Pensamentos liberais

Vem aí a Witzelândia

Para mim, fora do carnaval, o Sambódromo deveria existir como foi planejado por Leonel Brizola: um CIEP, o maior dos CIEPs

14/07/2019 por Artur Xexéo

RIO — O governador Wilson Witzel e eu temos algo em comum: ambos consideramos o Sambódromo um equipamento subaproveitado. Ele é grande demais, custoso demais para funcionar apenas dois dias por ano. Bem, quando o prefeito Marcelo Crivella deixa, a Passarela do Samba funciona também em alguns fins de semana que antecedem o carnaval para ensaios abertos das escolas de samba. Mas isso só acontece quando o prefeito deixa. Ultimamente, são só as duas noites regulamentares do carnaval.

No entanto, diferentemente do governador, não tenho nenhum plano ousado para a ocupação da obra de Oscar Niemeyer. Para mim, fora do carnaval, o Sambódromo deveria existir como foi planejado por Leonel Brizola: um CIEP, o maior dos CIEPs. Seus camarotes seriam transformados em salas de aula. A passarela propriamente dita seria um espaço esportivo ou para recreação. E a Praça da Apoteose seria aberta, nos fins de semana, para espetáculos musicais e bailes populares.

Mas isso é coisa de velho, e o governador é moderno. Ele quer incrementar o turismo na cidade. Para isso, planeja um acordo com a Disney com a intenção de trazer para cá a parada que, todos os dias, acontece nos parques temáticos do império americano da diversão. A Parada Disney aconteceria todos os finais de semana na Sambódromo. Que tal? O turista trocaria a Flórida pelo Rio e teria aqui a maior atração de lá, um pouquinho da Disneylândia. Mais modesta que a original, é verdade. Mas quem não tem Disney pode muito bem se contentar com Witzel, que, além do mais, almeja o “uso permanente daqueles camarotes, para uso gastronômico na região”. Aí o governador parece se espelhar em outro sucesso dos parques Disney, o Epcot Center. Para encerrar seu megalômano plano turístico, o governador pensa em convencer o papa a vir ao Rio, uma vez por ano, rezar uma missa. “Já pedi para o Claudio Castro uma reunião e vou convidá-lo”.

Para quem não está ligando o nome à pessoa, Claudio Castro é o vice-governador. Só soube disso quando li as declarações de Witzel. Mas aprendi, ao mesmo tempo, que é um homem de prestígio, assim, ó, com o papa. Agora que ele está encarregado de armar o encontro do Sumo Pontífice com o governador, tudo vai dar certo, e o Rio vai se transformar numa Witzelândia.

Só faço uma sugestão. Por que não ampliar a Witzelândia e criar um espaço para que os turistas possam assistir a um tiroteio sem correr o risco de ganhar uma bala perdida? Poderia ser ali na Linha Vermelha, onde o empreendedorismo carioca já criou uma praça de alimentação para que a população não perca tempo no tradicional engarrafamento da área. Enquanto o trânsito não anda, vendedores ambulantes uniformizados oferecem pão de queijo, coxinha e refrigerante. Basta construir ali um camarote — com vidro blindado e ar-condicionado, é claro — para o turista apreciar ao vivo uma troca de tiros entre traficantes e policiais. Tiroteio na Linha Vermelha, pelo menos, é mais tipicamente carioca que Parada Disney.

Dona Candoca pergunta: “Será que Maria da Paz não vai trocar as senhas de seus cofres? Ou ela continuará sendo roubada até o fim da novela?”


Fonte: OGlobo.com

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