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10.09.2017 - 10:47   por Raíssa França e Amanda Falcão*

Transexual e intersexo relatam como é viver em um corpo que não os pertence

A luta pela identidade: transexual e intersexo relatam como é viver em um corpo que não os pertence

Olhar-se no espelho e saber que aquilo que se enxerga não é, verdadeiramente, o que se é. Enfrentar, diariamente, o preconceito, os constrangimentos nas idas aos banheiros públicos, ter que lidar com perguntas indiscretas e lutar pela verdadeira identidade que, em muitos casos, ficou oculta durante anos.

Antes de o bebê nascer, a sociedade prepara uma festa para recebê-lo na certeza de que será menino ou menina. Mas, e se a menina não for uma menina e sim um menino? Quem não se identifica com o gênero que nasceu é chamado de transexual. Quem nasceu com os dois órgãos genitais é o intersexo ou para os mais antigos, o famoso hermafrodita.

A reportagem do CadaMinuto conversou com dois maceioenses que contaram como é viver dentro de um corpo que não os pertence.

O mundo de Benjamin

O professor de psicologia, Benjamin Vanderlei, de 23 anos, já não é mais Waleska há dois anos. Desde criança, Benjamin sabia que não era uma menina, mas só aos 15 anos que começaram as pesquisas sobre o assunto. Porém, a maioria dos relatos encontrados por ele eram de homens trans de fora do Brasil.

“Há oito anos as pessoas não falavam sobre ser transgênero, então apesar de existir e já ter os procedimentos, era um tabu gigante. Eu sempre conversei com minha família, mas quando se é mais novo você não consegue medir a dimensão do que lhe incomoda”, disse Benjamin.

Benjamin resolveu abandonar a Waleska que ainda existia nele e optou pelo tratamento hormonal há seis meses. Desde então, as principais mudanças já foram notadas, como as mudanças no rosto, na voz e o crescimento de pêlos.

O psicólogo também comentou que mais um grande passo será dado: a mudança de nome e gênero na documentação. Benjamin procurou a Defensoria Pública de Maceió para fazer a solicitação.

“Eu já procurei saber como funciona, mas são muitos documentos e precisa de todos para poder entrar com o pedido. A mudança do nome formalmente é uma forma das pessoas não lhe reconhecerem mais como seu antigo gênero, e sim lhe ver como a pessoa que você é agora”, ressaltou Benjamin.

Um dos grandes problemas enfrentados por pessoas trans é ter uma aparência masculina ou feminina e os documentos afirmarem que você não é quem você se identifica. Segundo Benjamin, momentos do dia a dia, em que o uso dos documentos são necessários, como em bancos, hospitais, entre outros, trazem a tona uma explicação de quem ele é e o motivo de não se identificar mais com o nome feminino e a foto apresentada. “Às vezes, quando chamam seu nome antigo em voz alta e você se levanta, as pessoas ficam sem entender, e isso é constrangedor”, afirmou.

Benjamin pretende fazer futuramente a cirurgia de mudança de sexo e conta com o apoio da sua família e dos amigos, mas comentou que o que lhe mais acompanhou neste tempo foi o seu terapeuta. “Eu indico que todos busquem um terapeuta, pra entender o que está acontecendo, que pesquisem sobre o tema e busquem o maior apoio de quem está ao seu redor”, completou.

Rita x Raí

Aos 51 anos, o advogado Raí Lima de Albuquerque precisou ter um câncer de mama para deixar de vez a Rita que o assombrou durante anos. Raí, aos cinco anos de idade, sabia que não era uma menina que usava vestidos e lacinhos na cabeça. “Eu soube quando me colocaram para dançar com um menino e eu não quis”, disse.

Raí foi à uma médica ginecologista aos 15 anos e já com a aparência masculina, a médica não informou que a Rita tinha dois órgãos genitais e que ele seria o famoso “hermafrodita”. “Eu não sei se a médica foi preconceituosa, ela não tomou nenhum procedimento, apenas disse que eu tinha ovário policístico. Fui taxado, durante anos, de lésbica porque ninguém entendia a minha aparência e eu não sabia o que estava acontecendo”, desabafou.

Já com 34 anos, Raí teve um câncer de tireóide e procurou uma médica endocrinologista que se interessou pelo caso e pediu vários exames porque percebeu uma disfunção hormonal. “Retirei o câncer, fiz o tratamento e de acordo com os exames, a doutora constatou que eu tenho um problema no cromossomo 23 – que é quando a pessoa nasce – e eu sou o XXY – o famoso intersexo”, disse.

“Eu tenho barba, bigode, pêlos por todo corpo, a voz grave, sem nenhum tipo de medicação e hormônio. A minha testosterona supera a de uma mulher, na verdade, eu sou um homem intersexo”, garantiu.

Raí contou à reportagem que após a retirada de uma mama, ele pôde consolidar o sonho de fechar o fenótipo, pois, o genótipo já tinha sido definido no ventre da mãe. “Segundo os médicos que me acompanham devido ao câncer de mama, as duas doenças que eu tive provavelmente foi gerado pela disfunção hormonal. Se a visibilidade do intersexo fosse maior, poderia evitar certas doenças”.

Raí procurou uma advogada e deu entrada na Justiça para mudança de nome e gênero. “Em seis meses, saiu à retificação e correção do meu sexo. Hoje me chamo Raí. A Rita era um personagem que eu tinha que representar para a sociedade, por isso é um erro muito grande na concepção de uma criança as pessoas perguntarem se é menino ou é menina, só deveria acontecer isso depois que se tivesse certeza do sexo biológico e da identidade de gênero de cada um”, enfatizou.

Raí ressaltou que o preconceito existe independente de ser gay, lésbica, bissexual, transexual, mas que não deveria acontecer. “Quando o homofóbico se aproxima, ele não quer saber qual gênero pertencemos”, contou.

“Se diz que a Criação é a perfeição e ser intersexo é algo genético, em que lugar fica a fala dos ortodoxos que dizem que o trans, a lésbica e o gay quer forçar uma situação? Eu não forcei nada, foi Deus que me criou assim. O intersexo quebra essa fala, inclusive”, finalizou.

Mudança de nome e gênero

A reportagem tentou, diversas vezes, contato com a assessoria da Defensoria Pública de Alagoas, entretanto, apenas uma pergunta foi respondida. A assessoria informou que sobre as mudanças físicas, cirúrgicas e hormonais, não há registros em Alagoas.

Já sobre as mudanças com relação às mudanças de gênero e nome nos documentos foram registrados até o mês de setembro, sete ações. Sendo cinco em Maceió e duas em Arapiraca. De acordo com a assessoria, esse número está crescendo a cada ano.

A Defensoria não explicou qual o procedimento para quem quer solicitar a mudança de nome e gênero.

O que diz a psicologia?

A psicóloga Marcele Cavalcante explicou que existe um conceito de identidade de gênero que é visto como ideal e é que aceito socialmente. “Quem nasce com a vagina é mulher e quem nasce com pênis é homem, sendo que a fuga dessa norma costuma gerar um grande conflito por quem passa por ela e romper com o padrão não é fácil, nem para o adulto, nem para a criança”, contou.

Quando perguntado sobre a importância da psicoterapia para uma criança que já apresenta sinais de que não pertence aquele gênero que nasceu, a psicóloga explicou que a criança vai passar pela falta de conhecimento de alguns adultos e de outras crianças, além de sofrer preconceitos, a falta de apoio por parte dos familiares e da escola, e muitas vezes, com bullying.

“A psicoterapia com as crianças trans tem o objetivo trabalhar não só com a criança, mas também com a família, escola. No caso da criança, o trabalho é focado na estruturação da sua base e tornar-se consciente de sua identidade de gênero, na aceitação e fortalecimento para que ela consiga lidar com a melhor maneira com as possíveis dificuldades que elas vão encontrar”, informou.

A psicóloga também alertou que o fato da família não aceitar a criança na sua condição de ser não muda quem o menor é. “Só gera angústias e atrasa a aceitação. O psicólogo também precisa estar atento que a família cria uma expectativa diante do nascimento da criança, compra o enxoval que é destinado socialmente para cada gênero, o psicólogo também precisa trabalhar esse luto da perda da família”, contou.


A psicóloga também informou que é na relação familiar que são construídas os primeiros valores sociais da pessoa. Para ela, a aceitação e o suporte familiar são necessários para que as pessoas trans passem por essa transição de forma segura e assim, enfrentar os desafios. “Romper com os padrões de gênero, com as normas sociais, não é fácil. A pessoa trans tem que enfrentar a falta de informação por parte da sociedade e até mesmo transfobia, então, o apoio familiar é essencial para que a pessoa se assuma”, ressaltou.

Homofobia mata

Segundo um levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), o ano de 2016 foi o ano com maior número de assassinatos da população LGBTI, desde o inicio da pesquisa, há 37 anos. Ao todo, foram 347 mortes. Mas o próprio grupo ressaltou que os números são subnotificados, já que faltam estatísticas oficiais.

A população de travestis e transexuais correspondeu a 42% das mortes, em um total de 144 vitimas.

*estagiária


Fonte: cadaminuto.com.br

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