Afastamento de servidores

Mais de 550 servidores públicos estaduais estão afastados para tratar da saúde

Entidades de militares e policiais civis denunciam que trabalhadores estão adoecendo.

15/09/2019 por Regina Carvalho

No período de janeiro a setembro deste ano, mais de 550 servidores públicos estaduais pediram afastamento com licença das funções para tratamento. Os transtornos ligados à saúde mental lideram os acompanhamentos na Perícia Médica do Estado e afetam trabalhadores de grande parte da estrutura que compõe o Poder Executivo. Na segurança pública, a atenção é redobrada com os policiais civis e militares.

A sobrecarga de trabalho, a desvalorização profissional e a busca por renda extra para complementar o salário afetam diretamente os bombeiros, policiais civis e militares "mas não apenas eles" os servidores da saúde e da educação também estão entre os que mais se afastaram nos primeiros oito meses deste ano.

"O trabalhador da segurança pública tem sofrido com problemas de saúde mental e físico. Eu venho constantemente fazendo reclamações em relação a essas questões. Além de cuidar da segurança da sociedade, tem que cuidar da própria segurança. E aí, qual é o retorno que a gente tem? Zero", declarou o presidente da Associação de Praças da PM e do CBM de Alagoas (Aspra), Wagner Simas.

"O retorno para a gente é zero porque o mesmo estado que exige da gente aquilo que a gente assumiu quando jurou que é manter a ordem pública com o risco da própria vida é o mesmo estado que não dá a guarida necessária", complementa o policial militar. Segundo a Seplag, há 42,1 mil servidores públicos estaduais ativos, incluindo os monitores da Educação. Desse total, de acordo com a Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio (Seplag), 553 estão afastados com licença para tratamento de saúde.

"A partir do momento em que o servidor é direcionado à Perícia Médica do Estado, existem recomendações que são dadas no sentido de contribuir com a melhoria do servidor e, também, fazendo o acompanhamento quando necessário", diz trecho de nota da Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio (Seplag).

Desgaste físico e emocional

"O governo acha que está valorizando os militares em disponibilizar um serviço que ele acha que é voluntário, mas que na verdade é forçado porque é a forma encontrada para complementar a renda na Força Tarefa ou no Ronda no Bairro. Vem o desgaste físico e emocional, começa a entrar no vício do álcool, começa a se estressar dentro de casa ou com os companheiros nos quartéis. E a preocupação que a corporação tem é abrir procedimento para punir o militar, mas não quer saber o motivo daquele excesso", explica Wagner Simas, com críticas ferrenhas à falta de investimento do governo na saúde dos servidores.

Já o presidente da Associação dos Oficiais Militares de Alagoas (Assomal), José Cláudio do Nascimento alerta que o chamado "bico legal" - que deveria ser a saída para os militares- está sobrecarregando o policial. "O bico legal passou a sobrecarregar o policial. Com a sobrecarga de serviço você trabalha mais para buscar a questão financeira e não faz atividade física, tirando serviço extra. O resultado é que o militar ficou muito mais vulnerável à questão d a saúde mental. Sem contar que a própria atividade policial é estressante por natureza", avalia o oficial, que foi para a reserva no ano passado com 31 anos de serviço na PM.

Ricardo Nazário, presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Alagoas, conta que em 2018 colegas infartaram durante trabalho. "No ano passado, 15 policiais tiveram infarto dentro das delegacias, trabalhando, em pleno serviço. Falta efetivo e o policial acaba trabalhando por quatro ou cinco colegas. O que é mais preocupante é que o governo do estado não tem uma política de prevenção à saúde do policial, não oferece corpo multidisciplinar com psiquiatra, psicólogo, assistente social", lamenta o presidente do sindicato.

Bico potencializou o estresse

Wagner Simas, que é presidente da Aspra, afirma que o governo mostra à sociedade um efetivo que não existe, disponibilizando o "bico legal". "A gente teve o exemplo de um colega que faleceu e tava com problemas no coração. Sofreu uma consequência na corporação por causa do vício do álcool e a corporação no lugar de ajudar a recuperar tomou a iniciativa de tentar excluí-lo, tava chegando no serviço embriagado e faltando ao serviço. O que acontece? Há poucos dias o colega morreu. Ele fez um transplante de rins, mas já foi em decorrência do vício do álcool, exatamente por causa da pressão psicológica", lamenta o presidente da entidade.

O presidente José Cláudio, da Assomal, relata que acompanha casos de oficiais que conseguiram afastamento por diversos problemas, incluindo a depressão e o estresse. Em relação às atividades desempenhadas atualmente, o coronel diz que "a situação do policial piorou, porque há mais exigência do tipo de serviço, assim como cresceu a obesidade e a sobrecarga de trabalho".


Fonte: Gazetaweb.com

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