Desmatamento no Amazonas

Como o desmatamento se alastra na Amazônia durante escalada de pandemia do Coronavírus

Pesquisadores constatam a coincidência de dois picos simultâneos: de casos de Covid-19 e de registros de destruição da floresta, ambos com consequências dramáticas para a população local

23/05/2020 por Danilo Thomaz

Marcado pela escalada do coronavírus no Brasil, o mês de abril também registrou um outro aumento: nos alertas de desmatamento da Amazônia. O número subiu 63,75% em relação ao mesmo mês do ano passado. Em relação a março de 2020, o aumento foi de 24,2%. No primeiro quadrimestre deste ano, o aumento foi de 55% em relação ao mesmo período de 2019. Os dados são do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE.

De acordo com o ex-Diretor Geral do Serviço Florestal Brasileiro e atual Coordenador do Projeto MapBiomas, Tasso Azevedo, a tendência de aumento é melhor verificada nos dados do primeiro quadrimestre do que a comparação mês a mês, uma vez que a presença de nuvens pode influir na comparação. Ele afirma que ainda não é possível estabelecer uma relação entre a pandemia e o aumento do desmatamento.

"Isso [o aumento do desmatamento] está acontecendo a despeito da pandemia. Você deveria esperar que, com a redução da atividade econômica, haveria uma redução do desmatamento. E o desmatamento continua. [Ele acontece] Pela falta de ações que nos últimos meses com o desmantelamento do Ibama, do ICMBio, a MP da Grilagem, vista grossa às invasões de terras indígenas. Isso tudo forma o conjunto do aumento do desmatamento."

Para o diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), André Guimarães, o aumento do desmatamento "certamente tem uma relação" com a quarentena decretada em meados de março. "Eu gosto muito de dizer que, enquanto as pessoas de bem e as forças policiais e de controle do estado brasileiro estão dedicadas a mitigar o vírus, a grilagem e os bandidos continuam não estando em quarentena. Há um descontrole no processo que está ligado à crise da Covid-19."

Com uma experiência de 25 anos de atuação na região amazônica - e, recentemente, no Cerrado - Guimarães espera também que, após o aumento de 29,5% do desmatamento entre agosto de 2018 e julho de 2019 em comparação ao período de agosto de 2017 a julho de 2018, haja um aumento das queimadas neste ano, a partir do mês de maio, até agosto. Esses meses são conhecidos como o "período do fogo" na Amazônia, quando, em decorrência do tempo seco, as terras desmatadas no ano anterior são queimadas para a ocupação do território para fins de pastagem.

"O fogo tem uma dinâmica que é a seguinte: os ilegais, os grileiros derrubam a floresta num ano, deixam essa matéria secando, e no ano seguinte, em geral, isso [o território desmatado] é queimado. Muitas das queimadas que vamos ver neste ano vai ser alimentada pelo desmatamento que aconteceu no ano passado. Nós estamos vendo um cenário de agravamento sucessivo desse problema de queimada e dos incêndios florestais. Como teve um aumento no desmatamento, nós devemos, por lógica, observar um aumento dos incêndios florestais", conta Guimarães.

Neste ano, o "período do fogo" coincidirá com o pico da pandemia do coronavírus no Brasil, previsto para acontecer entre maio e julho. A região Norte tem, hoje, a maior incidência de casos confirmados no Brasil: 219,6 por 100 mil habitantes, quase o dobro do Nordeste, em segundo lugar, com 126,3 casos por 100 mil habitantes. Os estados do Amazonas e Amapá têm, respectivamente, 443,8 e 429,2 casos por 100 mil habitantes. Manaus, capital do Amazonas, foi a primeira cidade cujo sistema de saúde entrou em colapso no Brasil, ainda em abril.

"Esse processo dos incêndios florestais, por si, já gera muitas internações por conta de problemas respiratórios ligados à fumaça. Mesmo em anos normais você já tem esse problema da sobrecarga do sistema de saúde", afirma Guimarães.

O professor adjunto no Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas, da Universidade Federal do ABC (UFABC), Thiago Morello, é um dos autores de uma nota técnica, publicada neste mês, em que alerta para o risco de uma dupla epidemia nos estados da Amazônia.

"A pandemia evolui em direção ao pico em todos estados da Amazônia. Ou seja, é não desprezível a probabilidade de um duplo pico de infecções, com a concomitância da aceleração do COVID-19, e do salto sazonal das queimadas. Algo extremamente preocupante para uma das regiões mais carentes do País e em que boa parte da população vive em locais remotos e tem de percorrer em alguns casos centenas de quilômetros para ter acesso a atendimento médico."

Segundo Morello, as famílias de baixa renda devem ser as mais afetadas. "Esse grupo social habita tanto áreas urbanas como rurais da Amazônia, depende de trabalho informal e geralmente pago na base de diárias. Muitos moram em habitações irregulares e inadequadas. Tais fatores dificultam o cumprimento da quarentena. Também deve ser destacado que os agricultores familiares, ribeirinhos, indígenas e quilombolas, predominantemente pertencentes ao grupo de baixa renda, [e que] residem em áreas rurais remotas. Mesmo sofrendo menor risco de infecção pelo COVID-19, talvez sofram maior risco de mortalidade uma vez infectados, exatamente por conta do acesso limitado a tratamento médico. Além disso, os residentes da área rural são os alvos primários da poluição gerada pelas queimadas por dependerem desta prática e residirem nas proximidades de outras famílias que também dependem. Daí a grande dificuldade de desenhar uma ação governamental para conter o impacto do duplo pico, pois os grupos de baixa renda da área rural queimam para assegurar sua subsistência com plantios de um a três hectares."

Em 11 de maio, o governo federal anunciou que o Exército atuará na fiscalização da Amazônia, como forma de coibir o desmatamento e as queimadas por meio da Operação Brasil Verde Brasil 2. O foco será em áreas públicas, de preservação e terras indígenas. A Operação será feita por meio da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e foi idealizada em reuniões no Conselho da Amazônia. Comandado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, o Conselho conta com 19 representantes das Forças Armadas e nenhum representante da Funai e do Ibama.

"É bom ter a participação do Exército, das Formas Armadas nessas ações, isso não é novidade. A diferença agora é a aplicação da GLO, que dá um poder a mais para o Exército. Mas é uma operação muito cara em termos de combate ao desmatamento. A melhor aplicação dos recursos seria fortalecer os órgãos como o Ibama e o ICMBio e contar com a participação do Exército para ajudar no trabalho", afirma Azevedo, que alerta também para a importância da punição dos casos de desmatamento ilegal.

"O mais importante é você garantir que quem desmatou pode ser punido por isso."


Fonte: epoca.globo.com

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