As grandes navegações das canoas de tolda

Muito apropriado para o momento o artigo CANOA DE TOLDA - Reedição

Parte da história da canoa de tolda na região do baixo São Francisco

10/01/2018 por Por Raul Rodrigues

Nascido na fazenda Intans, na época pertencente ao curral de Pedras, município de Gararu – Se., que se estendia até a foz do Rio São Francisco, Murilo Rezende viveu desde a mais tenra idade as aventuras do conhecido rio e dele nunca conseguiu se desvencilhar. Filho de Pedro Rezende, oriundo da Vila Providência (conhecida como Panelas) hoje município de Itaí no estado de Sergipe, e Ana Maria Rezende, ela, natural de Belo Monte - Al., aquele menino cresceu na referida fazenda onde seus pais trabalhavam e que naquele tempo empregava cerca de quase 400 famílias, devotados trabalhadores da produção de arroz.


Pelo número considerável de famílias justificava-se a nomeação de uma professora do estado para alfabetizar os filhos dos trabalhadores, e esta função foi destinada à mãe do pequeno Murilo, que vivia a sonhar com as coisas do rio e do mundo distante ainda desconhecido. Viu as grandes canoas de tolda atracar no cais da fazenda para receberem cargas de 800 sacos, equivalente a 48 toneladas até 1200 sacos de arroz aproximadamente 72 toneladas, caso da conhecida canoa MARIALVA de propriedade do Sr. Augustinho Gonçalves da cidade de Propriá-SE, tio do ainda hoje empresário Arnaldo Gonçalves da vizinha cidade do Penedo.


Ainda menino conheceu parte da história e da lenda dos ribeirinhos, como é o caso do conhecido MUDO DAVI, homem de estatura atarracada, dono de uma força descomunal e uma das figuras mais lembradas do baixo São Francisco. Marcava sempre sua presença através das vestimentas, terno branco, calçado de tamancos e um charuto a fumar, quando das folgas e em visita aos conhecidos cabarés das cidades nas quais a canoa em que trabalhava aportava, em Pão de Açúcar nas “Carrapateiras”, em Propriá no “Ferro de Engomar” e em Penedo no não menos famoso “Camartelo”. Suas façanhas também ficaram conhecidas quando do carregamento nos portos por onde passava, ao carregar três sacos de arroz ao mesmo tempo, um em cada mão e outro preso aos dentes, totalizando 180 Kg com muita facilidade na locomoção. Foi um ídolo para os filhos de canoeiros da época e um nome respeitável em todo baixo San Franciscano, contam que muitas vezes desencalhou a canoa no porto ou no meio do rio com sua força somente com um empurrão na própria canoa, ainda hoje é lembrado como símbolo de força e resistência física mesmo após décadas do seu desaparecimento.


Neste contexto ainda se encontra a marca do desenvolvimento de toda região com o auxílio do transporte hidroviário, pois toda produção de algodão, era carregada para as cidades polos que detinham suas fábricas, sendo a maioria delas localizadas em Própria e Penedo, como exemplos citamos: a C.I.P. Companhia Industrial Penedense, TÊXTIL dos Antunes em Neópolis, MARITUBA ainda em Penedo, dos Gonçalves e Peixoto Gonçalves na conhecida Vila Operária.


Segundo Murilo o rio não foi retribuído pelos que o exploraram, pois se desde aqueles tempos fossem destinados 0,1 % do comércio que trafegava nas águas do hoje cansado rio, em investimentos de dragagem e manutenção das suas margens, o sofrimento seria pelo menos amenizado. Mas o homem no auge de sua ganância não refletiu sobre quem lhe dava o que beber e muitas vezes o que comer.


O mestre das águas San Franciscanas do baixo São Francisco, fala com voz pausada e ressentida, como se fosse um choro, um reclamo, do próprio rio, que nas suas ontem caudalosas e amareladas águas navegavam nada menos que centenas de canoas de grande porte, como a já citada MARIALVA, a BUENOS AIRES de propriedade do conhecido Sr. Elísio Maia de Pão de Açúcar, GOIANA do Sr. Joaquim Rezende também de Pão de Açúcar, LINDOYA do Dr. Etelvino Tavares, dono da fazenda Araticum margem direita do São Francisco nas imediações de Limoeiro e Belo Monte, AVIADORA da fazenda Salgado do Sr. José Braúna da cidade de Própria, CANINDÉ, a maior delas de 1200 sacos de Ercílio Brito também de Própria. Entre as de menor porte estavam a ITABERABA da cidade de Gararu-SE, orgulho do mestre Murilo, pois era do Sr. Seu pai, canoa que o fez lembrar-se de uma das suas maiores aventuras no meio das águas do rio que o batizou. Naquele tempo os pais iam com os filhos ou mandavam os mesmos com alguém de confiança para a cidade grande (como se chamava o centro mais desenvolvido) para a visita periódica ao dentista, e Murilo foi então entregue ao mestre da canoa do seu pai para ir até Propriá, em meio à viagem eis que acorda aos primeiros raios do sol e saindo pela portinhola da frente da tolda, sobe ao mastro da vela de proa, e de lá fica a acenar para o mestre que ao ver o filho do patrão naquela altura pensou: se ele cair estou desempregado, isso se nada acontecer ao garoto, aventura esta que terminou bem, o mestre ficou calado com seus auxiliares e o pai do menino trapezista só veio, a saber, do fato muito tempo depois.


Segundo o ribeirinho Murilo, ou mestre Murilo, o rio ainda viveu a abrigar muitas outras canoas, as graneleiras, que transportavam o “cimento” da época, A CAL, que serviu para todas as grandes construções do baixo São Francisco, advindo todo ele da pequena Belo Monte, através das canoas, OURO BRANCO de Antônio Salú – SÃO JOSÉ de Aristides Alves Melo – NOVA CONQUISTA de José Dandão, narra ele como se estivesse vendo as canoas descendo o rio e as cidades portuárias a esperar a riqueza do sertão ribeirinho.

Neste momento da narrativa, Murilo para e dar uma olhada para o firmamento como se pedisse inspiração ou algo a mais pra lembrar e dispara novamente um rosário de lembranças. Todas as cidades da época precisavam de madeira para manter suas indústrias fossem elas quais fossem todas elas eram a vapor, e era lenha queimada. O preço do progresso começava a desafiar ao homem quanto ao futuro, preservar era uma palavra que nem se pronunciava quanto mais à aplicabilidade dos recursos renováveis. Murilo fala então emocionado do DESMATAMENTO das margens e do não reflorestamento, causa do começo do assoreamento do “VELHO CHICO”. .
Segundo a sua opinião, abalizada em seus muitos anos de vida e os últimos 25 dedicados à EXPEDIÇÃO LIGAÇÃO, a situação do rio poderia ser diferente, mas jamais poderia ter se feito tanto com o rio e no rio, sem que ele viesse a sofrer.
Com a sua vida radica em Penedo após o casamento com a Sra. Maria do Carmo (carminho) e encontrou-se então com outro apaixonado pelo mesmo rio: LIGAÇÃO que na realização de um dos seus muitos sonhos, confeccionou uma lancha que a denominou também com seu apelido e nas andanças náuticas criaram mais que uma amizade, um compromisso com a ecologia, a defesa do rio que como seu nome já traduz, DEU TUDO O QUE TINHA PELA SOBREVIVÊNCIA DOS OUTROS.

Murilo e Ligação começam então um hobby: pescar subindo o rio e o resultado disso foi a criação da “EXPEDIÇÃO LIGAÇÃO”.


No ano de 1979 estes novos VESPÚCIOS resolvem subir o rio até a cidade de Xingó, numa aventura que vai se repetir por mais de uma década com a dupla no comando, viagens estas que tinham um lado prazeroso da viagem, mas muito mais que isso, representava para eles uma realização: Ligação e o Capitão Murilo, posto alcançado por mérito e reconhecimento do seu companheiro, subiam o rio distribuindo caixas de anzóis aos pescadores e colônias de pescadores, como uma forma de conscientiza-los para uma pesca não predatória, visitavam cidades e fazendas levando as boas novas da cidade grande e os avisos do que estava acontecendo ao companheiro de todas as horas, o rio da unidade nacional.


Outra ação importante desenvolvida pelos componentes da expedição era a entrega de folhetos educativos confeccionados pelos membros da aventura com responsabilidade de levar aos povos das margens uma mensagem de como não matar o rio.


As datas das viagens eram sempre escolhidas pelo Capitão que apoiado no calendário marcava a data que melhor coincidisse com os festejos ribeirinhos e a lua cheia a visitar a terra através das plácidas águas San Franciscanas, espetáculo dos mais belos vistos pelos expedicionários desta aventura.


Murilo conta orgulhoso da primeira equipe a formar a expedição, composta por Ligação, ele, e Dozinho este último na função de piloto. Na segunda aventura a legião cresce com a chegada de Juarez Vieira, amigo de ambos e com estreito relacionamento profissional com Ligação, não bastando isto, ainda é também filho de Piranhas cidade às margens do resistente rio, mais um motivo para se fazer presente a quase todas as demais expedições.

O Capitão começa então uma série de melhorias na embarcação, incluindo a introdução do barco salva-vidas “DAVI” homenagem ao tio de Ligação, o “MUDO DAVI”.

Nas viagens sempre foi uma preocupação do Capitão, a partida acontecer nas imediações do forte da rocheira, local onde ancorava a lancha e ponto de encontro dos amantes deste rio.  Murilo faz questão de salientar a participação de personagens que compuseram a expedição como o piloto Edézio, pescador da cidade de Penedo, que por varias vezes integrou o corpo de marinheiros fluviais.

A ida e vinda sempre foi um sucesso devido aos cuidados dos promotores da viagem-estudo porque toda a precaução era tomada para que nada acontecesse, a escolha da ilha para almoçar, da croa para dormir, tinha que atender aos requisitos de não ter vegetação para evitar os mosquitos e possíveis répteis peçonhentos, como cobras e outros visitantes de risco.

Foram 25 viagens, uma a cada ano, que levam ao Capitão concluir que se as hidrelétricas gastassem 0,1% do seu faturamento que todo ele é proveniente das águas do rio que elas usam, para cuidar da manutenção do leito do mesmo rio que elas exploram, já seria uma ajuda considerável se bem aplicada. O velho Capitão ressalta que o assoreamento cresce também pela ausência das cheias que naturalmente dragavam o leito, rasgando o fundo do rio e criando canais mais fundos, propiciando assim maior velocidade das águas que invadiam o mar na região do Cabeço e pontal do Peba.


O surgimento do “rabo de raposa” também provoca atrito com as águas diminuindo assim a velocidade de descida das mesmas e contribuindo também para o assoreamento.
Nesta década em que se comemoram os 500 anos do “VELHO CHICO” a expedição mudou de data para fazer acontecer nos registros da data, a marca destes abnegados e relutantes senhores das águas, tendo participado dos festejos comemorativos nas cidades de Piranhas, Própria e Penedo.

Partiram de Penedo no dia 28 de setembro, se encontrando em Piranhas para participar dos atos ali acontecidos com a presença do Historiador Professor Douglas Apratto Tenório e do Governador de Sergipe e Ex-Ministro do Interior Sr. João Alves Filho que reconhecem nestes homens das águas, um dos símbolos de luta pela revitalização do hoje sofrido Rio São Francisco.

Após participarem dos atos na citada cidade, eles desceram o rio em busca da cidade Sergipana de Própria onde foram alvos da equipe de reportagem da Rede Globo sendo filmados e citados como dignos defensores do nosso rio, tanto em Piranhas quanto em Própria foram alvos de reconhecimento e homenagens por parte das autoridades. Na sua chegada a Penedo foram recebidos ainda no povoado da Saúde por representantes da Associação dos lancheiros sendo escoltados até Neópolis de onde retornaram e param em frente à cidade para assistirem as homenagens prestadas ao “VELHO CHICO” mesmo se cantando os parabéns com a multidão de costas para o homenageado, observação esta, feita por um humilde canoeiro que ainda hoje chega a encher os olhos de lágrimas ao lembrar tamanha desfeita ao pai de tantas famílias ribeirinhas.

Da experiência dos que fazem a “EXPEDIÇÃO LIGAÇÃO” uma lição: O RIO AINDA PODE SOBREVIVER, SÓ DEPENDE DE VOCÊ, POIS ELES JÁ FAZEM A PARTE DELES.


Capitão Murilo é tão apaixonado pelo Velho Chico que não perde oportunidade de mostrar a turistas as belezas do velho rio, caso como de um grupo familiar da capital do RN, que em visita a Penedo tiveram o privilégio de passearem pelas águas ainda navegais nas proximidades da bela cidade de Penedo em uma pequena replica de uma canoa de tolda, como comprovam as fotos, canoa esta construída na cidade de Traipu, e se encontra hoje exposta no Museu do Mar em Santa Catarina.


Fonte: Correio do Povo de Alagoas

Tags: canoa de tolda