Lava Jato

Diálogos de Lula que Lava Jato não expôs contrariam Moro

PF gravou 22 telefonemas do ex-presidente após ordem para interromper escuta que revelou diálogo com Dilma em 2016.

08/09/2019 por Redação

Conversas do ex-presidente Lula, obtidas pela PF em 2016 e mantidas em sigilo, enfraquecem a tese usada por Sergio Moro para justificar a publicação de diálogo em que Dilma Rousseff trata com o petista sua posse na Casa Civil. Material examinado pela

Folha e pelo The Intercept Brasil indica que outras ligações, gravadas pela polícia no mesmo dia, punham em xeque a hipótese de que a nomeação foi feita com o propósito de travar investigações em Curitiba.

são paulo e rio de janeiro Conversas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), gravadas pela Polícia Federal em 2016 e mantidas em sigilo desde então, enfraquecem a tese usada pelo hoje ministro Sergio Moro (Justiça) para justificar a decisão mais controversa que ele tomou como juiz à frente da Lava Jato.

Em 16 de março de 2016, cinco horas depois de mandar interromper a escuta telefônica que autorizara no início do cerco da operação ao líder petista, Moro tornou público um diálogo em que a então presidente Dilma Rousseff tratou com Lula de sua posse como ministro da Casa Civil.

A divulgação do áudio de 1min35s incendiou o país e levou o Supremo Tribunal Federal a anular a posse de Lula, às vésperas da abertura do processo de impeachment e da deposição de Dilma. Para a Lava Jato, o telefonema mostrava que a nomeação de Lula como ministro tinha como objetivo travar as investigações sobre ele, transferindo seu caso de Curitiba para o STF.

Mas registros inéditos obtidos pela Folha e analisados em conjunto com o site The Intercept Brasil indicam que outras ligações interceptadas pela polícia naquele dia, mantidas em sigilo pelos investigadores, punham em xeque a hipótese adotada na época por Moro, que deixou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PSL).

A reportagem teve acesso a anotações dos agentes que monitoraram Lula, com resumos de 22 conversas grampeadas após a interrupção da escuta em março de 2016. Elas foram gravadas porque as operadoras de telefonia demoraram a cumprir a ordem de Moro e o sistema usado pela PF continuou captando as ligações.

Os diálogos, que incluem conversas de Lula com políticos, sindicalistas e o então vice-presidente Michel Temer (MDB), revelam que o petista disse a diferentes interlocutores naquele dia que relutou em aceitar o convite de Dilma para ser ministro e só o aceitou após sofrer pressões de aliados.

O ex-presidente só mencionou as investigações em curso uma vez, para orientar um dos seus advogados a dizer aos jornalistas que o procurassem que o único efeito da nomeação seria mudar seu caso de jurisdição, graças à garantia de foro especial para ministros no Supremo.

As anotações mostram que Lula estava empenhado em buscar uma reaproximação com Temer e o MDB e indicam que seus acenos eram bem recebidos pelo vice-presidente, na época visto como fiador da transição para o novo governo que seria formado se Dilma fosse afastada do cargo.

A PF escutou duas conversas de Lula e Temer. Na primeira, eles marcaram uma reunião para o dia seguinte, e Lula disse a Temer que a rejeição enfrentada pelos políticos numa recente manifestação pró-impeachment mostrava que o avanço da Lava Jato criara riscos para todos os partidos, não só o PT.

Na segunda ligação, após discutir a situação de um aliado do vice-presidente no governo, o petista prometeu ser um parceiro e disse que eles deveriam atuar como “irmãos de fé”. Segundo as anotações dos agentes da PF, Temer respondeu a Lula dizendo que “sempre teve bom relacionamento” com ele.

Embora os registros mostrem que os policiais prestaram atenção a todas as conversas do ex-presidente, o telefonema de Dilma foi o único que a PF anexou aos autos da investigação sobre Lula nesse dia antes que Moro determinasse o levantamento do sigilo do processo.

Mensagens que integrantes da Lava Jato trocaram no aplicativo Telegram, obtidas pelo Intercept e analisadas em conjunto com a Folha, mostram que um dos policiais na escuta alertou os investigadores para o telefonema de Dilma assim que ouviu a ligação e foi instruído a fazer um relatório.

Não foi o que ocorreu com as outras conversas. O mesmo agente usou o Telegram para avisar que Lula também falara com Temer e fez um resumo do primeiro diálogo entre eles, com duas horas de atraso. Nenhum dos investigadores que participava do grupo reagiu à informação no Telegram.

O material examinado pela Folha e pelo Intercept mostra que o grampo permitiu que a Lava Jato soubesse do convite de Dilma a Lula com uma semana de antecedência e usasse o tempo para preparar junto com Moro o levantamento do sigilo da investigação e das escutas telefônicas.

No dia 9 de março, quando havia apenas especulações sobre o assunto na imprensa, o agente Rodrigo Prado ouviu Lula confirmar que recebera o convite, numa conversa com o ex-ministro Gilberto Carvalho. O policial alertou os outros investigadores no Telegram dez minutos depois.

O áudio anexado aos autos pela PF mais tarde sugere que Lula ainda tinha dúvidas sobre a ideia e temia que sua ida para o governo fosse associada a uma tentativa de escapar da Lava Jato. Para os investigadores, porém, não havia dúvida de que o objetivo dos petistas era exatamente esse.

Desde o início da escuta telefônica, em 19 de fevereiro, várias conversas interceptadas haviam mostrado que Lula e seus aliados estavam preocupados com o avanço das investigações, temiam que ele fosse preso e buscavam apoio de autoridades do governo e ministros de tribunais superiores.

A força-tarefa à frente do caso em Curitiba acompanhou de perto a interceptação. No dia em que soube do convite de Dilma, o procurador Deltan Dallagnol, coordenador do grupo, pediu um CD com todos os áudios. “Estou sem nada pra ouvir no carro”, disse no Telegram, em tom de brincadeira.

Para os investigadores, havia uma oportunidade para levantar o sigilo da investigação, revelando o conteúdo das conversas de Lula, antes que sua nomeação como ministro obrigasse Moro a encaminhar o caso a Brasília e a força-tarefa de Curitiba perdesse o controle sobre a investigação.

As mensagens obtidas pelo Intercept mostram que o assunto foi discutido com o juiz, que pediu relatórios com transcrições dos diálogos considerados mais relevantes. Em 15 de março, na véspera da nomeação de Lula, a polícia anexou aos autos da investigação três relatórios e 44 arquivos de áudio.

Lula aceitou o convite de Dilma na manhã do dia 16. Enquanto os dois conversavam no Palácio da Alvorada, procuradores se reuniram com Moro em Curitiba para discutir o levantamento do sigilo, e Deltan, que estava em Brasília, foi à ProcuradoriaGeral da República obter aval para a iniciativa.

Moro mandou interromper a escuta telefônica às 11h12, depois que a imprensa confirmou a nomeação de Lula. Num despacho sucinto, o juiz disse que o grampo se tornara desnecessário após as buscas realizadas duas semanas antes, quando Lula fora levado à força pela PF para depor em São Paulo.

A demora das operadoras de telefonia para executar a ordem de Moro em 16 de março permitiu que os investigadores continuassem escutando as conversas de Lula por cinco horas. Com o sistema usado pela PF, as ligações são desviadas automaticamente para os computadores da polícia pelas operadoras.

A primeira pessoa com quem o ex-presidente falou após o encontro com Dilma foi sua assessora Clara Ant, segundo asanotaçõesfeitaspelosagentes na escuta. Lula confirmou sua nomeação como ministro, mas indicou que estava desconfortável com a situação.

“Diz que acabou de se foder. LILS diz que ficaram discutindo até meia-noite. LILS tem mais incerteza do que certeza. LILS diz que não tem como escapar ‘dela’”, resumiu o agente que estava na escuta, identificando Lula sempre pelas iniciais de seu nome completo.

Os registros obtidos pela Folha mostram que o ex-presidente manifestou o mesmo incômodo ao falar com seu advogado Cristiano Zanin Martins, o ex-ministro Franklin Martins, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, e dois jornalistas de sua confiança.

O tom foi outro nas conversas com políticos. As anotações da PF indicam que Lula expressou a todos entusiasmo com sua ida para o governo, apostando em sua capacidade de recompor a base de apoio a Dilma no Congresso e promover mudanças na política econômica.

Ao deputado José Guimarães (PT-CE), então líder do governo na Câmara, avisou que estava disposto a conversar até com Eduardo Cunha (MDB-RJ), que rompera com Dilma após assumir a presidência da Casa e liderava as articulações para acelerar o processo de impeachment.

Lula iniciou a conversa com Temer dizendo que queria mudar sua relação com o Palácio do Planalto, do qual o vice se afastara após desentendimentos com Dilma. O tom foi amistoso. “[Lula] Pede para preparar o uísque e o gelo”, anotou o agente da PF, depois que eles combinaram o encontro no dia seguinte.

O líder petista compartilhou com Temer sua preocupação com as manifestações pró-impeachment que tinham ocorrido pouco antes, no domingo, 13 de março. Uma multidão fora às ruas em São Paulo para demonstrar sua insatisfação com os políticos e seu apoio a Moro e à Lava Jato.

“Ninguém ganhou com a manifestação de domingo”, disse Lula a Temer, segundo os registros da PF. “Quem ganhou foi o combate à corrupção expressado na figura do MORO. Diz que esse combate à corrupção foi sempre um alimento para golpistas no mundo inteiro.”

“Quem ganhou foi a negação da política”, acrescentou o ex-presidente. “A classe política tem que se unir para recuperar o seu espaço.”

Minutos depois, Temer telefonou a Lula para falar do deputado Mauro Lopes (MDBMG), que Dilma nomeara ministro da Aviação Civil. O vice temia que a indicação fosse vista como afronta pelo partido, que ainda não desembarcara do governo, mas vetara a ocupação de novos cargos no primeiro escalão por seus filiados.

Lula prometeu tratar do assunto com Dilma. “LILS quer ser o parceiro de TEMER para reconstruir a relação com PMDB. LILS quer ser irmãos de fé”, anotou o agente na escuta, de acordo com os registros obtidos pela Folha. “TEMER diz que sempre teve bom relacionamento com LILS.”

Dilma telefonou às 13h32. Avisou Lula que mandara um assessor lhe entregar o termo de posse para que tivesse o documento em mãos “em caso de necessidade”. O ex-presidente assentiu e os dois desligaram. Lula acertara com Dilma que só tomaria posse na semana seguinte, no dia 22.

As mensagens obtidas pelo Intercept mostram que o impacto dessa conversa foi imediato entre os investigadores, ao contrário dos outros telefonemas. “Estao preocupados se vamos tentar prende-lo antes de publicarem no DOU a nomeacao do Lils”, escreveu Prado no Telegram.

O procurador Athayde Ribeiro da Costa concordou com a interpretação: “já é calro. mais isso demonstra ainda mais o desvio de finalidade da nomeação.” As mensagens foram reproduzidascomagrafiaencontrada nos arquivos recebidos pelo Intercept, incluindo erros de português e abreviaturas.

A PF anexou aos autos o áudio com a conversa de Dilma e Lula e o relatório com sua transcrição às 15h37. O Ministério Público já se manifestara a favor da retirada do sigilo da investigação, antes mesmo de tomar conhecimento do diálogo. Moro ainda não tinha tomado uma decisão.

Registros no sistema eletrônico de acompanhamento dos processos da Justiça Federal mostram que o juiz examinou com atenção os áudios anexados pela PF. Ele determinou a exclusão dos arquivos de duas conversas com advogados de Lula, argumentando que envolviam sigilo profissional.

Moro decidiu levantar o sigilo dos autos às 16h19. A GloboNews noticiou a decisão às 18h32 e revelou que Dilma fora grampeada. Uma cópia da transcrição do diálogo que a presidente tivera com Lula naquela tarde foi lida ao vivo.

Depois que a notícia entrou no ar, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima foi o primeiro a avisar os colegas, num grupo que reunia vários procuradores de Curitiba no Telegram. “Ótimo dia rs”, escreveu Deltan. “[M]Eu Deus!!!”, disse Orlando Martello. “O mundo caiu”, afirmou Athayde.

Em Brasília, manifestantes se aglomeraram na frente do Palácio do Planalto para protestar contra o governo. No plenário da Câmara, deputados da oposição pediram a renúncia de Dilma e chamaram Lula de ladrão, aos gritos, antes que a sessão fosse encerrada em meio a tumulto.

O procurador Eduardo Pelella, chefe de gabinete do então procurador-geral Rodrigo Janot, chamou Deltan para entender o que acontecera. Ele dera seu aval ao levantamento do sigilo da investigação pela manhã, mas não fora avisado de que a Lava Jato tinha grampeado a presidente.

“Parece que foi hoje cedo”, disse Deltan, que passara o dia em reuniões em Brasília, mas em contato com os colegas de Curitiba pelo Telegram. “Tudo que sabemos é o que está nos relatórios que te entreguei”, acrescentou, referindose às transcrições feitas pela PF antes da conversa de Dilma.

As mensagens obtidas pelo Intercept indicam que no fim da noite os procuradores se deram conta de que havia dúvidas sobre a legalidade das decisões de Moro naquele dia. Eles começaram a debatê-las no Telegram enquanto acompanhavam o desenrolar de manifestações contra o PT em São Paulo e outras cidades.

Dilma e os advogados de Lula questionaram as decisões do juiz, argumentando que sua conversa não poderia ter sido grampeada se Moro já tinha determinado o fim da escuta, nem os autos poderiam ter sido divulgados sem que o STF tivesse sido alertado para as citações a ela e outras autoridades com foro especial.

“Estou preocupado com moro! Com a fundamentação da decisão”, disse o procurador Orlando Martello no Telegram. “Vai sobrar representação para ele.”

“Vai sim”, respondeu Carlos Fernando. “E contra nós. Sabíamos disso.” Para Laura Tessler, o apoio da opinião pública garantiria proteção à Lava Jato: “a população está do nosso lado...qualquer tentativa de intimidação irá se voltar contra eles”. Carlos Fernando recomendou: “Coragem... Rsrsrs”.

Após compartilhar com o grupo vídeos de uma manifestação que estava ocorrendo na avenida Paulista, em São Paulo, Martello sugeriu que todos os integrantes da operação renunciassem aos cargos se algo acontecesse com Moro. Laura sugeriu que a melhor resposta seria mover uma ação contra Lula e pedir sua prisão.

Para Andrey Borges de Mendonça, seria difícil defender a divulgação da conversa de Dilma por causa do horário em que ocorrera, mas a maioria discordou. “O moro recebeu relatório complementar e o incorporou”, disse Carlos Fernando. “Nesta altura, filigranas não vão convencer ninguém.”

Deltan entrou tarde na discussão e se alinhou com Carlos Fernando. “Andrey No mundo jurídico concordo com Vc, é relevante”, disse. “Mas a questão jurídica é filigrana dentro do contexto maior que é político.”

Mendonça disse concordar com o chefe da força-tarefa, mas insistiu. “Isso tera q ser enfrentado muito em breve no mundo juridico”, escreveu. “O estrago porem esta feito. E mto bem feito”. Era tarde, e os outros integrantes do grupo não se manifestaram mais sobre o assunto.

Moro não fez nenhuma menção à conversa de Dilma e Lula na decisão que levantou o sigilo dos autos. No dia seguinte, em novo despacho, afirmou que não tinha prestado atenção no diálogo anexado aos autos. “Não havia reparado antes no ponto, mas não vejo maior relevância”, escreveu.

A resposta chegou cinco dias depois, em despacho do ministro Teori Zavascki, relator dos casos da Lava Jato no STF. Ele suspendeu as decisões de Moro e mandou que enviasse os autos da investigação sobre Lula a Brasília, observando que o sigilo fora levantado “sem nenhuma das cautelas exigidas em lei”.

Ao explicar sua conduta uma semana mais tarde, Moro disse a Teori que não tivera intenção de provocar “polêmicas e constrangimentos desnecessários” e pediu “respeitosas escusas”, mas não reconheceu nenhum erro na condução do processo.

Junto com os autos, Moro enviou a Teori um CD com todos os diálogos interceptados pela polícia, afirmando que mantivera em sigilo apenas conversas pessoais, com advogados ou que “simplesmente não têm conteúdo jurídico-criminal relevante”.

Finalmente, em junho, Teori anulou as decisões de Moro e o repreendeu, afirmando que ele usurpara as atribuições do Supremo ao tratar a conversa de Dilma e Lula como válida, divulgar diálogos dela e de outras autoridades com foro na corte e fazer juízo de valor sobre sua conduta sem ter competência legal para tanto.

Mas os efeitos das decisões de Moro eram irreversíveis. Com base nas conversas divulgadas pelo juiz, o ministro Gilmar Mendes, do STF, impediu a posse de Lula no dia seguinte, 17 de março. Com o aprofundamento da crise política, a Câmara aprovou a abertura do processo de impeachment em abril e afastou Dilma do cargo.

Uma escuta telefônica autorizada pelo juiz Sergio Moro permitiu que a Lava Jato soubesse, em 9 de março de 2016, que a presidente Dilma Rousseff convidara o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um cargo no seu governo. Lula confirmou o convite numa conversa com o exministro Gilberto Carvalho, e o policial na escuta, Rodrigo Prado, avisou os outros investigadores num grupo do Telegram 9.mar.2016 Rodrigo Prado 16:02:49 Ela ofereceu mesmo pra ele

16:03:07 E ele esta pensando

16:03:07 Talvez aceite

16:04:01 Nao só por causa da LJ mas para salvar o Governo dela

16:04:33 Cai isso numa conversa dele com Gilberto Carvalho

CITAÇÕES LJ Lava Jato

O procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, pediu no mesmo dia ao delegado Igor Romário de Paula, da Polícia Federal, que providenciasse um disco com todos os telefonemas grampeados pela PF. Para eles, estava claro que Lula seria ministro 9.mar.2016 Deltan Dallagnol 19:25:19 Igor consegue pra mim CD ou DVD com todos os áudios do 9 e a análise dos que tiver? Estou sem nada pra ouvir no carro rsrsrs

Igor Romário de Paula 19:45:20 Sim... amanhã, ok!?

CITAÇÕES

9 Referência pejorativa a Lula, que perdeu um dedo da mão esquerda quando operário

Os integrantes da Lava Jato começaram então a discutir com o juiz Sergio Moro o levantamento do sigilo do inquérito e das conversas grampeadas. Para eles, havia uma oportunidade para fazer isso antes que Lula fosse nomeado e o caso fosse transferido de Curitiba para Brasília. No dia 15, a PF anexou aos autos da investigação três relatórios e 44 arquivos de áudio com os diálogos que achava mais relevantes 14.mar.2016 Luciano Flores 19:49:46 Prado e demais colegas da análise: Teríamos condições de apresentar os três relatórios de interceptação amanhã de manhã, com tudo o que tem de relevante nos dois períodos até o momento? (pergunto porque sei que vcs estavam com eles praticamente prontos)

Prado

20:24:45 Luciano: amanha de manha nao seria possivel. Sao 41 ligacoes no relatorio. Ainda faltam algumas mesmo fazendo mutirao de transcricao. Acho que conseguimos ate o final do dia de amanha.

20:25:15 Voces pensam em eprocar isso quando?

20:26:44 Se for uma emergencia, fechamos o relatorio do jeito que esta, mas muitas ligacoes so estao com resumo. E o Russo pediu expressamente que todas fossem transcritas.

20:27:16 Estamos tentando fazer o melhor possivel, porque esse relatorio vai fazer um strike em BSB

Flores 20:28:57 Estamos vendo essa questão da oportunidade... parece que já está confirmada a aceitação dele para Casa Civil

Prado

20:52:10 Ate o final do dia de amanha fica ruim? 20:52:32 Garato que ele estara pronto pra eprocar ate o final do dia

Carlos Fernando dos Santos Lima 20:52:47 Acho que a alternativa é fazer uma ft total pra desgravar 20:52:57 Degravar 20:53:11 Final do dia pode ser tarde demais

CITAÇÕES

Luciano Flores Delegado da Polícia Federal

eprocar Anexar aos autos no sistema eletrônico de acompanhamento processual, o E-proc

Russo Apelido de Sergio Moro

BSB Brasília

ft Força-tarefa

Lula aceitou o convite de Dilma na manhã do dia

16 de março, num café da manhã. Com a expectativa de que o anúncio fosse feito naquele dia, os integrantes da Lava Jato correram para levantar o sigilo da investigação, obtendo o aval da ProcuradoriaGeral da República para a iniciativa antes de uma reunião com Moro 16.mar.2016 Carlos Fernando 07:45:48 Qual a posição de Brasília sobre o assunto que vou tratar com o russo?

Paulo Roberto Galvão 07:47:56 Liga p o deltan p ele explicar. Mas de qq forma tem um café da manhã agora entre o 9 e a presidenta para concluir a discussão

Carlos Fernando 07:51:19 Por isso a urgência.

[...]

Deltan

08:48:37 Resumo: BSB achou melhor abrir sigilo aí (Pelella - Carol achava melhor deixar para avaliar na PGR). Antes de se tornar público, queriam poder ligar diretamente para o EA e falar

Carlos Fernando

[...]

09:02:10 Qual a reação quando soube também da medida?

[...]

Deltan

09:04:48 Reação foi boa 09:05:10 De concordância com probabilidade de que ele queira melar por questão ideológica e de que ele que se dane

CITAÇÕES

Pelella Eduardo Pelella, chefe de gabinete do procurador-geral da República, Rodrigo Janot Carol Anna Carolina Resende, procuradora em Brasília

EA Eugênio Aragão, recémnomeado ministro da Justiça

Confirmada a nomeação de Lula, Moro determinou a interrupção da interceptação dos seus telefones às 11h12. Faltava decidir sobre o levantamento do sigilo. Deltan estava em Brasília e procurou o juiz no Telegram

Deltan

12:44:28 A decisão de abrir está mantida mesmo com a nomeacao, confirma?

Sergio Moro 12:58:07 Qual é a posicao do mpf?

Deltan 15:27:33 Abrir

CITAÇÕES mpf Ministério Público Federal Moro ainda não recebera a manifestação do Ministério Público e não tomara sua decisão sobre o sigilo dos autos quando o grampo da PF captou uma conversa de Dilma com Lula sobre seu termo de posse. O policial na escuta logo avisou o grupo no Telegram. Mais tarde, relatou também uma conversa que Lula tivera antes com o vicepresidente Michel Temer

Prado

13:44:48 Senhores: Dilma ligou para LILS avisando que enviou uma pessoa para entregar em maos o termo de posse de LILS. Ela diz para ele ficar com esse termo de posse e só usar em “caso de necessidade”... 13:45:26 Estao preocupados se vamos tentar prendelo antes de publicarem no DOU a nomeacao do Lils

[...]

Athayde Ribeiro da Costa 14:27:39 já é calro. mais isso demonstra ainda mais o desvio de finalidade da nomeação

[...]

Prado

[...]

14:54:46 Falou com Temer... Lils Disse que ficou muito preocupado com as manifestacoes nas ruas domingo... Porque sao anti-politicas... E que ele precisa unir todos os politicos novamente para recuperarem o lugar deles...

CITAÇÕES

LILS Luiz Inácio Lula da Silva DOU Diário Oficial da União Temer O então vicepresidente Michel Temer

Moro autorizou o levantamento do sigilo da investigação em despacho protocolado no sistema eletrônico da Justiça Federal às 16h19. A GloboNews noticiou a decisão às 18h32 e revelou que Dilma fora grampeada. A notícia teve impacto imediato num grupo dos procuradores de Curitiba no Telegram

Carlos Fernando 18:40:09 Tá na globo news

Deltan

18:52:42 Ótimo dia rs

[...] Athayde 18:54:11 O mundo caiu

Deltan

18:59:54 Caros vamos descer a lenha até terça 19:00:02 por cautela falei com Pelella e deu ok

terça Dia previsto para a posse de Lula

Embora tivesse dado seu aval para que a forçatarefa trabalhasse desde cedo pelo levantamento do sigilo, o gabinete do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não sabia que Dilma fora grampeada. Janot estava na Europa e o procurador Eduardo Pelella, seu chefe de gabinete, chamou Deltan logo depois da revelação do diálogo com Lula

Eduardo Pelella 19:17:38 Vcs sabiam do áudio da Dilma? 19:17:59 Moro não menciona na decisão. E a gente não falou sobre isso

Deltan 19:22:57 Não 19:23:04 Parece que foi hoje cedo

Pelella 19:23:12 hoje cedo?

Deltan 19:23:13 Os relatórios foram fechados ontem

Pelella 19:23:17 Putz!

[...]

[...]

[...]

[...]

[...]

[...]

[...]

Duas horas e meia depois da divulgação da conversa de Lula e Dilma, os procuradores começaram a discutir a legalidade das decisões de Moro e os riscos para a Lava Jato. Como a conversa fora gravada pela PF depois que o juiz mandara interromper a escuta, havia dúvidas sobre o levantamento do sigilo das investigações por Moro e a divulgação do grampo

Orlando 21:05:53 Estou preocupado com moro! Com a fundamentação da decisão. Vai sobrar representação para ele.

Carlos Fernando 21:06:48 Vai sim. E contra nós. Sabíamos disso.

Laura Tessler 21:09:25 Acho que não... já chagaram ao limite da bizarrice...a população está do nosso lado...qualquer tentativa de intimidação irá se voltar contra eles

Carlos Fernando 21:18:01 Coragem... Rsrsrs

Orlando

[...]

21:19:20 Se acontecer algo com moro renúncia coletiva de MPF, pf e RF

Andrey

21:55:59 Mas juridicamente seria difícil argumentar q continuaria a ter validade apos a suspensao... Podese tentar, mas sera dificil

Carlos Fernando 21:58:06 O moro recebeu relatório complementar e o incorporou. Nesta altura, filigranas não vão convencer ninguém.

Welter

22:01:58 Se verdade, a autorização judicial cessou. Tendo sido desviado o audio, tem q desconsiderar

Roberson Pozzobon 22:04:46 Creio que esse áudio, consolida uma situação de fato, mesmo na hipótese de nao ser formalmente utilizado daqui pra frente

Carlos Fernando 22:12:16 O governo. Se tentarem medidas de retaliação, devemos ir para frente da TV e dizer o que acontece. Vamos dizer da guerra subterrânea que enfrentamos e das evidências de tentativas de destruição de reputação de pessoas de bem, como o Sérgio moro

Januário Paludo 22:39:17 Quem decide o que vai para os autos e o juiz. Se ele podia interromper também pode mandar juntar aos autos e validar. Filigrana.

Andrey

22:41:20 Januario, desculpe, eu nao vejo assim. Isso esta longe de ser filigrama na minha visao 22:41:40 Se ele suspendeu a interc, juridicamente nada vale dps

22:41:59 Eu espero q vcs estejam certos, mas nao eh tao tranquilo assim

Jerusa

22:42:05 gente, não precisamos usar esse audio. Januário 22:42:29 Ok. Vou pensar. Andrey

22:43:33 Eh q ele eh mto bom ne...por isso seria otimo se conseguissemos.

[...]

Deltan

[...]

22:49:16 Andrey No mundo jurídico concordo com Vc, é relevante. Mas a questão jurídica é filigrana dentro do contexto maior que é político.

CITAÇÕES RF Receita Federal interc Interceptação Informações de natureza pessoal e mensagens sobre outros assuntos foram suprimidas nos pontos com o sinal [...] A transcrição manteve a grafia original dos arquivos recebidos pelo The Intercept Brasil Leia os resumos das conversas de Lula com Temer grampeadas após a interrupção da escuta judicial, segundo anotações da PF 16.mar.2016 12h47 “Diz que vão conversar amanhã. TEMER está em SÃO PAULO. LILS quer saber se o uísque está lá ainda. Diz que TEMER tomou um pouco. LILS quer conversar com TEMER porque aceitou a CASA CIVIL. TEMER diz que precisam conversar. LILS diz que quer mudar a relação de TEMER com o PALÁCIO. Marcam às 19 horas em SÃO PAULO. Pede para preparar o uísque e o gelo. LILS diz que aceitou porque há uma possibilidade de animar o país. LILS diz que ficou preocupado com a manifestação de domingo. Diz que ninguém ganhou com a manifestação de domingo. Diz que quem ganhou foi o combate à corrupção expressado na figura do MORO. Diz que esse combate à corrupção foi sempre um alimento para golpistas no mundo inteiro. E quem ganhou foi a negação da política. O que fizeram com a MARTA, com o AÉCIO, com o ALCKMIN. Diz que a classe política tem que se unir para recuperar o seu espaço. LILS diz que vai restabelecer a relação carinhosa entre seres humanos nesse país.”

CITAÇÕES

MORO O então juiz Sergio Moro

MARTA Marta Suplicy, então senadora

AÉCIO Aécio Neves (PSDBMG), então senador

ALCKMIN Geraldo Alckmin (PSDB), então governador de São Paulo

12h58 “[Temer] Diz que está muito preocupado com MAURO LOPES assumir antes de resolver essas questões. Fala da história da afronta. Tem que esperar mais uns dias. LILS diz que tentou falar com ela. Ela está em reunião. LILS quer ser o parceiro de TEMER para reconstruir a relação com PMDB. LILS quer ser irmãos de fé. Se coloca à disposição. Quer harmonizar isso. TEMER quer trazer algumas pessoas para a relação deles. TEMER vai chamar PADILHA. LILS diz para chamar. TEMER diz que sempre teve bom relacionamento com LILS.”

CITAÇÕES

MAURO LOPES Deputado do MDB nomeado ministro da Aviação Civil

PADILHA Eliseu Padilha (MDB-RS), ex-ministro Nomes e erros de ortografia foram corrigidos na transcrição das anotações feitas pelos agentes da PF Duas conversas com jornalistas foram omitidas para proteger o sigilo da fonte Leia as outras conversas no site da Folha


Fonte: pressreader.com - FSP

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