Ações de terroristas

Estado Islâmico larga mulheres no deserto

Como Bint Fatma, muitas estrangeiras que se juntaram ao califado agora querem voltar a seus países

29/12/2019 por Louisa Loveluck Souad Mekhennet Loveday Morris e Alice Martins

Com uma gravidez avançada, Bint Fatma, de 21 anos, esperou horas sob o sol antes que os guardas concordassem em levá-la a uma clínica fora do campo de Al-Hol. Também não havia médicos e ficou decidido que ela voltaria à sua barraca e esperaria o que Deus quisesse. Além das cercas de arame, uma guerra estava em ebulição.

Tal como acontece com milhares de mulheres de todo o mundo, a jornada de Bint Fatma da Holanda para este acampamento no deserto levou-a à ascensão e queda do Estado Islâmico e ao centro de um debate global. Governos em todo o mundo têm lutado com a questão de saber se mulheres como Bint Fatma são conspiradoras ou vítimas – e se trazê-las para casa é um imperativo moral ou um risco à segurança. Também está em jogo o futuro de milhares de crianças nascidas no califado do Estado Islâmico (EI).

O Washington Post conheceu a jovem no fim de julho, perto da entrada do amplo campo de Al-Hol, no nordeste da Síria, lar de cerca de 70 mil mulheres e crianças. Vestindo uma burca preta que escondia sua barriga cada vez maior, Bint Fatma escondeu o rosto cobrindo-o durante grande parte da entrevista, revelando olhos castanhos e feições esbeltas. Ela era tagarela, às vezes cautelosa, e mantinha os olhos no filho de 3 anos o tempo todo. O Washington Post concordou em identificá-la apenas pelo nome.

Com as condições se deteriorando e os radicais consolidando o controle dentro do campo, Bint Fatma queria voltar para casa na Holanda, mas sabia que o governo estava desconfiado. O modo como seu governo – e outros ao redor do mundo – decidiriam o destino das mulheres e crianças do EI estava se tornando um teste histórico: eles poderiam permanecer fiéis aos princípios dos quais se vangloriavam e ainda manter o dever de proteger seu povo?

Em 2014, duas semanas após seu aniversário de 16 anos, Bint Fatma partiu para o califado, disfarçando sua jornada como uma viagem escolar, segundo sua irmã mais velha, Meriam. A turma de Bint Fatma estava indo para a Bélgica e a família não tinha motivos para suspeitar. Ela esteve em Berlim no ano anterior, enviando à família fotos dela usando o véu muçulmano, algo que adotara recentemente.

A família se considerava bastante normal. A irmã disse que celebravam feriados muçulmanos e sua mãe usava um lenço tradicional na cabeça, mas as três filhas não eram religiosas. Bint Fatma mal conseguia falar árabe e se esforçou para ler o Alcorão. Os professores disseram ter notado uma mudança no comportamento dela, mas viram pouco motivo de preocupação.

Utopia. Na entrevista, Bint Fatma disse que encarava o califado como uma utopia religiosa. “Eu realmente vim por leis islâmicas, é isso”, disse. Para o serviço de inteligência, ela viajou para a Síria provavelmente para se casar com um holandês radicalizado com quem estava conversando online.

Após um ano na Síria, ela estava dizendo à sua família que eles estavam traindo sua religião e vivendo em uma terra de apóstatas. Até o fim de 2016, o governo holandês a havia rotulado oficialmente de terrorista.

Apenas alguns países repatriaram grande número de mulheres afiliadas ao EI. O Casaquistão e a Indonésia, por exemplo, buscaram reabilitar suas cidadãs e depois reintegrá-las à sociedade. Muito mais países se envolveram em duros debates públicos para saber se suas mulheres – e até seus filhos – mereciam ser recuperadas e a ameaça que poderiam representar se fossem.

As autoridades de inteligência holandesas alertaram que o papel das mulheres no EI não deve ser subestimado e as que escolheram permanecer no califado por mais tempo poderão ser as mais perigosas. “Essas mulheres estão expostas à ideologia jihadista e à violência há mais tempo e construíram uma rede jihadista internacional”, disse um relatório de 2017. “É provável que muitos deles mantenham suas ideias e conexões jihadistas após o retorno à Holanda.”

Embora Bint Fatma tenha nascido e sido criada na Holanda, ela não é holandesa, pois deixou o país antes de ter a chance de reivindicar sua cidadania. Mas seu primeiro filho, que agora tem 4 anos e cujo falecido pai era holandês, é um cidadão holandês.

As crianças apresentam uma questão ainda mais assustadora. Mais de dois terços das 70 mil pessoas mantidas em Al-Hol são menores, a grande maioria com menos de 12 anos. Muitas têm dupla cidadania, nascidas de pais de diferentes origens. O Instituto Egmont, com sede em Bruxelas, calculou recentemente que existem pelo menos 90 crianças holandesas na Síria e no Iraque. As autoridades de inteligência colocam o número de um “link holandês” em 175.

Os advogados holandeses encarregados de trazê-los para casa apontam para uma “análise de segurança de longo prazo” realizada em maio de 2018 pelo coordenador Nacional de Contraterrorismo e Segurança. Ele observou que metade das crianças tem menos de 4 anos e não conseguir recuperá-las representaria mais uma ameaça à segurança nacional. “Essas crianças são tão jovens que a doutrinação ainda não foi possível”, disse uma cópia da análise vista pelo Washington Post. “Se um retorno não ocorrer, essas crianças podem representar um risco mais tarde.”

Em fevereiro, o califado havia retrocedido de um território do tamanho do Reino Unido para uma aldeia de tendas montadas apressadamente. Bint Fatma saiu do califado quatro anos e meio após sua chegada e ter tido um filho com um combatente que acabou morto. (Ela logo descobriria que também estava grávida de um combatente sírio, com quem se casou depois.) Quando Bint Fatma e seu filho chegaram a AlHol, a população do campo havia aumentado de 10 mil para 55 mil pessoas, e um desastre humanitário estava se formando.

Na Holanda, o debate público sobre o futuro de mulheres como ela estava aumentando. Reconhecendo que provavelmente seria presa ao retornar à Holanda, viu a perspectiva de ser abandonada na Síria como algo pior, especialmente por causa de seu filho. A invasão da Turquia no norte da Síria, no início de outubro, e a ofensiva contra forças curdas rivais, provocou temor no campo. “Estou com muito medo”, disse Bint Fatma em entrevista no mês passado. Ela acrescentou: “Se nosso país não nos pegar de volta, tentaremos fazer de tudo para escapar deste campo, mesmo que precisemos caminhar pelo deserto”.

Na Holanda, o gabinete do governo e os serviços de segurança resistem aos esforços para repatriar qualquer pessoa suspeita de ter vínculos com o EI ou seus filhos. Segundo uma pesquisa, 60% dos holandeses rejeitam a ideia de trazer de volta até mesmo crianças com menos de 6 anos.

Justiça. Em meados de novembro, um juiz holandês decidiu no caso apresentado pelo advogado de Bint Fatma que a Holanda tinha de fazer o possível para levar as crianças para casa. Isso significava repatriar as mulheres também, se fosse necessário, para trazer as crianças de volta. A vitória durou pouco. O governo holandês recorreu e, em semanas, a decisão foi anulada. O tribunal superior aceitou o argumento do governo de que a decisão de repatriar mulheres e crianças deve ser política. O advogado está apelando à Suprema Corte holandesa.

Em Al-Hol, as contrações de Bint Fatma começaram e ela ficou apavorada. No nascimento do primeiro filho, ela havia perdido muito sangue e, na pequena tenda no deserto, uma experiência igual poderia significar perder o bebê – ou pior. Seu filho nasceu após seis horas.

Apertando o recém-nascido com força durante a entrevista, Bint Fatma estava exausta. “Só espero que a Holanda nos leve de volta. Eu estou tão acabada.” Ela começou a explicar ao filho mais velho que o retorno para casa pode resultar em sua prisão. Ele entende, mas quer conhecer a avó. O menino fala pouco e só agora está aprendendo árabe do Alcorão com outra mulher. Nas palavras que ele encontra, diz: “Mamãe, eu quero ir para a vovó. Deixe o avião vir?”


Fonte: pressreader - O Estado de S. Paulo

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