Bolsonaro foi eleito com apoio dos evangélicos

Grupos evangélicos repudiam e pedem saída de presidente

A desinformação e a disseminação de fake news, até promovidas por Jair Bolsonaro, têm colocado a vida de irmãos e irmãs em risco Caio Marçal da coordenação nacional da Rede Fale

23/05/2020 por Thaiza Pauluze

Uma carta assinada por 34 organizações e movimentos evangélicos pede o afastamento de Jair Bolsonaro da Presidência, defende o isolamento social, apoia a ciência e pede que as igrejas fiquem com as portas fechadas.

“Elas [igrejas] podem facilitar a inserção de famílias pobres no acesso a auxílio. Mas, a desinformação e a disseminação de fake news, até promovidas por Jair Bolsonaro, têm colocado a vida de irmãos e irmãs em risco Caio Marçal da coordenação nacional da Rede Fale, uma das signatárias da carta

são paulo Uma carta assinada por 34 organizações e movimentos evangélicos pede afastamento de Jair Bolsonaro (sem partido) da Presidência, defende o isolamento social para conter a pandemia do novo coronavírus, apoia a ciência e pede que igrejas fiquem com as portas fechadas.

Bolsonaro foi eleito com apoio de fiéis e líderes do segmento religioso. Mas parte dos evangélicos diz que Bolsonaro tem se comportado de forma antiética e “dado provas de que não está à altura do cargo”.

O documento intitulado “O governante sem discernimento aumenta as opressões - Um clamor de fé pelo Brasil” diz que o governo federal “atenta contra a vida humana ao invés de praticar a justiça e compaixão pelos pobres”, referindose a uma passagem bíblica.

As organizações também declaram apoio às universidades e aos centros de pesquisa, aos pesquisadores e cientistas, e dizem repudiar os pronunciamentos de Bolsonaro contrários às recomendações de especialistas da saúde.

“Reconhecemos a ciência como dom de Deus para cuidar da vida humana e toda a sua criação. A fé e a ciência são aliadas, caminham juntas e exaltam o poder divino”, diz o texto. “Nossa gratidão e solidariedade para com os profissionais de saúde que têm experimentado grande desgaste físico e emocional.”

As entidades manifestam solidariedade e luto pelos 20 mil mortos por Covid-19 no país e pedem que igrejas não promovam cultos públicos, com aglomeração, mas sim usem suas estruturas para ajudar no combate da pandemia.

Na periferia paulistana, igrejas evangélicas mantêm cultos presenciais, como a Plenitude do Trono de Deus, em Guaianases (zona leste), a igreja Paz e Vida, em Cidade Ademar( zona sul ), além de váriasun idades da Deu sé Amore aAdap (Assembléia de Deus Ministério Apostólico), em Poá.

Também há igrejas que adotaram os cultos online e outras que fecharam o espaço para aglomerações, mas o deixam aberto para quem procura.

As igrejas obtiveram em decreto presidencial, contestado na Justiça, o status de atividade essencial, o que permite que continuem recebendo público.

Acarta cobra que prefeituras e governos estaduais garantamo isolamento social.

“Não há razoabilidade em se opor acrise nas aúdeà crise econômica. É falsa tal divisão. Não se pode minimizar uma situação de pandemia em favor de lucros”, afirma o texto.

O grupo propõe que o Tribunal Superior Eleitoral proceda o julgamento das Ações de Investigação Judicial que pedem a cassação da chapa de Bolsonaro e Hamilton Mourão, em razão da disseminação de fake news na campanha eleitoral.

Entre os que assinam estão a Aliança de Batistas do Brasil, Cristãos Contra o Fascismo, Comunidade Cristã da Lapa, Congrega, Cristãos pela Justiça, Evangélicos pela Justiça, Evangélicos Trabalhistas (ligados ao PDT), Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Instituto Guarani, Liberta, Missão Aliança, Nossa Igreja Brasileira, Movimento Negro Evangélico e Núcleo de Evangélicas e Evangélicos do PT.

Os evangélicos, porém, tendem a avaliar de forma mais positiva Bolsonaro e a relativizar a pandemia, segundo pesquisa Datafolha feita no início de abril. O índice de ótimo ou bom atribuído à condução da crise pelo presidente passa de 33% na população em geral para 41% quando considerados só os evangélicos.

Enquanto na população em geral 37% consideram que a população deve sair para trabalhar, em vez de ficar em isolamento, entre evangélicos esse número sobe para 44%.

Bolsonaro costuma fazer gestos ao segmento religioso, como comparecer a eventos, e já falou em nomear para o STF ministro “terrivelmente evangélico”. O presidente se declara católico, mas sua mulher, Michelle, é evangélica.

Nilza Valéria, integrante da coordenação nacional da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, signatária da carta, critica o novo protocolo do Ministério da Justiça sobre o uso da cloroquina, divulgado nesta quarta (20). “Não é o presidente que determina o medicamente que deve ser usado.”

Caio Marçal, da Rede Fale, que assina a carta, diz que há falso dilema de que a religião se opõe à ciência. “O saber é divino. Quando se trabalha contra a ciência, se desmerece a ação criativa dada por Deus aos seres humanos para que possam desenvolver métodos de proteção das vidas.”


Fonte: Folha de S.Paulo

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