Ameaça ao mundo por um virus

'Nenhum país está preparado para lidar com novo coronavírus', diz virologista

Segundo Maurício Nogueira, principais dificuldades são a falta de teste para diagnóstico e ausência de protocolo de tratamento; Brasil tem 1º caso suspeito

22/01/2020 por Ana Lucia Azevedo
O virologista Maurício Lacerda Nogueira

RIO — O virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), que presidiu a Sociedade Brasileira de Virologia até dezembro, explica que o novo coronavírus deve continuar a se espalhar, mas aparentemente não é tão transmissível quanto outros vírus respiratórios.

Ele alerta, porém, para as deficiências no Brasil para detectar logo a doença.

É possível evitar que o novo coronavírus chinês se espalhe pelo mundo?

É impossível controlar a disseminação de vírus de transmissão respiratória com o fluxo aéreo que existe hoje no mundo. Milhões de pessoas se deslocam a cada dia de um canto para o outro do planeta. Quando se descobre que pessoas com o vírus entraram no país já é tarde. Para cada caso grave, aparente, há vários outros brandos ou sem sintomas.

Ele chegará ao Brasil?

Possivelmente. Mas não acredito que esse vírus crie uma cadeia de transmissão sustentável no mundo inteiro, com uma epidemia de grandes proporções.

(O governo de Minas Gerais divulgou na tarde desta quarta que existe uma suspeita de contaminação no Estado, a primeira no Brasil).

No Brasil:MG anuncia caso suspeito de coronavírus em Belo Horizonte

Por quê?

Porque esse vírus ataca principalmente a parte inferior do pulmão, causa uma infecção pulmonar profunda e muito grave, a exemplo da gripe aviária causada pelo H5N1, cuja a taxa de letalidade chega a 50%. O H5N1 é muito letal, mas não é muito transmissível porque há menor quantidade de vírus nas vias superiores. Isso significa que menos vírus se espalham quando a pessoa tosse ou espirra. Já o vírus H1N1, da gripe suína, provoca infecção das vias respiratórias superiores. Esta, quase sempre, é mais branda, porém mais contagiosa. O novo vírus é muito perigoso, mas não se espalha tão facilmente assim.

O virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Sociedade Brasileira de Virologia Foto: Arquivo pessoal
O virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Sociedade Brasileira de Virologia Foto: Arquivo pessoal

O que se deve fazer então?

Os sistemas de vigilância sentinela darão o aviso quando houver certo número de casos. Se entrarem, digamos, cinco ou seis pessoas doentes, não saberemos. Mas se tivermos 50 casos, vamos descobrir. O problema é que aí mais pessoas entraram em contato com o vírus.

O Brasil está preparado?

Na verdade, nenhum país está preparado porque sequer existe um teste de diagnóstico específico e menos ainda um protocolo de tratamento. A Organização Mundial de Saúde (OMS) está trabalhando para conseguir kits de testes rápidos. Mas, nos últimos 15 anos, com o medo do H1N1, os cuidados na prevenção melhoraram de forma geral não apenas no Brasil, mas no mundo. Os profissionais de saúde estão mais alertas para doenças respiratórias. Porém, o Brasil enfrenta uma situação paradoxal. Tem um fluxo aéreo de primeiro mundo e um sistema de saúde com muitos problemas, de terceiro mundo. A saúde em estados como o Rio de Janeiro é precária, o sistema público faliu. Somado a isso, laboratórios públicos, mesmo em São Paulo, foram sucateados.

E isso tem implicações no diagnóstico e na detecção precoce, não?

Claro. Só soubemos que o vírus sabiá matou um homem em São Paulo porque o caso foi parar para análise no laboratório do Hospital Albert Einstein, que tem um sequenciador genético capaz de fazer análises mais sofisticadas. Um sequenciador desses custa cerca de US$ 100 mil. Não é muito para algo extremamente necessário hoje. Mas o laboratório público de São Paulo, o Adolfo Lutz não tem como fazer esses testes, só o básico e um laboratório público tem que fazer o que ninguém faz. Foi o Adolfo Lutz que descobriu o sabiá nos anos 90. Hoje, sucateado, não descobriria.

E para detectar o novo coronavírus chinês?

Só laboratórios de pesquisa. Não existe teste específico. A USP tem um laboratório que pode fazer isso, por exemplo. Mas não existe um teste simples.


Fonte: OGlobo.com

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