Polêmica internacional

Chile repudia ataque de Bolsonaro a Bachelet

Declarações de apoio ao golpe militar no país provocaram reação do presidente chileno, aliado do brasileiro, em defesa da democracia.

05/09/2019 por LUIZ RAATZ, JULIA LINDNER, MATHEUS LARA, RODRIGO TURRER e RICARDO GALHARDO

O presidente Jair Bolsonaro atacou ontem a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet e seu pai, Alberto Bachelet – torturado e morto pela ditadura de Augusto Pinochet –, e exaltou o golpe militar no país vizinho. As declarações suscitaram críticas nos dois países. O presidente do Chile, Sebastián Piñera, disse que não compartilha da “alusão feita por Bolsonaro”.

O presidente Jair Bolsonaro atacou ontem a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet e seu pai, Alberto Bachelet – torturado e morto pela ditadura de Augusto Pinochet –, e exaltou o golpe militar no país vizinho. As declarações coincidem com a chegada ao Brasil de Teodoro Ribera, chanceler chileno, e suscitaram críticas nos dois países. Aliado de Bolsonaro, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, disse em pronunciamento que não compartilha da “alusão feita pelo presidente Bolsonaro a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, num assunto tão doloroso quanto a morte de seu pai”.

Bolsonaro afirmou, nas redes sociais, que Bachelet “investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos)”. Disse ainda que o Chile “só não é uma Cuba” por causa do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende em 1973, e que, segundo Bolsonaro, “deu um basta à esquerda” no país, “entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época”, referindo-se a Alberto Bachelet. Michelle também foi torturada no regime liderado por Pinochet.

A manifestação de Bolsonaro foi uma resposta a declarações de Bachelet, que é alta-comissária para Direitos Humanos da ONU. Em entrevista em Genebra, na Suíça, ela havia dito que o “espaço democrático” no Brasil estava encolhendo. “Nos últimos meses, observamos ( no Brasil) uma redução do espaço cívico e democrático, caracterizado por ataques contra defensores dos direitos humanos, restrições impostas ao trabalho da sociedade civil”, afirmou.

“Seguindo a linha do (presidente da França, Emmanuel) Macron em se intrometer nos assuntos internos e na soberania brasileira, (Michelle Bachelet) investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos), atacando nossos valorosos policiais civis e militares”, rebateu Bolsonaro. Em nota, o governo brasileiro afirmou que a ex-presidente do Chile “trata o Brasil com descaso” e que “se orgulha da solidez de sua democracia”.

Mais tarde, Bolsonaro, que estará na Assembleia-Geral da ONU neste mês, reiterou as críticas a jornalistas, em Brasília. “Parece que quando tem gente que não tem o que fazer, como a senhora Michelle Bachelet, vai lá para cadeira de direitos humanos da ONU. Passar bem, dona Michelle. A única coisa que tenho em comum com ela é a esposa que tem o mesmo nome. Fora isso, fora isso, meus pêsames a Michelle Bachelet”, disse Bolsonaro.

O porta-voz de Bachelet na ONU, Rupert Colville, rechaçou as falas de Bolsonaro. “Não costumamos comentar esse tipo de declaração, por mais que elas sejam imprecisas e deselegantes”, disse ele ao Estado.

Repercussão. As declarações tiveram repercussão na imprensa chilena. A diplomacia chegou a discutir a divulgação de um comunicado, mas, diante do amplo rechaço de setores de esquerda e direita no Chile, Piñera optou por um pronunciamento. “É de público conhecimento meu compromisso permanente com a democracia, a liberdade e o respeito aos direitos humanos em todo tempo, lugar e circunstâncias”, disse. “As distintas visões sobre os governos que tivemos nos anos 70 e 80 devem ser feitas com respeito.”

Não é de hoje que o apoio de Bolsonaro à ditadura Pinochet tem causado embaraços. Em março, quando o presidente viajou ao Chile – fazendo sua primeira viagem oficial como presidente –, os presidentes da Câmara, Iván Flores, e do Senado, Jaime Quintana, recusaram o convite de Piñera para um almoço em homenagem ao brasileiro no palácio La Moneda.

O Chile, porém, é um dos principais aliados de Bolsonaro na América do Sul. Na cúpula do G-7 em Biarritz, na França, Piñera participou das discussões sobre as queimadas na Amazônia. No começo do ano, Bolsonaro e Piñera articularam a criação do Prosur – bloco de centro-direita sul-americano que substituiu a Unasul – e unificaram o discurso de apoio à oposição liderada por Juan Guaidó na Venezuela.

Não é a primeira vez que Bolsonaro se envolve em polêmica ao citar vítima de regimes ditatoriais. Em julho, atacou a memória do pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, Fernando Santa Cruz.


Fonte: pressreader.com - O Estado de SP

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