Paisagem urbana

Prédios superam casas em área construída em SP

Prédios para residências, comércios e serviços superam imóveis horizontais em metros quadrados na cidade

06/09/2019 por Artur Rodrigues

Com o boom imobiliário da última década, concentrado em bairros ricos, as construções verticais passaram as horizontais em metros quadrados na capital paulista, considerando residências, comércio e serviços.

Cercado por prédios, o pequeno sobrado branco ostenta uma placa de “aluga-se” em uma rua estreita no Itaim Bibi. Do outro lado da rua, o estande anuncia mais um empreendimento de luxo.

As construções horizontais que sobraram parecem deslocadas, como se estivessem à espera de um prédio envidraçado para tomar seu lugar.

Em 25 anos, em metros quadrados, o Itaim Bibi foi o bairro onde mais se construiu na cidade de São Paulo. São 10 milhões de m², o equivalente a 165 estádios do Pacaembu.

Se na periferia houve acelerado crescimento proporcional, os campeões nos números absolutos de metros quadrados construídos são bairros ricos ou que se tornaram cobiçados para empreendimentos de alto padrão, como Moema, Tatuapé e Santana.

Os 10 primeiros distritos (a cidade tem 96) da lista foram o destino de 1 a cada 4 tijolos assentados na cidade.

Apesar de os bairros contarem com infraestrutura melhor do que a encontrada em boa parte da cidade, as mudanças que trouxeram desenvolvimento também arrastaram efeitos colaterais. Trânsito, barulho, sombra dos arranha-céus e falta de áreas verdes são algumas das reclamações de quem vive por ali.

“Nos oito anos que vivo aqui, peguei alguns prédios em construção. Eles chegavam a parar 14 caminhões de uma vez na frente da minha garagem”, diz o DJ Victor Bauer, 37, morador de uma casa isolada entre prédios no Itaim.

Apesar disso, ele diz gostar do bairro, pela proximidade da infraestrutura e pela segurança, fatores citados por outros moradores. Outra vantagem apontada é poder ir a vários pontos a pé, em uma região onde ruas estreitas foram inundadas por carros, motos e, agora, patinetes.

Especialistas consideram natural que bairros bem localizados e estruturados passem por processo de adensamento, mas afirmam que não houve cuidados para evitar os efeitos colaterais desse processo.

“Ao longo das décadas, alguns bairros foram eleitos como a bola da vez e sofriam um efeito de manada”, diz o urbanista Kazuo Nakano, da Unifesp. “O problema é o planejamento. A gente não teve uma lógica mais racional baseada na infraestrutura viária”, diz.

Nakano afirma que a preocupação ganhou forma de política pública a partir do plano diretor aprovado em 2014, na gestão de Fernando Haddad (PT), que estimula adensamento nos eixos de transporte. A gestão Bruno Covas (PSDB) tenta flexibilizar a regra que limita prédio no miolo de alguns bairros.

No Itaim, imóveis residenciais horizontais caíram 25%, enquanto verticais decolaram — apartamentos de alto padrão subiram 147% e os voltados a comércio e serviços, 37%.

Parte das áreas com aumento de construção faz parte dos trechos de operações urbanas como a Águas Espraiadas e Faria Lima. As operações são instrumentos que, em troca da permissão de maior adensamento, negociam créditos que vão para um fundo. O valor é usado pelo poder público para melhorias na região, como obras viárias e habitação de interesse social.

Para a urbanista Lucila Lacreta, do movimento Defenda São Paulo, a cidade de São Paulo acabou deixando questões sociais e urbanísticas para atender aos interesses do mercado imobiliário.

“O mercado pode até atender aquela demanda para comércio e serviço, mas não atende para saúde, educação, lazer, áreas verdes”, diz ela.

Na esteira do boom imobiliário da última década, em metros quadrados, as construções verticais passaram as horizontais no ano passado, somando dados de residências, comércios e serviço.

A alta é puxada pelo forte aumento de apartamentos residenciais de médio e alto padrão. Em número de lotes, as residências verticais passaram as horizontais em 2012. Hoje, são 1,5 milhão contra 1,3 milhão. A maior parte do terreno da cidade, no entanto, é ocupada por imóveis horizontais.

Representante da área de urbanismo do Secovi (sindicato que representa o mercado imobiliário), Ricardo Yazbek afirma que a cidade é pouco adensada em relação a outras no mundo (hoje, tem cerca de 8.000 habitantes por km²). “Paris, por exemplo, tem 21,3 mil habitantes por km² e Manhattan tem 27 mil habitantes por km²”, diz ele.

Para Yazbek, as operações urbanas foram bem-sucedidas. Ele admite que há problema de mobilidade da cidade, mas afirma ver algumas das críticas como manifestações de interesses individuais.

Ele cita o acrônimo Nimby, para a frase em inglês “not in my backyard” (não no meu quintal), usada para designar protesto a projetos que afetam uma vizinhança mas que podem ser benéficos à cidade.

A Secretaria de Desenvolvimento Social da gestão Covas afirma estar trabalhando em 19 projetos de intervenção urbana (PIUs), que devem melhorar problemas urbanísticos. Segundo a administração, há previsão de novos parques, praças, ações de arborização, obras de mobilidade e construção e qualificação de habitações sociais.


Fonte: pressreader.com - FSP

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