A FORÇA DE SANDERS

Como a vitória de Sanders em New Hampshire impacta a corrida democrata

Senador vence as primárias no estado, enquanto votos moderados se dividem entre nomes mais ao centro do partido

13/02/2020 por João Paulo Charleaux

O pré-candidato democrata Bernie Sanders venceu a primária de New Hampshire na terça-feira (11). Ele conquistou 25,7% dos votos, o que equivale a 9 dos 24 delegados em jogo no estado.

O segundo colocado foi Pete Buttigieg, que obteve 24,4%. Esse percentual rendeu a Buttigieg o mesmo número de delegados obtidos por Sanders: 9 dos 24 que o estado de New Hampshire possui.

Em terceiro lugar ficou Amy Klobuchar, com 19,8% dos votos e seis delegados. Em quarto, Elizabeth Warren (9,3%) e, em quinto, Joe Biden (8,4%) – estes dois últimos, sem delegado nenhum.

O restante dos votos (12,3%) foi dividido entre outros sete pré-candidatos eleitoralmente inexpressivos, dois dos quais – Andrew Yang e Michael Bennet – anunciaram que deixaram a corrida após os resultados. Os números levam em conta os dados disponíveis até a manhã de quarta-feira (12), quando 87% dos votos tinham sido apurados no estado de New Hampshire.

O que esses números significam
As primárias democratas de 2020 apenas começaram. Portanto, a contagem de percentual de votos e de número de delegados tem importância apenas relativa. É impossível prever, a partir desses números, quem vai ganhar.

Ainda há mais de 50 votações como essa pela frente, ao longo de um processo que dura seis meses. Qualquer previsão é prematura. Mesmo as pesquisas de opinião fornecem dados insuficientes nessa fase.

Apesar disso, as primeiras etapas desse processo – no Iowa e em New Hampshire – costumam indicar quem fica e quem sai da disputa, quem tem condições de seguir recolhendo fundos e apostando na própria candidatura, e quem não tem.

Duas constatações
A FORÇA DE SANDERS

A primeira constatação possível na etapa atual é a de que Bernie Sanders tem uma candidatura competitiva. Ele vem se firmando como um nome popular, capaz de arrastar o programa do Partido Democrata mais à esquerda, sobretudo pelas propostas que apresenta, de criar um sistema público de cobertura de saúde nacional, financiado com dinheiro público, e aumentar a tributação dos mais ricos – duas realidades comuns em países europeus, mas completamente estranhas ao mainstream americano.

DIVISÃO DOS MODERADOS

A segunda constatação possível nessa fase inicial é a de que o campo tido como moderado no Partido Democrata – dos candidatos mais próximos do centro – está dividido. Se Sanders é o único social-democrata fervoroso, o mesmo não acontece no campo oposto, no qual Pete Buttigieg desponta tomando votos que as pesquisas indicavam antes pertencer a Joe Biden, ex-vice de Barack Obama cuja campanha aparece muito aquém das projeções. O ex-prefeito de Nova York, o bilionário Michael Bloomberg, decidiu que entrará só mais adiante na campanha, a partir da quinta votação, o que deve dividir ainda mais os votos desse setor.

Sanders e Buttigieg: cabeça a cabeça
Sanders e Buttigieg dividem a liderança neste início das primárias democratas de 2020. Na votação anterior – a primeira da série, no estado do Iowa – Buttigieg havia terminado em primeiro (26,2% e 13 delegados), com Sanders em segundo (26,1% e 12 delegados). Agora a posição se inverteu, mesmo que, na soma total, Buttigieg tenha mais delegados que Sanders nesse início de campanha.

No sistema americano de primárias, vence o pré-candidato que tiver o maior número de delegados ao longo de mais de 50 votações programadas para ocorrer nos estados e regiões dos EUA, até a conclusão do processo, na Convenção Nacional do Partido Democrata, no estado de Wisconsin, realizada entre 13 e 16 de julho.

A maioria dos delegados vai a essa convenção final apenas para depositar um voto que já foi decidido de antemão, em cada uma das primárias estaduais. Por exemplo: os nove delegados conquistados por Sanders na primária de New Hampshire apenas repetem ou entregam na Convenção Nacional esses nove votos, sem surpresa.

Os delegados que cumprem essa função são chamados de “pledges” – literalmente, “prometidos”. Há 3.979 delegados “pledges”. O candidato que tiver os votos de 1.990 desses delegados, o que equivale à metade mais um, vence.

Se ninguém chegar a esse número em Wisconsin, entra em cena então um grupo de 771 superdelegados. Eles são figuras proeminentes do Partido Democrata, normalmente ex-governadores e ex-parlamentares, que podem decidir na hora em quem votar.

O vencedor de todo esse processo, dentro do Partido Democrata, disputa a eleição presidencial de 3 de novembro contra o candidato do Partido Republicano, Donald Trump – atual presidente dos EUA que já está em campanha pela reeleição.

Normalmente, o Partido Republicano realiza um processo de primárias que, em grande medida, é igual ao do Partido Democrata. Mas, neste ano, Trump é a escolha óbvia, já definida. Nas pesquisas eleitorais, ele aparece flutuando pouco acima ou pouco abaixo dos principais rivais, a depender do levantamento. Com os nomes democratas em evidência agora, por conta da cobertura das primárias, o presidente americano aparece em desvantagem em relação a todos eles, mas essas pesquisas são dinâmicas e podem mudar de um dia para o outro.

O perfil de Bernie Sanders
Sanders, de 78 anos, é senador pelo Estado de Vermont – o segundo menos populoso dos EUA e o quinto menor em extensão territorial, conhecido mais pela produção do dulcíssimo xarope de maple do que pelo seu papel nos rumos da política americana.

Antes do Senado, Sanders representou Vermont por 16 anos na Câmara, como deputado independente. Agora, ele pretende presidir a maior economia capitalista do mundo, importando o modelo de bem-estar social dos países escandinavos.

Apesar de ser o pré-candidato mais velho, faz sucesso entre os jovens. Ele também agrada a hispânicos e negros. Fala com as franjas de uma sociedade americana desigual e promete dedicação às causas identitárias sem ignorar o eixo da economia.

Sanders disputou e perdeu as primárias democratas de 2016 para a rival Hillary Clinton – no final, 55,2% para ela e 43,1% para ele. Desde sua primeira pré-campanha, ele repete o mote da concentração de renda. “Muitos trilhões de dólares (foram) redistribuídos da classe média para o 1% do topo (da cadeia econômica dos EUA). É hora de restituir esse dinheiro, trazendo do 1% das famílias do topo para as famílias trabalhadoras deste país.”

O discurso é incomum num país habituado à concentração de renda, onde as fortunas são entendidas como prêmio pelo esforço e como uma realidade a qual todo americano pode alcançar – o chamado “sonho americano”.

A questão que Sanders coloca para o Partido Democrata é se o conjunto da sociedade americana está preparado para discutir uma virada que, em essência, questiona aspectos centrais do próprio capitalismo.

“Esta vitória aqui [em New Hampshire] é o início do fim de Donald Trump”, disse Sanders ao comentar os resultados, embalado por um início de campanha que parece promissor.

Calendário das primárias democratas
3 DE FEVEREIRO

Iowa

11 DE FEVEREIRO

New Hampshire

22 DE FEVEREIRO

Nevada

29 DE FEVEREIRO

Carolina do Sul

3 DE MARÇO

Alabama, Samoa, Arkansas, Califórnia, Colorado, Maine, Massachusetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee, Texas, Utah, Vermont, Virginia e a primeira de duas votações para cidadãos no estrangeiro

10 DE MARÇO

Idaho, Michigan, Mississippi, Missouri, Dakota do Norte, Washington e a segunda das duas votações para cidadãos no estrangeiro

14 DE MARÇO

Ilhas Marianas Setentrionais

17 DE MARÇO

Arizona, Flórida, Illinois e Ohio

24 DE MARÇO

Georgia

4 DE ABRIL

Alaska, Havaí e Louisiana

7 DE ABRIL

Wisconsin (não a grande Convenção Nacional do Partido Democrata, mas a primária no estado, como os demais)

28 DE ABRIL

Connecticut, Delaware, Maryland, Nova York, Pennsylvania e Rhode Island

2 DE MAIO

Guam e Kansas

5 DE MAIO

Indiana

12 DE MAIO

Nebraska e Virgínia do Oeste

19 DE MAIO

Kentucky e Oregon

2 DE JUNHO

Distrito de Columbia, Montana, Nova Jersey, Novo México e Dakota do Sul

6 DE JUNHO

Ilhas Virgens

7 DE JUNHO

Porto Rico

13 A 16 DE JULHO

Convenção Nacional do Partido Democrata em Milwaukee, no estado de Wisconsin

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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Fonte: Nexo Jornal

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