A mudança climática implica evolução no tempo

Antártida passa dos 20°C pela 1ª vez na história

A medição foi feita por cientistas brasileiros na Ilha Marambio, na Península Antártica

14/02/2020 por Giovana Girardi

Cientistas brasileiros registraram no domingo o recorde histórico de calor na Antártida: 20,75°C, às 13h, na Ilha Marambio. Isso após uma semana em que cientistas de vários países relataram marcas anormais. Pelos dados americanos, janeiro foi o mês mais quente da história do planeta.

A Antártida vem apresentando dias de calor anormal neste verão e atingiu, no último domingo, a temperatura mais alta do registro histórico: 20,75 °C. A medição foi feita às 13h na Ilha Marambio, na Península Antártica, por pesquisadores brasileiros.

O recorde anterior havia acabado de ser batido, três dias antes, quando pesquisadores argentinos detectaram a temperatura de 18,3°C na base Esperanza, também na Península Antártica. Antes disso, o dia mais quente tinha sido 24 de março de 2015, com 17,5°C, de acordo o Serviço Nacional Meteorológico da Argentina.

“A semana entre 6 e 11 de fevereiro foi historicamente anormal. Todos os dias, na metade, tivemos temperaturas acima de 16°C. E no dia 9 teve esse pico”, disse ao Estado o pesquisador da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Carlos Schaeffer, coordenador do Terrantar.

O projeto, ligado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) da Criosfera, tem 26 estações meteorológicas distribuídas em um raio de 1.500 km. A base de Marambio fica relativamente próxima da Esperanza e da Estação Antártica Comandante Ferraz, do Brasil, recéminaugurada. Lá, no mesmo dia, a máxima foi de 19,38°C.

Apesar de ainda ser cedo para associar essa anomalia às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, o registro chama a atenção dentro de um histórico recente de temperaturas mais altas. “O que temos é um registro meteorológico, que ocorre em um espaço de curta duração, mas ele pode ser parte de um sinal de uma tendência que vai se propagar a longo prazo”, afirma o pesquisador Schaeffer.

“A mudança climática implica evolução no tempo. Mas é um marco. Pela primeira vez se registra mais de 20°C. Pode ser sinal de alguma perturbação no sistema que vai levar a um novo patamar, que a gente não sabe ainda qual vai ser”, complementa ele.

Aquecimento global. Segundo a Organização Meteorológica

Mundial (OMM), que deve checar os dados mais recentes para estabelecer o recorde de modo oficial, a Península Antártica – ponta noroeste do continente mais próximo da América do Sul – está entre as regiões do planeta que estão se aquecendo mais rapidamente. Foram 3°C de aumento de temperatura nos últimos 50 anos.

Na região, a quantidade de gelo perdida anualmente pela camada de gelo cresceu na ordem de seis vezes entre 1979 e 2017. Cerca de 87% das geleiras (corredeiras de gelo que deslizam do interior do continente para o mar) ao longo da costa oeste da península recuaram nos últimos 50 anos. Em algumas delas, esse recuo ocorreu de modo acelerado nos últimos 12 anos.

Imagens de um satélite europeu mostraram rachaduras crescendo rapidamente nos últimos dias na geleira da Ilha Pine. Segundo a OMM, esta é uma das principais artérias da camada de gelo da Antártida Ocidental. Duas grandes fendas foram identificadas pela primeira vez no início do ano passado e cresceram muito rapidamente para aproximadamente 20 km de comprimento.


Fonte: O Estado de S. Paulo

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