Desmate da Amazônia

Desmate da Amazônia sobe 29,5%, maior taxa desde 2008

Governo diz que problema cresce desde 2012 e quer estratégia conjunta com Estados

19/11/2019 por Giovana Girardi COLABOROU BEATRIZ BULLA

O desmatamento na Amazônia atingiu a marca de 9.762 km2 – o equivalente a 6,4 vezes o tamanho da cidade de São Paulo –, entre 1.º de agosto do ano passado e 31 de julho deste ano. O avanço foi de 29,5%, a maior taxa desde 2008, conforme os dados preliminares do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), o sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornece a taxa oficial anual. Presente no anúncio, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não rejeitou os números, como havia acontecido anteriormente com outros dados do Inpe, mas negou relação com a atual gestão e destacou que o desmate avança desde 2012. Salles disse também que os governos federal e estaduais têm de adotar uma “estratégia diferente de contenção” e, para isso, foi marcada uma reunião em Brasília, amanhã. Especialistas destacaram a necessidade de reforçar a fiscalização.

O desmatamento na Amazônia subiu 29,5% entre 1.º de agosto de 2018 e 31 de julho deste ano, atingindo a marca de 9.762 km2 – correspondente a 6,4 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. É a mais alta taxa desde 2008. Porcentualmente, é também o maior salto em 22 anos. De agosto de 2017 a julho de 2018, o corte raso foi de 7.536 km2.

Essa é a análise preliminar do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), o sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornece a taxa oficial anual de desmate da Amazônia. Os dados foram divulgados ontem, na sede do Inpe, pelos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes.

O diretor interino do Inpe, Darcton Policarpo Damião, e Salles destacaram que o desmatamento está em tendência de alta desde 2012, a uma taxa média de aumento de 11,4% ao ano. O valor observado no último ano, porém, ficou pelo menos 1.500 km2 acima do que vinha sendo observado. O campeão de desmate foi o Pará – 39,5% da perda observada na Amazônia –, seguido de Mato Grosso, com 17,2%. Os dois Estados, mais Amazonas e Rondônia, representaram 84% da devastação.

O Amazonas voltou a apresentar taxas dos anos 1990. Chamou a atenção também Roraima, que teve a maior alta de desmate no período – 216,4%. “Pode significar que está se tornando uma nova fronteira de desmatamento”, disse Damião.

O ministro do Meio Ambiente não rejeitou os números, como havia acontecido anteriormente com dados mensais do Inpe – do sistema online Deter. Mas disse que mostram que os governos federal e estaduais têm de adotar uma “estratégia diferente para a contenção do desmatamento”. Ele lembrou que este é o terceiro ciclo de aumento da série histórica – houve um aumento médio por ano de 27,4% entre 1991 e 1994, e de 11,2% entre 1997 e 2005.

Causas. Para cientistas e ambientalistas, declarações e atos do governo atual contribuíram para o aumento. Eles citam como exemplo os discursos do presidente Jair Bolsonaro – que desde as eleições disse que acabaria com o que ele chama de indústria da multa” e desautorizou a fiscalização do Ibama a destruir equipamentos de infratores – e os incentivos à mineração em terras indígenas. “De janeiro a setembro, o número de autuações de crimes contra a flora na Amazônia Legal caiu 40%”, disse o pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Questionado sobre os motivos do aumento atual e sobre se as mensagens passadas pelo governo Bolsonaro teriam ajudado no avanço da devastação da floresta, o ministro Ricardo Salles rejeitou a conexão. Ele disse que são os “motivos conhecidos” de sempre. “Está demonstrado, com sete anos de aumento de desmatamento, que alguma coisa estruturante precisa ser feita.”

O ministro citou como exemplo as atividades de garimpo ilegal, extração de madeira ilegal e ocupação do solo ilegal, que, de acordo com ele, estão na floresta e acontecem há muitos anos. Salles atribuiu ainda a responsabilidade do problema aos governos anteriores.

Ele adiantou que haverá amanhã uma reunião em Brasília com os governos da Amazônia Legal para definir medidas para redução do desmatamento “de maneira sustentável”. Sem dar mais detalhes, afirmou que será definido um rol de medidas que vai incluir ferramentas tecnológicas, com trabalho do Inpe com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Polícia Federal.

Agronegócio. Em Washington, onde terá reuniões com o governo americano, Banco Mundial e BID, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, negou que os números possam afetar a imagem do País no exterior – como ocorreu no meio do ano. “A agricultura brasileira que exporta está no Centro Oeste, no Sul e no Sudeste do País”, disse, embora a Amazônia Legal abarque áreas do CentroOeste./


Fonte: pressreader - O Estado de S. Paulo

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