Dólar flututante

Dólar alto e Bolsas em queda mostram perda de confiança de investidor

Para economistas, mercado indica piora da expectativa econômica no Brasil

06/03/2020 por Júlia Moura e Eduardo Cucolo

A contínua valorização do dólar, que fechou a R$ 4,65, e mais uma queda do Ibovespa (-4,65%) começam a mostrar perda de confiança por parte dos investidores na economia brasileira. O ministro Paulo Guedes afirmou que a moeda americana pode chegar a R$ 5 se “muita besteira” for feita.

O quadro de incerteza também se refletiu no risco-país do Brasil, que ontem aumentou 14,4%.

Guedes disse trabalhar com a expectativa de 2% de crescimento para este ano e estimou que o coronavírus possa reduzir essa meta em 0,5 ponto percentual. Em fevereiro, a Secretaria de Política Econômica, subordinada a ele, projetou 2,4% de alta do PIB em 2020.

Quanto ao crescimento de 1,1% em 2019, o ministro declarou que o país já havia estagnado desde o governo Temer.

são paulo e brasília Desde o fim do Carnaval, a instabilidade nos mercados de câmbio e juros e na Bolsa brasileira era atribuída aos efeitos do coronavírus sobre à atividade econômica no mundo.

Os indicadores financeiros sinalizaram com mais clareza nesta quinta-feira (5) que há também uma perda da confiança dos investidores em relação à economia brasileira.

Nesse caso, os economistas olham não apenas câmbio e Bolsas. Houve também forte alta no risco-país do Brasil medido pelo CDS (Credit Default Swap), um tipo de contrato que funciona como termômetro da confiança dos investidores em relação a economias, especialmente às emergentes.

OCDSdecincoanosdoBrasil subiu 14,4%, para 129 pontos. Foi a maior alta percentual diária desde o chamado Joesley Day, em 18 de maio de 2017, dia em que veio a público a informação de que Joesley Batista gravara conversa com o então presidente Michel Temer (MDB). Na ocasião, o risco-país teve alta de 29%, para 265 pontos.

Se o CDS sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país; se ele cai, o recado é o inverso: sinaliza aumento da confiança em relação à capacidade de o país saldar suas dívidas.

O dólar também teve nesta quinta um dia de forte alta, e a Bolsa brasileira, acompanhando os pregões no mundo, despencou. Os investidores monitoram expectativas menores para o PIB de 2020 e declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do secretário do Tesouro, Mansueto Almeida.

Segundo Guedes, a cotação do dólar pode ir a R$ 5 caso “muita besteira” seja feita.

“Pode chegar a R$ 5? Ué, se o presidente pedir para sair, se todo o mundo pedir para sair. É um câmbio que flutua, se fizer muita besteira, ele pode ir para esse nível”, afirmou Guedes em evento na Fiesp.

O dólar subiu 1,6%, para R$ 4,653. Durante o pregão, chegou a R$ 4,667, mas desacelerou a alta com o terceiro leilão de swap cambial do Banco Central no dia. A moeda americana teve o 11º recorde nominal (sem contar a inflação) seguido em uma sequência de 12 altas consecutivas —a maior desde janeiro de 1999, quando o BC encerrou a política do câmbio fixo.

O dólar turismo está a R$ 4,84 na venda. Em algumas casas de câmbio, está sendo vendido acima de R$ 5.

No acumulado do ano, a moeda brasileira registra o pior desempenho do mundo, com desvalorização de 16%. Desde 30 de dezembro de 2019, quando o dólar estava a R$ 4,014, subiu R$ 0,64.

“A queda de juros não vai ter impacto na economia real. É o remédio errado para controlar a epidemia de coronavírus e seus efeitos, mas é única coisa que você pode fazer”, afirma Roberto Dumas damas, professor do Insper.

Nesta sessão, o BC ofertou

US$ 3 bilhões divididos em três leilões de 20 mil contratos de swap cambial cada um. A medida aumenta a oferta da moeda no mercado, já que o BC oferece contratos que remuneram o investidor pela variação cambial, o que ajuda a reduzir o preço do dólar.

A forte desvalorização do real já começa a contaminar outros mercados, como os de ações e juros, o que exigirá do BC novas atuações para evitar um movimento descontrolado da taxa de câmbio, diz Otavio Aidar, estrategista-chefe da gestora Infinity Asset.

“É importante o Banco Central olhar para o câmbio, uma vez que ele está destoando dos demais mercados. Está começando a levar problemas para os demais mercados. Hoje, o que a gente está vendo, em boa parte da curva de juros, um pouco na Bolsa, é em razão dessa alta rápida e desordenada do câmbio.”

Ele diz que não cabe ao BC atuar para reverter a desvalorização do real, mas que a instituição age corretamente ao atuar nos momentos em que o mercado fica disfuncional.

O BC anunciou que nesta sexta (6) vai ofertar US$ 2 bilhões em swap cambial.

Após o corte surpresa de 0,50 ponto percentual na taxa de juros americana na terça (3), o mercado vê mais espaço para uma redução na Selic no dia 18, próxima reunião de política monetária do BC. As projeções apontam a taxa entre 3,75% e 3,5% ao final do ano. No momento, está na mínima de 4,25% ao ano.

As Bolsas também tiveram um dia de forte queda.

Nesta quinta, a Califórnia declarou estado de emergência com a primeira morte no estado pelo coronavírus, o que elevou a tensão nos mercados.

A Nasdaq caiu 3%, e o Dow Jones, 3,6%. O S&P 500 recuou 3,7%. Segundo a Bloomberg, o índice americano teve sua semana mais volátil desde 2011, quando a agência S&P reduziu a nota de crédito dos títulos do Tesouro americano.

O Ibovespa fechou em queda de 4,65%, a 102.233 pontos, menor patamar desde 10 de outubro, antes de a reforma da Previdência ser aprovada no Senado. No entanto, chegou a cair 6,2% à tarde.

A avaliação entre economistas é que, além de refletir a queda das Bolsas no exterior, o mercado local agora indica também a piora da expectativa econômica no país.

Na quarta (4), foi divulgado o PIB de 2019, com avanço de 1,1%, abaixo ao projetado inicialmente pelo mercado e pela equipe econômica.

Nesta quinta, porém, Guedes minimizou a responsabilidade do governo de Jair Bolsonaro no resultado. Disse que a economia já tinha estagnado desde o governo Michel Temer e que outros fatores haviam agravado a situação.

Segundo o ministro, a tragédia de Brumadinho e o colapso da Argentina, que impactou 60% das importações de veículos do Brasil, foram os principais fatores para essa desaceleração.

Sua fala se contrapôs à de Mansueto, para quem um PIB de 1% “não é normal”. Mansueto também defendeu aumento do investimento público para acelerar a retomada, ressaltando que o ajuste fiscal é que abrirá espaço para que isso, contrariando a proposta de menos Estado na economia.

“Durmo tranquilo? Não durmo. Estou muito preocupado porque a gente está em um país com crescimento muito baixo. Não é normal um país em desenvolvimento como o Brasil crescendo 1% ao ano. Isso é normal? Isso não é normal”, afirmou. Colaboraram Bruna Narcizo, de São Paulo, e Bernardo Caram, de Brasília Leia mais sobre coronavírus nas págs. A16, A18, A20 e em Saúde


Fonte: pressreader.com.br - Folha de São a

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