante do risco que ele acredita que correria em enfrentar alguém muito maior e mais pesado que ele no octógono.

- Nós nunca falamos seriamente sobre os pesos-pesados, mas nas poucas vezes em que tocamos no assunto, eles deixaram claro para mim que, quando estivesse pronto para subir de categoria, nós voltaríamos à mesa de negociações e discutiríamos sobre números que mudariam a minha vida. Vamos falar abertamente: Jon Jones x Stipe Miocic? Superluta. Daniel Cormier? Superluta. Logo, Francis Ngannou também é uma superluta. Mesmo que não quisessem mudar o meu contrato, o fato é que eles não estão dispostos a fazer sequer um contrato especial, de apenas uma luta, para que eu enfrente um cara 20kg mais pesado que eu, o cara mais assustador do planeta - Francis Ngannou, o cara que ninguém quer enfrentar. Estou disposto a encará-lo mesmo sendo menor e vocês não querem me pagar US$ 1 a mais? Estão me dizendo que essa luta tem o mesmo valor de eu enfrentar Jan Blachowicz? Me senti insultado. Todos gostariam de me ver correndo esse risco, e eles não me ofereceram nada em troca. Absolutamente nada.

A promessa que foi feita pelo UFC, segundo o lutador, era de que, caso ele decidisse subir para os pesados, haveria um novo contrato, com um novo acordo sobre os termos financeiros, e que isso o fez imaginar que, após fazer tudo o que havia para ser feito nos meio-pesados, seria chegada a hora de discutir esses termos. O UFC, no entanto, não teria cumprido essa expectativa, o que desanimou o lutador.

- Honestamente, minha situação atual me deixa chocado. O UFC disse a mim e ao meu empresário por anos que, se eu algum dia quisesse chegar a um determinado nível no esporte e realmente quisesse atingir um certo nível de pagamento, eu teria que sair da minha zona de conforto e fazer as mega-lutas, especificamente nos pesos-pesados. eles foram claros quando disseram que reformulariam o meu contrato no dia em que eu decidisse ir para o peso-pesado, e que seria um acordo diferente. Por conta disso, eu sempre tive claro para mim que eu lutaria por muito tempo no peso-meio-pesado, até o momento em que não houvesse mais nada a provar, e me aposentaria como peso-pesado após fazer lutas realmente grandes - colocando tudo em risco contra lutadores que podem causar danos sérios. Na quinta-feira eu descobri que nada disso iria acontecer, e fiquei muito frustrado. Senti que alguém estava colocando um limite no meu horizonte.


Jones não escondeu que, se for preciso, abrirá mão do cinturão caso o UFC queira que haja uma disputa, e voltará apenas quando achar que o UFC pagará o valor que ele considera justo para que ele faça uma luta "grande de verdade".

- Se é assim que o UFC se sente em relação a mim, e acha que é isso que eu mereço - não receber uma fatia da torta - então não preciso viver de acordo com a agenda deles. Acho que não preciso responder a eles se é assim que vão me tratar. Não vejo problemas em eles me tirarem o cinturão e fazerem alguém lutar pelo título. Vou voltar quando achar que estou pronto e ver quanto eles estão dispostos a pagar pela luta grande de verdade. Mas, por enquanto, o que eu tenho a ganhar enfrentando Jan Blachowicz ou Dominick Reyes? Não tenho muito a ganhar em nenhuma dessas situações. Sempre deixei claro que os meus melhores dias acontecerão quando eu me tornar um peso-pesado, mas eles fizeram uma lambança imensa. Não vou mentir, estou magoado.

Em outro ponto da entrevista, o atleta deixou claro que não se conforma em ver o UFC pagando "dezenas de milhões de dólares" a outros lutadores, e se recusando a aumentar os valores do seu contrato para que ele faça " luta mais arriscada da história do esporte".


- Vocês pagam dezenas de milhões de dólares para outros lutadores, mas se recusam a me dar US$ 1 extra para colocar minha vida em risco contra Francis Ngannou? Me pedem para fazer a luta mais arriscada do UFC e não me pagam a mais por isso? Essa é provavelmente a luta mais arriscada da história do esporte, levando-se em conta as habilidades dele e a nossa diferença de tamanho. Onde está a compensação pelo fator de entretenimento de ver Francis Ngannou contra um adversário 20kg mais leve que ele? Qual a minha compensação por isso? Esse é o meu ponto.

Para Jon Jones, a necessidade de lutar não é mais uma realidade. O campeã dos pesos-meio-pesados acredita que, no cenário atual da categoria, ele acaba sendo uma espécie de chance de sucesso para seus oponentes, sem ter quase nada a ganhar com isso. Jones citou Thiago Marreta e Dominick Reyes como exemplos de atletas que saíram das suas lutas contra ele com um status muito maior do que quando entraram, mesmo tendo sido derrotados.

- Acho que estou em uma boa situação na minha vida. Mesmo no meio da acusação de dirigir bêbado - que eu sei que confundiu muita gente e os fez pensar que as coisas estão indo mal - eu estou em uma posição ótima, e não tenho necessidade de lutar. Hoje em dia, eu acho que dou aos meus oponentes uma chance. Se eu não tiver uma performance em altíssimo nível, eu passo a ter mais a perder do que a ganhar. Thiago Marreta foi de um lutador relativamente anônimo ao maior lutador do Brasil após a nossa luta. Dominick Reyes é agora oficialmente o rei de Apple Valley.


Aos 32 anos de idade, Jon Jones revelou também que a pandemia do coronavírus o afetou internamente, e acendeu dentro dele uma vontade de fazer as coisas sem ter que esperar muito. Uma delas, segundo ele, é intensificar a mudança corporal para se tornar um peso-pesado quando puder voltar a lutar.

- Essa pandemia me ensinou muito sobre a vida, e me mostrou o quanto eu sou abençoado, além de me fazer ver que devo viver enquanto tenho chance. Quando eu for velho, quero me olhar no espelho e dizer que aceitei os maiores desafios, e também quero ter sido recompensado por isso. Mas alguma coisa mudou dentro de mim durante a pandemia. Esse negócio de esperar para ver o que acontece acabou. Quero viver o agora. Estou pronto para ser o melhor pai que puder, o melhor atleta que eu puder, e também para me desafiar. Estou preparado para algumas coisas que sempre quis fazer e me pergunto: "Por que esperar?" Fiz tudo nos meio-pesados, e estou com 32 anos. É a idade perfeita para fazer o que eu quero. Estou em quarentena agora, e tenho tempo para ganhar peso e reaparecer como peso-pesado quando a pandemia acabar.

O lutador encerrou a entrevista dizendo que se sente frustrado por sentir que limitaram seu crescimento como atleta ao mostrarem que uma mudança do tamanho que para ele é subir para os pesos-pesados e encarar um grande desafio não teria valor adicional nenhum em comparação ao que ele já faz nos pesos-meio-pesados.

- Colocaram um limite à minha frente. Eu estava disposto a mergulhar de cabeça e dar um show para os fãs, e eles me frustaram dizendo que isso não tem valor algum. Eu ganharia literalmente a mesma coisa que se lutasse contra Jan Blachowicz. Pergunte a qualquer fã razoável: "Com quem você lutaria?" eles estão me dizendo que não importa contra quem você vá lutar, a sua valorização será a mesma. Eu posso falar a besteira que eu quiser, postar vídeos no Instagram o dia todo e me vestir da melhor maneira que puder, mas não posso controlar quem vai escolher as lutas. De certa forma, vocês estão amarrando as minhas mãos.

Também entrevistado pelo programa, o empresário de Jon Jones, Ibrahim Kawa, garantiu que o lutador está ciente do momento financeiro do UFC, abalado pela pandemia e eplas circunstâncias que o novo cenário traz para as empresas em geral, mas ressaltou que o risco que seu cliente corre com essa mudança precisa ser valorizado, independente da sua participação percentual nas vendas de pay-per-view.

- O risco de pegar essa luta precisa ser compensado, com ou seu participação no pay-per-view. Não importa. Uma luta contra Jan Blachowicz tem um determinado valor em dinheiro, e o risco é de certa forma muito menor. Quando o risco de enfrentar potencialmente muito mais danos enfrentando um cara que certamente pode causá-los aparece, acho que os números deveriam ser muito mais altos. Jon está assumindo o risco. Onde está o risco do UFC em Jones x Ngannou? Eles não correm risco nenhum. Vão ganhar muito dinheiro, essa é a verdade. Dizer que "não existe a possibilidade dessa luta vender menos de um milhão de pacotes de pay-per-view" não é correr risco.

O empresário também explicou que a ideia de Jones é ter a garantia de que a luta acontecerá dentro de termos financeiros que o agradem, para que ele possa se preparar por seis ou sete meses da forma adequada e consiga dar o show que os fãs esperam.

- Jon não está pedindo para lutar mês que vem, no meio da pandemia, e exigindo mais dinheiro. O que ele diz é: "Quero saber que tenho uma luta garantida em vista, e precisarei de tempo para preparar o meu corpo. Nesse tempo, se tudo der certo, a pandemia terá acabado e voltaremos à vida normal dentro do possível, e aos negócios. Ele quer de verdade saber que tem uma luta programada para poder ganhar massa muscular da forma correta, e talvez em seis ou sete meses estaremos olhando para uma arena lotada para essa luta.


Fonte: globoesporte.globo.com

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