Investigação sobre ação

Ação da PM com 9 mortos em baile funk será investigada

Pessoas morreram pisoteadas em cerco em Paraisópolis; moradores dizem que foram encurralados, polícia nega

02/12/2019 por Paula Felix Marco Antônio Carvalho

A Polícia Civil e a Ouvidoria das Polícias do Estado vão investigar a ação da PM que terminou com nove mortos pisoteados e 12 feridos durante baile funk em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, na madrugada de ontem. De acordo com a corporação, agentes entraram na festa durante perseguição a dois suspeitos em uma moto, foram agredidos com pedras e garrafas e usaram bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Cinco mil pessoas estavam no baile. Moradores da favela acusam os policiais de encurralar quem estava no lugar e de agir com truculência. A PM nega. “Não houve tentativa de dispersar a multidão e as pessoas não foram encurraladas. Uma pessoa

Nove pessoas morreram pisoteadas e 12 ficaram feridas durante tumulto após ação da Polícia Militar em baile funk na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, na madrugada de ontem. A corporação afirma que os agentes de segurança perseguiam dois suspeitos em uma moto, quando entraram no local da festa, que reuniu cerca de 5 mil pessoas. Já moradores, em relatos e vídeos, acusam os PMs de agir com truculência. O Estado informou que vai investigar as circunstâncias das mortes para apontar se houve excessos.

Os nomes dos mortos não foram divulgados. Segundo a PM, eram oito homens (ao menos dois adolescentes) e uma mulher. Muitas das vítimas não eram de Paraisópolis, segundo lideranças comunitárias, o que pode ter dificultado tentativas de fuga do local, que tem cerca de 100 mil habitantes e é vizinho ao Morumbi, bairro de classe média alta da zona sul.

Conforme a versão oficial, seis PMs estavam na Avenida Hebe Camargo, perto da comunidade, quando uma dupla passou de moto por volta das 5h30 da manhã e atirou contra os policiais. Conforme a PM, a dupla fugiu em direção à festa e foi perseguida. Ao chegar ao baile, os policiais dizem que começou o tumulto e os suspeitos se esconderam na multidão. Isso teria feito com que participantes da festa, em pânico, tropeçassem e se machucassem gravemente.

“Usaram as pessoas como escudos humanos para tentar impedir a ação da polícia”, afirmou o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera. “As pessoas foram na direção (dos PMs) arremessando pedras e garrafas. Houve necessidade de munição química. Quatro granadas, duas de efeito moral e duas de gás lacrimogêneo, além de oito disparos de bala de borracha para dispersar as pessoas que estavam no local colocando em risco a vida dos policiais e dos frequentadores.” Conforme a PM, não houve disparo de armas de fogo, mas os equipamentos dos agentes foram apreendidos para análise pericial. Não houve suspeitos detidos.

Em relatos nas redes sociais, a líderes comunitários e ao Estado, testemunhas afirmam que os PMs cercaram os participantes da festa nas vielas da comunidade e apontam truculência dos agentes de segurança (leia mais nesta página). Nas redes sociais, circulam vídeos de supostas agressões cometidas por PMs, mas não há confirmação sobre data e local exatos das gravações. Nas imagens, é possível ver também que as pessoas ficaram encurraladas em becos.

“(As pessoas) não foram encurraladas. Uma pessoa tropeçou e caiu. Outras estavam tentando sair e pisotearam”, disse o porta-voz da polícia, destacando que a investigação ainda apontará se houve falha. Segundo ele, vídeos recebidos pela PM serão analisados para apontar se as gravações se referem de fato ao baile e se houve excessos. Algumas imagens, disse, “sugerem abusos e ação desproporcional por parte da polícia”, mas ainda não é possível dizer se são verdadeiras e se há culpados.

O governador João Doria (PSDB), disse, no Twitter, ter determinado “apuração rigorosa” para esclarecer “as circunstâncias e responsabilidades deste triste episódio”. A Polícia Civil e a Ouvidoria das Polícias também vão apurar o caso.

Crítica. “Todas as circunstâncias precisam ser apuradas, se de fato houve perseguição policial contra suspeitos ou se isso foi inventado como álibi”, disse o advogado Ariel de Castro Alves, do Conselho Estadual de Direitos Humanos. “Mas, mesmo tendo perseguição, não se justifica esse tipo de ação. Deveria ter planejamento maior, já que ali estavam cinco mil pessoas.”

À noite, centenas de moradores carregaram cruzes e cartazes em protesto pelas ruas de Paraisópolis. Motociclistas acompanharam o cortejo, que por vezes parou para lembrar os nomes das vítimas.


Fonte: pressreader - O Estado de S. Paulo

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