Repressão em manifestações no Irã

Manifestantes afirmam que Irã usa munição letal

Após Teerã admitir que derrubou Boeing ucraniano com 176 pessoas a bordo, manifestações que pedem a ‘morte dos aiatolás’ são reprimidas com violência

14/01/2020 por TEERÃ

O Irã teve ontem seu terceiro dia de protestos após o governo admitir ter abatido um Boeing 737 ucraniano na semana passada. Testemunhas acusaram a polícia de dispersar com munição real os manifestantes, que pedem a renúncia do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Vídeos mostram pessoas fugindo de bombas de gás e sendo carregadas com ferimentos graves. A polícia negou que tenha aberto fogo contra ativistas.

Os protestos no Irã chegaram ontem ao seu terceiro dia consecutivo, após o governo do país ter admitido que foi o responsável pelo “erro humano” que derrubou um Boeing 737 ucraniano com 176 pessoas abordo, na semana passada. Testemunhas acusaram a polícia de dispersar com munição real os manifestantes, que pedem a renúncia do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Nos protestos, que se espalharam para outras cidades iranianas nos últimos dias, é possível ouvir pedidos ousados de “morte aos mulás e aos aiatolás”. Vídeos gravados no fim de semana e postados ontem mostraram manifestantes fugindo de bombas de gás e sendo carregados com ferimentos graves, aparentemente causados por munição real.

“Esseéosan gu edonos so povo ?”, questionou um manifestante, enquanto filmava uma poça de sangue nas ruas de Teerã. Outras imagens trouxeram barulho de tiros na Praça Azadi, na capital iraniana, ena cidade de Shiraz, com policiais correndo com armas na mão e espancando manifestantes com cassetetes. A polícia negou que tenha aberto fogo contra os ativistas e garante que agiu de maneira contida, conforme “ordens superiores”.

Os protestos contra o regime vêm se intensificando desde sábado, quando o governo admitiu que o Boeing 737 da Ukraine International Airlines (UIA) foi abatido por um foguete disparado por engano. O avião havia decolado de Teerã com destino a Kiev e foi derrubado três minutos após a decolagem. Poucas horas antes, o Irã havia lançado mísseis contra bases iraquianas utilizadas por militares dos EUA – uma resposta ao ataque americano que matou o general Qassim Suleimani, no dia 3.

Inicialmente, autoridades iranianas disseram que o acidente havia ocorrido em razão de “falhas técnicas”, versão que durou alguns dias. Segundo Amir Hajizadeh, chefe das forças aeroespaciais, um operador teve 10 segundos para decidir se o objeto que voava perto do aeroporto de Teerã era ou não um míssil inimigo, mas não conseguiu informações do comando em razão de um “erro de comunicação” – e decidiu disparar por conta própria. O presidente iraniano, Hassan Rohani, chamou o desastre de “erro imperdoável”.

Cinco países cujos cidadãos morreram no acidente se reunirão em Londres, na quinta-feira, para discutir ações legais, segundo o chanceler ucraniano, Vadim Pristaiko – embora não tenha mencionado quem são, os países que perderam cidadãos são Ucrânia, Reino Unido, Alemanha, Suécia e Canadá. O Irã vem sofrendo pressões diplomáticas para realizar uma investigação transparente, punir os responsável, pedir desculpas e pagar indenizações às famílias das vítimas.

Mas a pressão não é apenas sobre o governo iraniano. O presidente dos EUA, Donald Trump, vem sendo constantemente questionado sobre as razões de ele ter ordenado a morte de Suleimani. A versão oficial americana vem mudando constantemente. Primeiro, o general estaria planejando um “ataque iminente” contra alvos americanos. Em seguida, a justificativa passou a ser um atentado especificamente contra a embaixada americana em Bagdá. Depois, seria um ataque a quatro embaixadas não especificadas.

Ontem, Trump defendeu sua decisão de matar Suleimani. No Twitter, ele disse que “não importa se o general representava ou não uma ameaça aos EUA”. “A imprensa fake news e seus aliados democratas estão trabalhando duro para determinar se o ataque era ‘iminente’ ou não”, escreveu o presidente. “Na realidade, isso não importa.”

Os democratas reagiram. “Ninguém pode ordenar ações militares contra outro país sem autorização do Congresso, a menos que seja contra um ataque iminente”, disse o senador Chris Murphy. “Agora, está claro que (a morte de Suleimani) foi uma ação ilegal.”

“Queremos transparência. Vocês têm mentido para nós. O líder supremo precisa responder a nossas perguntas sobre os problemas do país. Senhor Khamenei, por que está mentindo?”

MANIFESTANTE EM TEERÃ


Fonte: pressreader - O Estado de S. Paulo

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