Brasileiros deixam consulado em Lima

Pandemia impede quase 11 mil brasileiros de voltar ao país

Números da Anac consideram quem já tinha passagem de retorno comprada

25/03/2020 por Flávia Mantovani

(mg) Com o fechamento de fronteiras terrestres e aéreas decretado em vários países em meio à pandemia de coronavírus, milhares de turistas brasileiros se viram sem voo de volta, sem poder sair do hotel por causa da quarentena e sem saber quando poderão retornar para casa.

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que lançou formulário online para cadastrar brasileiros que tinham passagem comprada para retornar, mas não conseguem por causa das restrições, recebeu até o fim da tarde desta segunda (23) quase 11 mil cadastros.

O objetivo do formulário, diz o órgão, é “oferecer um diagnóstico de onde estão essas pessoas para facilitar esse trâmite junto ao Ministério das Relações Exteriores, empresas aéreas e autoridades de aviação dos demais países”.

Já o Itamaraty divulgou ter registro de 6.000 que procuraram ajuda consular para a repatriação, das quais metade conseguiu voltar até agora.

Entre os países com mais brasileiros nessa situação, segundo o cadastro da Anac, estão Portugal, Peru, México e África do Sul. Nos locais onde há mais turistas, eles se reúnem em grupos de WhatsApp, organizam grupos para ir às embaixadas ou aos aeroportos para obter informações e trocam dicas de hospedagens e estabelecimentos ainda abertos para comprar comida.

Muitos estão ficando sem dinheiro e há gente dormindo dentro do aeroporto. Nas redes sociais e nas conversas que alguns tiveram com a Folha, a maioria reclama de não obter informações com as companhias aéreas e com os consulados e embaixadas.

O Itamaraty, por sua vez, criou um grupo para gerir a crise e diz que tem negociado com os governos que fecharam as fronteiras ou o espaço aéreo e com as companhias aéreas, para que abram voos extras. Também afirma que está dando assistência aos brasileiros que se encontram nessa situação, com especial atenção a casos de doentes ou com outros problemas mais sérios. De fato, alguns deles relataram à Folha terem recebido ajuda de embaixadas e consulados.

Já saíram voos de repatriação de países como Peru, Marrocos e Portugal. O órgão afirma que suas representações continuam trabalhando “incansavelmente”

para repatriar os brasileiros, mesmo quando precisam funcionar em regime diferenciado por causa das regras de quarentena determinadas pelos governos de cada país.

O ministério não está arcando com os custos das viagens, “inclusive por falta de previsão legal”, afirma. Questionado se planeja fretar aviões comerciais ou usar aviões da FAB (Força Aérea Brasileira), respondeu que está focado em “garantir o retorno dos brasileiros usando voos comerciais disponíveis”, mas que pode considerar outras opções, “dependendo da evolução dos acontecimentos”.

Enquanto isso, alguns brasileiros gravam vídeos de apelo, para ver se conseguem despertar a atenção para seus casos.

LISBOA (PORTUGAL) Rafael Muniz, 32, microempreendor

“Minha família conseguiu ir embora no dia 19 e meu voo estava marcado para o dia 20. Mas cancelaram e tive que comprar outra passagem. Jogaram meu voo para o dia 1º de abril, sem explicação. Desde então estou na espera, dormindo no aeroporto. Nos últimos dias, houve situações sérias aqui. Pessoas de 60, 70 anos dormindo no chão, sem amparo. A polícia ameaçou nos expulsar à meianoite, com de 10º C lá fora. Um casal embarcou com a filha de três anos, mas não deixaram eles entrarem no voo com o cachorro da família. Tiveram que abandoná-lo lá. Acabei fazendo alguns amigos. Todos voltaram e agora estou sozinho.”

CUSCO (PERU) Marco Antônio Evangelista, 50 delegado

“Estou com minha esposa e meu filho de 11 anos.

Ele tem retração no tímpano, fez duas cirurgias no ouvido e vem sofrendo dor e outras consequências da altitude. Era para voltarmos no dia 19, mas agora não sabemos quando conseguiremos ir. Teve um voo de repatriação, e nosso nome estava na lista divulgada pelo governo brasileiro. Mas chegando ao aeroporto, não estávamos na lista da companhia. O Itamaraty fala uma coisa, a embaixada outra, a companhia aérea outra. A cidade está sitiada, tem muita gente sem dinheiro. Duas israelenses estavam tranquilas e disseram ‘nosso país vai nos buscar onde estivermos’. Com a gente não está sendo assim.”

GABORONE (BOTSUANA) Lucy Mazera, 49, doutora em serviço social

“Vim fazer trabalho humanitário na Zâmbia, mas por problemas de violência, nos mandaram para Botsuana. Agora não consigo sair daqui. Sou ítalobrasileira, estou com meu passaporte italiano e ninguém entra na Itália. O brasileiro ficou na minha casa, estou tentando fazer outro na embaixada. Aqui ainda não tem muitos casos, mas é questão de dias.”


Fonte: pressreader.com - Folha de São Paulo

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