Uso de munição especial reforça suspeitas

Bala reforça 'DNA de grupo paramilitar' no assassinato de Marielle Franco

Digitais são encontradas em balas usadas no assassinato de vereadora e motorista

11/04/2018 por ANTÔNIO WERNECK

RIO - O uso de pelo menos um projétil especial na morte de Marielle e Anderson reforça a suspeita de que, nas palavras de um investigador, “há DNA de um grupo paramilitar no crime”. Além disso, ele vê a possibilidade de existir um elo entre o duplo homicídio no Estácio e cinco assassinatos praticados em Niterói e São Gonçalo.

Policiais civis e federais que investigam a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Pedro Gomes conseguiram colher digitais parciais do assassino ou da pessoa responsável por municiar a pistola 9mm usada no crime, ocorrido no último dia 14. Elas estavam em cápsulas encontradas por peritos na esquina das ruas João Paulo I e Joaquim Palhares, no Estácio, onde aconteceu o ataque ao carro das vítimas.

Especialistas examinaram nove cápsulas, sendo oito do lote UZZ 18, vendido pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) em dezembro de 2006 para o Departamento da Polícia Federal em Brasília e distribuído para todo o país. Um único projétil faz parte de um carregamento importado, e, de acordo com investigadores, tem características especiais, semelhantes à de uma outra cápsula de um homicídio que aconteceu fora da capital, na Região Metropolitana do estado.

As digitais encontradas nas cápsulas, segundo um perito, “estão fragmentadas”. Isso significa que, num primeiro momento, não podem ser comparadas com as armazenadas no banco de dados das polícias Civil do Rio e Federal. Porém, segundo policiais que atuam no caso, é possível confrontá-las com as de um eventual suspeito.

— Elas são microscópicas, fragmentadas. Mas estamos fazendo todo o esforço possível — afirmou um policial que participa da investigação.

NÚMEROS DE HOMICÍDIOS SÃO EXPRESSIVOS

Nos últimos três anos, o Estado do Rio registrou 14.574 homicídios dolosos. Foram 4.200 em 2015, 5.042 em 2016 e 5.332 em 2017. Mas, segundo a Divisão de Homicídios da Polícia Civil, em apenas três ações, que resultaram em cinco mortes, foi detectado o uso de munição do lote UZZ 18 — que tinha 1,859 milhão de balas — em território fluminense. Esses casos ocorreram no bairro do Pacheco, no município de São Gonçalo; em Itaipu, na cidade de Niterói; e na localidade de Estância de Pendotiba, na divisa entre os dois municípios.

— Na minha opinião, pelos estojos encontrados, existe um padrão semelhante em todas as mortes. Os assassinos de Marielle tiveram acesso à mesma munição utilizada em São Gonçalo e Niterói — afirmou um especialista em armas que acompanha o trabalho dos investigadores.

O GLOBO teve acesso a dados dos inquéritos sobre os homicídios em Niterói e São Gonçalo. Em julho de 2015, Matheus da Silva Carvalho e Wallace Mendes de Araújo foram mortos na Rua Expedicionário Joaquim Onilo Borges, no Pacheco. Peritos recolheram cápsulas calibre 9mm no local. Duas eram do lote UZZ 18; uma pertencia ao AGW 25 (também da Polícia Federal) e sete faziam parte dos carregamentos BQZ 91, AAE 67, AAY 68 e BAY 18, todos vendidos pela CBC para a Polícia Militar de São Paulo nos anos de 2005, 2006, 2007 e 2008.

No mês seguinte ao crime em São Gonçalo, cápsulas dos lotes UZZ 18, AAY 68 e BAY 18 foram usadas numa chacina em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo — três policiais militares e um guarda civil executaram 17 pessoas. O governo paulista afirmou ao GLOBO que desconhecia o aparecimento da munição em São Gonçalo. O secretário de Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, determinou a abertura de um inquérito. “A investigação interna vai apurar uma possível participação de PMs no desvio dos lotes mencionados pela reportagem”, disse ele, em nota.

Identificado pela Polícia Civil como um dos autores do duplo homicídio no Pacheco, Cleyton Passos Gomes foi preso e aguarda uma apelação na segunda instância do Tribunal de Justiça do Rio. Ele não foi identificado por testemunhas. Sua advogada, Fernanda Perazoli, informou que somente se manifestará sobre o processo em juízo.

Ainda em 2015, no mês de dezembro, Vinícios Neves de Oliveira e Reginaldo Galdino Caldas foram assassinados no Morro do Goiabão, em Itaipu. Peritos recolheram seis cápsulas de pistola 9mm. Duas eram do lote UZZ 18; três, do BNS 23, vendido pela CBC à Marinha; e a última pertencia ao AAY 68, da PM de São Paulo. Nenhum suspeito foi identificado.

Em setembro do ano passado, Cláudio Chimaru da Silva, conhecido como Du Borel, foi morto em Estância de Pendotiba. Segundo o inquérito do caso, 17 cápsulas calibre 9mm foram encontradas no local do crime. Dezesseis pertenciam a lotes vendidos pela CBC à Polícia Federal; uma, ao UZZ 18.

Du Borel era gerente do tráfico na comunidade Risca Faca. Uma testemunha do crime contou que ele foi sequestrado, torturado e morto após ter aplicado um golpe em PMs e no chefe da quadrilha local, Alberto Pietro da Silva Baunilha, o Gorilão, que está preso.

— Ele superfaturava o arrego. Dizia para Gorilão que estava pagando R$ 7 mil por semana aos policiais, mas, na verdade, entregava uma propina de R$ 5 mil. Du Borel juntou mais de R$ 50 mil — contou a testemunha ao GLOBO, sem apontar quem praticou a execução.

MINISTRO FALA EM ‘AFUNILAMENTO DE HIPÓTESES

O ministro Raul Jungmann disse nesta terça-feira, em São Paulo, que houve “um afunilamento das hipóteses que cercam o assassinato de Marielle e Anderson”. Segundo ele, “o leque de possibilidades sobre o crime está simplificado”.

— As pessoas com quem tenho falado estão animadas de que vão conseguir colocar na cadeia não só os que executaram, mas também os mandantes — afirmou Jungmann, acrescentando que, em breve, “o Rio terá boas notícias no campo da segurança”.

Agentes da Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil voltaram, também nesta terça-, à Câmara dos Vereadores: eles intimaram Jones Moura (PSD) e Val Ceasa (PEN) para prestarem depoimentos sobre a convivência com Marielle. O primeiro foi eleito com o apoio de integrantes da Guarda Municipal, o segundo recebeu um número expressivo de votos na região de Acari.

Outros seis vereadores já foram ouvidos na DH: Renato Cinco e Babá, ambos do PSOL, Zico Bacana e Marcello Siciliano, do PHS; Italo Ciba, do Avante; e Jair da Mendes Gomes, do PMN. Investigadores destacaram que nenhum parlamentar está sendo colocado sob suspeita.

*Colaboraram Aline Macedo e Luiza Souto


Fonte: OGlobo

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