Falta material

Servidores relatam falta de material de proteção pelo país

Secretarias de Saúde da capital e do estado negam escassez e dizem que há equipamento para todos

25/03/2020 por Artur Rodrigues Colaborou Rogério Pagnan

Funcionários de hospitais e postos de saúde paulistas se queixam de falta de equipamentos para quem tem contato direto com pacientes de Covid-19, como gorros e óculos de proteção. Há relatos semelhantes no Rio e em outras grandes cidades brasileiras.

são paulo “Queremos EPIs, queremos EPIs, queremos EPIs”, gritavam funcionários em um dos corredores do Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo.

Cenas como essa têm se repetido em hospitais e unidades de saúde no estado de São Paulo. Funcionários relatam falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados até para os profissionais que têm contato direto com possíveis casos de coronavírus, relatam servidores.

No Hospital do Tatuapé, por exemplo, há cerca de dez funcionários que contraíram Covid-19, segundo o sindicato da categoria. O clima de medo e a situação de risco levaram profissionais a ameaçar abandonar seus postos.

Segundo um protocolo do Ministério da Saúde, os profissionais responsáveis por atender possíveis casos ou infectados deveriam ter gorro, óculos de proteção ou protetor facial, máscara, avental impermeável de mangas longas e luvas de procedimento.

Preparando-se para a escassez dos equipamentos no mercado, a gestão Bruno Covas (PSDB) cogita até confiscar esse tipo de material.

A administração afirma que quem precisa dos equipamentos os têm à disposição. No entanto, a Folha conversou com médicos de UTI e do Samu que dizem receber equipamento inadequado em hospitais da prefeitura.

“Não estamos usando o EPI adequado. Não há gorro e os aventais não são impermeáveis, como deveriam ser”, diz um médico do Samu sob a condição de anonimato.

O médico relata falta de preparo das equipes também. “A falta de treinamento faz com que os funcionários se sintam inseguros, façam uso inadequado dos materiais e comecem a fazer estoques próprios.”

No Hospital do Servidor Público Municipal, funcionários relataram que o isolamento entre pacientes com e sem infecção do coronavírus foi feito com cortinas plásticas improvisadas. Ali, segundo eles, o avental é descartável, e não impermeável, e é disponibilizada apenas uma máscara por semana.

O Sindsep (Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo) afirma que o problema é generalizado. A prefeitura diz que o equipamento não é para todos, mas o sindicato discorda.

“Há o EPI básico, que todo profissional da saúde deveria ter, que é viseira, máscara e avental. Há aqueles que vão para as alas dos infectados, que precisam também de máscara N95, gorro e macacão impermeável”, disse o vice-presidente do órgão, João Gabriel. Segundo ele, sem máscaras e testes os servidores podem transmitir coronavírus a outros pacientes.

O órgão de classe citou ainda que há um relato de que a direção de um hospital da capital recomendou que os funcionários não usassem máscaras para não assustar os pacientes.

A reportagem também recebeu relatos de falta de equipamentos em unidades de referência, como o Hospital das Clínicas da USP e o Hospital São Paulo, da Unifesp.

O secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido, disse que não falta equipamento para os funcionários que precisam. “Não é para todo mundo, é para urgência e emergência”, disse. “Se todo mundo seguir a regra, hoje tem uma carreta inteira de máscara”.

Aparecido diz que o decreto sobre coronavírus na cidade permite o recolhimento administrativo de material, se necessário. A prefeitura afirmou que, diante da escassez mundial de EPIs, comprou 5 milhões de máscaras cirúrgicas e 1 milhão de máscaras N95.

Segundo a administração, os funcionários estão recebendo kits específicos de acordo com os setores onde trabalham.

O Hospital das Clínicas da USP afirmou que, desde janeiro, instituiu um comitê de crise para acompanhar e prevenir todas as necessidades decorrentes da epidemia provocada pelo novo coronavírus.

“O hospital possui todos os insumos, incluindo álcool em gel, máscaras e luvas para os profissionais. Adotou todos os protocolos para garantir a segurança de profissionais e pacientes, incluindo o uso de máscaras, que não estão em falta para os casos necessários”, diz o hospital.

O HC, no entanto, alerta que o uso indiscriminado de máscara e outros insumos por parte de quem não tem indicação de uso pode, sim, provocar a falta do material para os profissionais de saúde.

O Hospital das Clínicas de São Paulo anunciou nesta segunda que será transformado, a partir desta terça (24), no maior centro para tratamento de pacientes infectados com a Covid-19 do país. Serão destinados 900 leitos exclusivamente ao tratamento da doença, sendo 200 deles de UTI.

A ação faz parte de um acordo entre o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a Secretaria de Estado da Saúde e o Centro de Contingência do Coronavírus.

De acordo com o governo, todos os pacientes com outras doenças internados no complexo serão transferidos para um dos outros sete institutos ligados ao HC. Até sexta-feira (27), serão liberados os 200 leitos de UTI.

O encaminhamento dos pacientes para o HC será feito pelo centro de regulação da Secretaria da Saúde. Serão atendidos casos moderados e graves. Isso significa que o Hospital das Clínicas não atenderá pacientes que procurarem diretamente o complexo.

Pessoas com necessidade de atendimento devem procurar diretamente as unidades básicas de saúde, que farão o encaminhamento.

Já o Hospital São Paulo afirmou que possui os equipamentos de proteção e a indicação de qual tipo de máscara, óculos e aventais devem ser usados de acordo com o tipo de contato. Em nota, a instituição afirma que, diante de risco de contágio, as pessoas querem a melhor proteção possível, ainda que haja uma indicação de uso para cada um dos equipamentos.


Fonte: pressreader.com - Folha de São Paulo

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