Em favelas não têm como se manter

Em favelas, 72% não têm como se manter sem renda

Pesquisa inédita mostra que nessa população, de 13,6 milhões, 32% terão dificuldade para comprar comida

25/03/2020 por Fernanda Mena e Emilio Sant’Anna

Sem nenhum tipo de poupança, moradores de favelas dizem que não conseguem se manter nem por uma semana, aponta pesquisa Data Favela, que ouviu 1.412 pessoas em 262 comunidades. Já 32% dizem que terão dificuldade na compra de itens básicos, como comida.

são paulo Uma semana dentro de casa, em quarentena contra a pandemia do novo coronavírus e sem renda, já é tempo o suficiente para 72% dos moradores de favelas no Brasil não conseguirem manter o baixo padrão de vida por não terem nenhum tipo de poupança.

Nessa população, formada por 13,6 milhões de pessoas, 32% (ou quase 1 em cada 3) terão dificuldades na compra de itens básicos de sobrevivência, como alimentos.

Os dados integram pesquisa inédita do Data Favela, que investigou o impacto da pandemia nas comunidades pobres e precárias do país. Ao todo, 1.142 pessoas foram entrevistadas neste mês em 262 favelas de todas as regiões do país. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Os resultados do levantamento evidenciam que esse contingente, maior do que a população da cidade de São Paulo, por exemplo, enfrentará, para além da questão de saúde pública —agravada pelos ambientes domésticos minúsculos e pela falta de saneamento básico generalizada—, o desafio econômico da sobrevivência, com menos dinheiro ou mesmo sem ele.

No Brasil, até esta segunda (23), a Covid-19 havia causado 34 mortes e 1.891 casos de infecção confirmados, segundo o Ministério da Saúde.

A pesquisa do Data Favela apontou que 7 em cada 10 famílias já tiveram a renda diminuída desde o início da pandemia e das medidas preventivas do alastramento do vírus, e que 79% já começaram a cortar gastos por causa da crise provocada pela Covid -19.

Isso porque quase metade dos trabalhadores que vivem em favelas são autônomos (47%) e 8% são informais, ou seja, boa parte deles não tem o suporte da legislação trabalhista nem políticas emergenciais pensadas para quem tem carteira assinada. “Por mais que isso soe alarmista, esse quadro pode indicar uma situação de convulsão social num futuro próximo”, avalia Renato Meirelles, fundador do Data Favela, uma parceria do Instituto Locomotiva e da Cufa (Central Única das Favelas).

São pessoas como a diarista Alda Pereira, 56, da favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, que desde segunda(23) começou a sentir o efeito da crise. Na noite de domingo, ela recebeu a notícia de que estava dispensada da casa em que fazia faxina, o que lhe rendia R$ 800 por mês.

“Foi um baque, fui demitida pelo ‘zap’. Fácil, né?”, diz ela. O que deve salvar a diarista durante as semanas de recolhimento quase compulsória será outro tipo de auxílio. Missionária da Assembleia de Deus, há 25 anos, ela mantém trabalho de recolhimento de itens e distribuição de cestas básicas. É daí que virão os alimentos com que ela deve passar o próximo mês. “Estou crendo em Deus, que foi quem sempre me sustentou”, afirma.

Meirelles indica que pessoas nessas condições já têm dificuldades para pagar as contas do mês. Neste grupo, 84% projetam redução de renda.

“Cesta básica ajuda, mas é, de novo, o asfalto dizendo para a favela o que ela tem direito a consumir. Mais efetivo seria transferir renda diretamente para que os moradores de favelas comprassem o que precisam”, afirma. “Se não houver ações efetivas, públicas e privadas, garantindo provimento de produtos básicos, como alimentos, internet e produtos de limpeza, pode haver revolta das favelas.”

“Até agora eu não ouvi a palavra favela sair da boca dos políticos que estão tratando da pandemia do coronavírus”, diz Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, favela da zona sul da capital paulista, e articulador do G10, bloco de líderes e empreendedores sociais de favelas do país.

Seu grupo é uma das organizações ligadas às favelas que criaram listas de medidas para guiar os governantes sobre as necessidades das comunidades. A saída é a implantação de um programa de renda mínima emergencial, defende Douglas Belchior, membro da coordenação nacional da Uneafro, entidade que luta pelos direitos de moradores das periferias e favelas.

Na sexta-feira (21), junto com outros movimentos de defesa da cidadania, a organização lançou abaixo-assinado para pressionar o Legislativo a aprovar a medida em caráter de emergência. O objetivo é que 80 milhões de brasileiros sejam cobertos pelo programa enquanto durarem os efeitos da pandemia. “A proposta é de renda básica de R$ 300 por pessoa, para todos que têm renda menor do que três salários mínimos”, diz Belchior.

Até esta segunda (23), o abaixo-assinado havia reunido pouco mais de 500 mil adesões. “É questão humanitária. Quando esse vírus tocar o chão das favelas e dos morros, veremos genocídio no Brasil”, diz.

O próprio Bolsa Família seria opção, diz Gilson. “Nossa sugestão é que o governo utilize o sistema do Bolsa Família, ampliando o benefício para um salário mínimo por três meses e reabilitando o cartão de quem teve o benefício cortado recentemente”, diz.

Nesta segunda, porém, ativistas que lutam pelos direitos dessa população se surpreenderam com a MP editada pelo presidente Jair Bolsonaro, que autorizava a suspensão do contrato de trabalho por até quatro meses. No início da tarde desta segunda, porém, ele voltou atrás e disse que esse artigo será revogado.

“O país precisa de um presidente que se comporte de acordo com o cargo que ocupa”, diz Belchior. “Mesmo os mais liberais compreendem que é preciso garantir renda para a população mais pobre.”

“O governo tem de fazer a parte dele, mas o presidente está até agora falando que é uma gripinha. E nós não temos tempo a perder com esse tipo de papo. A favela vai ter de começar a fazer as coisas por si e dar o exemplo”, diz Gilson.

As ações para a população das favelas também estão passando por campanhas de arrecadação emergenciais e ações diretas da população. A Uneafro, por exemplo, reuniu R$ 50 mil em uma campanha de arrecadação para ajudar a manutenção de cerca de 300 famílias de favelas paulistanas. “É uma ajuda paliativa, de efeito temporário. Não podemos esperar a ação do Estado porque a história nos mostra que ele não irá nos salvar, mas tirar nossas vidas”, afirma Belchior.

Em Paraisópolis, estão sendo criados comitês de cada bairro da favela, com presidentes de cada rua, que vão mapear a situação de cada 50 casas e farão a ponte com a união dos moradores, que vai fornecer marmitas para os mais necessitados, produzidas na sua cozinha comunitária. Para isso, criaram canal online de arrecadação de recursos.

A Cufa listou 14 recomendações para as favelas, que vão da distribuição de produtos de higiene até a criação e liberação de pontos de internet para as pessoas.


Fonte: pressreader.com - Folha de São Paulo

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