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Favorito na Argentina, oposicionista Alberto Fernández busca apresentar perfil moderado

Candidato da chapa de Cristina Kirchner questiona pela primeira vez o governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

14/08/2019 por Janaína Figueiredo

Com seu favoritismo para as eleições presidenciais de 27 de outubro confirmado nas primárias do último domingo, o candidato Alberto Fernández , líder da chapa em que a senadora e ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015) é candidata a vice, reforçou ontem seu perfil moderado na tentativa de afastar temores sobre o futuro da Argentina. Ele acenou com a possibilidade de convocar o também candidato presidencial Roberto Lavagna, economista de prestígio dentro e fora do país, para integrar seu gabinete e questionou pela primeira vez o governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

Aos 60 anos, o homem que em 2003 coordenou a campanha presidencial de um desconhecido Néstor Kirchner e depois se tornou seu chefe de Gabinete formou uma coalizão que reúne o kirchnerismo e quase todas as demais correntes do peronismo. Ele já demonstrou ser um bom candidato — teve 47% dos votos nas primárias, contra 32% do presidente Mauricio Macri — e agora busca apresentar-se como um presidente confiável.

Até ser convocado por Cristina para assumir a candidatura presidencial, num gesto que surpreendeu aliados e adversários, Fernández era um articulador político e sua meta era voltar a unir o peronismo. O candidato rompeu com sua hoje companheira de chapa em 2008, saiu do governo e desde então trabalha por essa reunificação, que foi essencial para sua vitória sobre Macri.

Artigo: Os perigos de um Macri alienado, que acredita que as pessoas erraram ao votar

— Cristina entendeu que era necessário abrir espaços e reunir o peronismo — afirmou o analista Jorge Giacobbe.

Fernández nunca ocupou cargos eletivos, mas, “mesmo sem experiência como gestor, Alberto fez e está fazendo uma boa campanha e, diante de um Mauricio Macri que foi a nocaute, já se move com a certeza de que será presidente”, disse Giacobbe. Na Argentina, para a vitória em primeiro turno, são necessários 45% dos votos ou 40% com uma diferença de 10 pontos sobre o segundo colocado.

Embora insista em responsabilizar o governo pela disparada do dólar nos últimos dois dias (a moeda americana passou de 46 para 58 pesos) e afirmar que é a Casa Rosada que deve acalmar os ânimos, Fernández tem tentado enviar sinais amigáveis aos mercados. No entanto, ainda é pouco claro sobre seu programa econômico.

Contato com o FMI

Ontem, o risco país, que mede a percepção do mercado do perigo de que a dívida pública não seja paga, subiu para 1.706 pontos, o maior desde 2009. O temor que tem sido expressado por operadores é de que Fernández não salde o empréstimo de US$ 57 bilhões contraído por Macri com o Fundo Monetário Internacional — o maior da história do organismo. Fernández, no entanto, nunca disse que não pagaria o crédito, embora tenha afirmado que vai negociar com o FMI um plano econômico alternativo, ainda desconhecido.

O candidato manteve contatos com representantes do FMI e expressou sua intenção de iniciar uma renegociação no começo de 2020, caso seja eleito. Fernández tem uma equipe de assessores economistas, entre eles alguns mais ortodoxos como Guillermo Nielsen, que participou da renegociação da dívida liderada por Lavagna, então ministro da Economia, no governo Néstor Kirchner (2003-2007). A equipe inclui economistas de linha mais heterodoxa, como Matias Kulfas e Cecília Todesca. O candidato disse estar disposto a trabalhar em conjunto com o governo para evitar o aprofundamento da crise, mas sem entusiasmo:

— O diálogo está aberto, mas eu não quero mentir para os argentinos. O que eu posso fazer? Eu sou apenas um candidato. A minha caneta não assina decretos — disse Fernández, que recentemente provocou debate ao afirmar que não pagaria juros de letras do Tesouro emitidas por Macri e usaria esse dinheiro para financiar programas sociais.

Não está claro como Fernández cumpriria as metas fiscais estabelecidas no acordo entre Macri e o FMI, já que o candidato afirma que vai rever o entendimento para aumentar os gastos sociais. Ele tem dito que não repetirá erros do passado como fechar a economia e impor um controle cambial rígido.

A estratégia de moderação levou o candidato a criticar ontem o governo Maduro, contrariando uma posição dos Kirchner desde a época do falecido Hugo Chávez (1999-2013). Citando o recente relatório da ONU sobre violações dos direitos humanos na Venezuela, coordenado pela ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, Fernández afirmou que Caracas tem hoje um “regime autoritário”.

A relação com o Brasil promete ser complexa. Na segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro, que mantém seu firme apoio a Macri, se referiu a Fernández e Cristina como “a esquerdalha”. O candidato argentino respondeu acusando o brasileiro de ser “racista, misógino e violento”, mas disse que isso não afetará a relação entre Estados:

— Com o Brasil, teremos uma relação esplêndida. O Brasil sempre será nosso principal sócio. Bolsonaro é uma conjuntura na vida do Brasil, como Macri é uma conjuntura na vida da Argentina.

Bolsonaro já atacou Fernández por ter visitado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, em julho, e pedido sua libertação. Na conversa que tiveram na época, Lula e Fernández criticaram Macri e Bolsonaro pela “postura subalterna aos EUA”, mas destacaram a importância de priorizar os interesses do país e não os partidários e estabelecer uma “relação Brasil-Argentina e não Bolsonaro-Fernández”.

Assim como Lula, Cristina Kirchner responde a processos em que é acusada de integrar uma organização criminosa para atender empresários em concessões de obras públicas, e afirma ser perseguida politicamente. (Colaborou Bela Megale)


Fonte: https://oglobo.globo.com

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