Independente, sem nenhum viés ideológico

Em 48 h de motim, Ceará registra uma morte a cada hora

Estado registrou 51 homicídios entre quarta e quinta-feira, durante a paralisação dos PMs em quartéis; cinco cidades cancelam Carnaval

22/02/2020 por Maristela Crispim

Desde o início do motim de policiais militares no Ceará, na terça (18), 51 pessoas foram assassinadas, segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social. Cinco prefeituras do interior do estado decidiram cancelar a festa de Carnaval.

fortaleza Desde o início do motim de policiais militares no Ceará, 51 pessoas foram assassinadas no estado.

Na quarta-feira (19), o número de mortos chegou a 29 e, nesta quinta (20), foram 22. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social. Em média, uma pessoa morreu por hora durante o período. Na terça (18), quando o movimento começou, outros cinco homicídios haviam sido registrados.

O motim ficou marcado nesta semana pelos disparos contra o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE), que investiu contra PMs amotinados e familiares em um batalhão da PM em Sobral (a 270 km de Fortaleza).

Por causa da instabilidade com policiais militares, ao menos cinco prefeituras do interior cearense decidiram cancelar a festa de Carnaval.

Em um dos últimos casos, José Guilherme da Costa Câmara, 17, foi assassinado na madrugada desta sexta-feira (21), no bairro Vicente Pinzón. A Polícia Civil investiga o caso. Ele já havia sido apreendido por tráfico de drogas e lesão corporal, segundo a polícia.

Na quarta, uma das vítimas foi a dona de casa Maria de Paula Ribeiro Amora Miguel, 26. Segundo a polícia, ela dirigia, quando dois homens abordaram o veículo e atiraram na mulher. Após os disparos, Maria de Paula acelerou o carro e colidiucomummuro.Avítima foi levada a uma unidade de saúde, mas acabou morrendo.

Policiais civis prenderam, no mesmo bairro onde Maria de Paula morreu, um suspeito de 20 anos, que já respondeu a crimes como tentativa de homicídio e roubo. Com ele, a polícia apreendeu uma pistola 9 milímetros, que passará por perícia para saber se foi a arma usada no crime.

Outro suspeito foi morto pelos policiais —segundo a Polícia Civil, ele reagiu ao ser detido. Com ele, foi apreendido um revólver calibre 38.

Para denúncias e informações que possam ajudar na investigação dos crimes, a Polícia Civil divulgou um número de WhatsApp, (85) 99111-7498, além do 181 (Disque Denúncia).

Nesta sexta, pelo menos cinco cidades do interior anunciaram que vão cancelar as festas de Carnaval em virtude da escassez de segurança com motim. São elas Paracuru, Canindé, Santana do Cariri, Forquilha e São Luís do Curu.

Em Paracuru, no litoral oeste, com um tradicional Carnaval de praia, o prefeito Eliabe Albuquerque informou o cancelamento via Facebook.

“Nós contávamos com um efetivo de 200 homens para fazer a segurança. Mas, sem o apoio da Polícia Militar, fica muito difícil fazer um evento de grande porte.”

Em Canindé, uma reunião definiu pelo cancelamento de toda a programação. O Ministério Público estadual havia recomendado à prefeitura que a festa só seguisse se houvesse meios de garantir a segurança dos moradores.

Nesta sexta, o governador Camilo Santana (PT) avisou que não vai conceder nenhum tipo de anistia administrativa para os envolvidos em atos de vandalismo e insubordinação.

“Anistia para quem fizer motim na polícia é inegociável”, declarou o governador.

Em Sobral, onde Gomes foi baleado, policiais militares que estavam no batalhão onde ocorreram os disparos decidiram na madrugada desta sexta ocupar um outro quartel.

“Anistia para quem fizer motim na polícia é inegociável Camilo Santana (PT) governador do Ceará

são paulo Uma entidade de juízes federais pediu ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que denuncie o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) por ter avançado com uma retroescavadeira contra policiais amotinados em um quartel em Sobral (a 270 km de Fortaleza).

Em representação protocolada na PGR, a Unajuf (União Nacional dos Juízes da União do Brasil) quer que o órgão apresente denúncia sob acusação de tentativa de “homicídio qualificado com emprego de meio resultante em perigo comum e de impossibilidade de defesa das vítimas”.

A entidade, dissidência da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil), é presidida por Eduardo Cubas, juiz da Vara Federal de Formosa (GO) que ficou conhecido por gravar um vídeo com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em 2018 questionando a credibilidade da urna eletrônica.

O discurso da entidade se alinha ao que os filhos de Bolsonaro têm dito, de que o senador licenciado pôs em risco a vida dos amotinados.

Após avançar com a retroescavadeira na quarta (19) sobre os policiais, Cid foi baleado com dois tiros. Para a Unajuf, “nada pararia o intento criminoso senão mesmo bala”.

“Cid Gomes deve responder por seus atos como qualquer cidadão que intenta, de forma violenta, contra a vida, sendo certo que elementos psicológicos ou psiquiátricos serão mais bem conhecidos ao longo de eventual ação penal”, diz a representação.

À Folha Cubas afirma que decidiu representar contra o senador porque considerou a atitude “um exemplo negativo para a sociedade”.

“Não é assim que as coisas se resolvem na democracia. A nossa intenção [na representação] é pontuar a supremacia da lei”, diz. Para ele, a reação dos policiais foi “um ato de legítima defesa, de bravura”.

“Imagina se não tivesse ninguém armado, o problema que ia ser?”, acrescentou.

A Unajuf, segundo ele, tem cerca de 200 integrantes e é uma entidade “independente, sem nenhum viés ideológico”. Cubas diz que a Unajuf atua, sobretudo, em defesa do Estado democrático de Direito.

Em 2018, ele foi afastado pelo corregedor nacional de Justiça Humberto Martins, que o acusou de atividade partidária que poderia “trazer grande tumulto às eleições”. Ele pretendia, segundo a Advocacia-Geral da União, determinar ao Exército o recolhimento de urnas eletrônicas.

Em março de 2019, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, determinou o retorno do magistrado às suas funções.

A Ajufe, que representa cerca de 2.000 associados, disse que “uma inexpressiva associação de juízes federais de primeiro grau [...] não tem legitimidade para falar em nome da magistratura federal brasileira”.

Procurada, a assessoria de Cid afirma que “não reconhece a representatividade da referida entidade”.

“Claramente, o simulacro de representação tem cores político-partidárias, conduta vedada a membros da magistratura. O senador foi vítima de tentativa de homicídio.”


Fonte: Folha de S.Paulo

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