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Argentina, Paraguai e Uruguai destoam na América Latina

Quadro de aumento de infecções fez OMS classificar região como novo epicentro da pandemia

23/05/2020 por Bruno Benevides

Cercados de vizinhos em que a Covid-19 está sem controle, os três países têm conseguido contê-la após medidas duras no início da pandemia.

são paulo Jair Bolsonaro classificou a Covid-19 de “gripezinha”. Para o presidente chileno, Sebastián Piñera, ela é o “inimigo comum”. Já o peruano Martín Vizcarra afirmou que “o importante é cuidar do ser humano”, enquanto o mexicano Andrés Manuel López Obrador pediu, num primeiro momento, beijos e abraços contra o coronavírus.

Apesar das diferentes opiniões de seus presidentes sobre a pandemia —e das estratégias adotadas—, os quatro países enfrentam agora uma disparada no número de casos confirmados da doença.

A situação fez o diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, afirmar nesta sextafeira (22) que a América Latina é o novo epicentro da pandemia no mundo.

Mas o cenário não é igual em toda a região. Na quinta (21), Paraguai e Uruguai registraram apenas três novas infecções cada um, enquanto Brasil, Chile, Peru e México estão entre os dez países no mundo com mais casos novos diários.

A diferença nos números na América Latina chama a atenção especialmente porque as estratégias adotadas por cada país têm variado muito —na Europa, as nações tomaram medidas semelhantes entre si.

No Brasil, Bolsonaro minimiza os efeitos do vírus desde o início da pandemia e deixa para estados e municípios a tarefa de impor as medidas sanitárias e de isolamento.

O presidente mexicano, López Obrador, também minimizou a gravidade da situação, mas o aumento de casos o obrigou a mudar de postura. Passou a dar mais espaço a seu secretário de Saúde (equivalente ao ministro), Hugo López-Gatell, que impôs ações de distanciamento social.

O país também tem adotado medidas regionalizadas, mas, ao contrário do Brasil, elas são coordenadas pelo governo central, e não pelas autoridades locais. Ainda que sob uma nuvem de dúvidas sobre os dados oficiais, a gestão de López Obrador investe em campanhas de distanciamento social e tenta corrigir o rumo após uma largada tortuosa no combate à Covid-19.

Já a Argentina —que, como Brasil e México, adota uma estrutura federalista— decretou em 19 de março um “lockdown” em todo o país e conseguiu impedir uma explosão no número de casos.

“Alguns países levaram mais a sério a resposta à pandemia. A Argentina tomou medidas para organizar uma ação nacional e enfatizar as medidas de isolamento”, afirma o médico sanitarista Adriano Massuda, professor da FGV-SP.

Após mais de 80 dias em casa, porém, os argentinos começam a dar mostras que estão cansados das regras de isolamento e pressionam o governo por uma reabertura mais ampla, segundo Sebastián Tobar, pesquisador de relações internacionais da Fiocruz.

Desde terça (19) o país bate recordes de novos casos —foram 648 só na quinta.

Para Tobar, as nações que têm conseguido conter a disseminação da Covid-19 possuem realidades muito particulares. “Paraguai e Uruguai são pequenos, com populações menores do que a de alguns estados brasileiros”, afirma.

Além disso, o Uruguai tem a maior quantidade de médicos em relação à população na América do Sul, segundo a OMS; o Paraguai foi o primeiro país da região a decretar o “lockdown” e a fechar suas fronteiras, em 10 de março.

O Peru adotou a quarentena obrigatória cinco dias depois do Paraguai, mas não foi bem sucedido porque carrega problemas anteriores.

“É um país que vem de uma crise política, econômica e social, com um corte nos investimentos. A infraestrutura de saúde é muito baixa, o país todo tem pouco mais de 800 leitos de UTI. A taxa de leitos em UTI por 100 mil habitantes é de 2,64”, diz o pesquisador.

Para efeito de comparação, o índice do Brasil no quesito, em dado de março, é 22, segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira. A OMS recomenda que essa taxa esteja entre 10 e 30.

O Chile não adotou um “lockdown” nacional, mas impôs a medida, em 26 de março, em alguns bairros de Santiago. Com um salto no número de casos, 50 dias depois ampliou a regra para toda a região metropolitana da capital.

“As autoridades confiaram que a situação tinha melhorado e flexibilizaram a quarentena. Com isso, o número de casos aumentou, e o sistema de saúde está saturado”, diz Tobar. Além disso, Piñera tem enfrentado protestos contra a falta de trabalho e de comida.

Os atos chamam a atenção para a desigualdade na região, outro ponto que tem atrapalhado a resposta ao coronavírus, segundo Joan Costa-Font, professor do departamento de saúde pública da London School of Economics.

“A pandemia tem afetado os mais pobres e as minorias étnicas de maneira mais intensa”, diz. “Enquanto indivíduos ricos podem trabalhar de casa ou permanecer em casa, os mais pobres não podem. E há ainda a questão da informalidade, grande na região.”

Para Jarbas Barbosa, subdiretor da Organização PanAmericana da Saúde, diversos aspectos sociais dificultam que toda a população latino-americana siga medidas de distanciamento social —o nível de isolamento na região tem ficado abaixo do europeu.

“A desigualdade social, o peso da economia informal, a ausência de medidas efetivas de proteção social para aliviar o impacto econômico e social podem ter contribuído para a adesão menor”, resume ele.

bruxelas A América Latina é o novo epicentro da pandemia de coronavírus e o Brasil é o país mais preocupante, disse nesta sexta (22), em entrevista pela internet, Michael Ryan, diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O país chegou, nesta sexta, a quase 331 mil casos e se tornou o segundo com mais contaminações no mundo.

Estimativas também divulgadas nesta sexta pelo Imperial College indicam que a transmissão da doença continua acelerando no Brasil. A taxa de contágio (Rt), que indica para quantas pessoas em média cada infectado transmite o coronavírus, foi calculada em 1,3 (quando está acima de 1, a transmissão está fora de controle).

O centro de epidemiologia da universidade, referência no acompanhamento de doenças transmissíveis, calcula que 6.980 mortes ocorram nesta semana, variando de 5.850 a 8.070. O número estimado é o maior número entre os 54 países com transmissão ativa (ao menos cem mortes registradas desde o começo da pandemia e pelo menos dez mortes nas últimas duas semanas).

Em segundo lugar está o Reino Unido, com 2.400 mortes na semana, mas com uma taxa de contágio de 0,84, o que mostra a transmissão sob controle. Os Estados Unidos não entraram nesta edição porque foram objeto de um estudo em separado, com comparações entre seus estados.

Sobre o estado da pandemia no Brasil, Michael Ryan afirmou que, embora o maior número de casos seja em São Paulo, a situação mais séria é a do Amazonas, “com uma taxa bem alta”, afirmou. O estado tem o maior número de casos em relação à população: 490 pessoas infectadas por 100 mil habitantes.

O diretor-executivo mencionou espontaneamente a aprovação pelo Brasil do uso de cloroquina para o tratamento de Covid-19 e ressaltou que não há evidências de que o medicamento seja eficaz para combater a doença. A OMS apoia o uso de cloroquina apenas em estudos clínicos em hospital, e sob acompanhamento médico.

Ainda respondendo à pergunta sobre o Brasil, a líder técnica da OMS, Maria van Kerkhove, afirmou que os países devem ficar atentos para o fato de que há grupos vulneráveis, com menos acesso a tratamentos de saúde e menos informações, e que governos precisam garantir que todos possam ser testados e tratados caso estejam contaminados pelo coronavírus.


Fonte: pressreader.com - Folha de SP

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