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12.08.2017 - 09:27   por GERALDO RIBEIRO

Resgate de crianças da Van é considerado exemplar

Agentes que localizaram veículo em São Gonçalo tiveram dia de heróis

RIO - Um bebê de um ano e meio, sonolento, de chupeta, lutava contra o sono no colo da mãe. A cena corriqueira chamava nesta sexta-feira a atenção pelo cenário inesperado: a delegacia de polícia de Neves, em São Gonçalo. Assim como o pequeno Arthur, que morreu há menos de duas semanas, exatamente um mês depois de ter sido baleado ainda na barriga da mãe, na Favela do Lixão, o menino que tentava dormir em meio à agitação de PMs, alheio ao drama que tinha acabado de protagonizar, era outra pequena vítima da violência do Rio.

A criança estava junto de um colega, de 2 anos e meio, a caminho da creche, por volta das 6h20m da manhã, quando a van que o transportava foi interceptada por cinco bandidos, pelo menos um deles com um fuzil nas mãos. Não deu tempo para o motorista retirar os passageiros, presos às cadeirinhas. "Foi desesperador", contou Josedir Cordeiro.

O assalto tinha tudo para terminar em tragédia. Os homens que roubaram a van escolar haviam tentado, momentos antes, invadir o Morro Marítimo, no Barreto, em Niterói. Trocaram tiros com traficantes do local, deixando em pânico moradores da comunidade. Sem conseguir tomar a favela, fugiram.

Roubaram um carro, um Doblô, que, por coincidência, também é usado para fazer transporte escolar, na Rua Doutor Luiz Palmier, no Barreto. Disseram para a motorista, Bárbara Souza, desembarcar, avisando que o seguro pagaria o veículo que eles estavam levando.

- Eu estava parando para pegar uma criança, que viu quando os bandidos me renderam e correu para dentro de casa - contou Bárbara.

Um quilômetro adiante, os criminosos bateram com o carro num poste. Já estavam na Rua Doutor March, por onde passava a van dirigida por Josedir. Foi o primeiro carro que os bandidos avistaram. E foi ele que atacaram.

A polícia foi logo acionada. Começava um cerco para tentar resgatar as duas crianças. Até mesmo vans escolares - um motorista avisou a outros que vira um veículo de porta aberta, com bebês dentro, sendo sequestrados - , percorreram ruas do bairro tentando localizar o carro dirigido pelos bandidos.

- Recebi a informação de que uma van havia sido levada por elementos de fuzil, com duas crianças em seu interior. Passei a informação para o batalhão e avisei outras viaturas. Iniciamos o cerco - disse o cabo Antônio Ricardo Azevedo, de 35 anos, há 11 na PM

Alçado nesta sexta-feira ao posto de herói, Azevedo foi o primeiro a chegar ao Morro do Pereirinha, em São Gonçalo, onde a van foi abandonada de portas abertas, uma hora após o sequestro. As crianças estavam dentro do carro. Quietas. Ilesas.

- Eu perguntei o nome, se estava tudo bem. Disse 'o tio vai botar o cinto de segurança em vocês', mas elas não falam - contou o cabo Azevedo.

Segundo ele, a grande preocupação foi evitar uma troca de tiros:

- Vimos muitos elementos com armamento pesado. Mas evitamos confronto e conseguimos resgatar as crianças. Foi emocionante encontrá-las - contou ele, pai de um menino de 7 anos.

O soldado Renan Cabral de Oliveira, de 28 anos, o outro PM que participou da ação, disse que sua alegria foi ainda maior por saber que devolveu sãs e salvas as duas crianças aos pais, perto de uma data comemorativa importante para as famílias.

- É como se eu tivesse recebido um presente de Dia dos Pais também - afirmou o soldado, que tem dois filhos, de 3 e 8 anos.

A ação dos PMs, que usaram um blindado na ação, foi elogiada pelas famílias das pequenas vítimas. Logo depois do desfecho feliz do caso, a mãe de um dos bebês, a professora Vivian Oliveira, desabafou durante uma entrevista:

- Diante da desvalorização tremenda que a gente está tendo dos nossos policiais, eu agradeço imensamente ao policial Azevedo e ao policial Renan, porque eles fizeram um trabalho perfeito. Se não fossem eles, eu não sei que entrevista eu estaria dando para vocês agora. Então, agora eu posso dar entrevista e terminar sorrindo. Mas eu não sei, se não fossem os dois, o que seria. Peço a Deus e a quem possa valorizar o trabalho dos policias, que valorize, porque a gente precisa deles a todo momento.

Os policiais aproveitaram o momento de notoriedade:

- É muito bom receber esse elogio. Como todos veem, a polícia está sendo massacrada por parte da sociedade e quando a gente acerta quer também receber elogio - disse o cabo Azevedo.

Segundo a delegada Carla Conceição, da 73ª DP (Neves), os bandidos já estão sendo identificados e terão a prisão pedida à Justiça. Depois do drama, Vivian fez um balanço de como agirá daqui para a frente, após o susto. Para ela, a violência do Rio não pode paralisar a vida:

- O que a gente faz com tanta violência? Ficamos em casa, paramos de trabalhar? Não quero absorver essa energia negativa, porque ele vai ter que continuar indo à creche, é o futuro dele, o que nós defendemos. Vamos tentar que o dia dele caminhe normalmente. Ele ficou nervoso, percebeu que algo errado acontecia - relatou Vivian, que, ao lado do marido, Fábio Vinícius, decidiu que aproveitaria o resto do dia da sexta-feira numa piscina de bolinhas.

- A ideia é fazer com que ele tenha um dia tranquilo - disse Fábio.

Para a psicóloga Renata Resende, a hora de terror que passaram com os sequestradores podem trazer traumas futuros para as crianças:

- A criança nessa idade não entende como a gente uma violência, mas já sente medo e sabe quando há algo de errado. Esses bandidos devem ter abordado a van com violência, gritando, saído em alta velocidade. Isso tudo pode implicar num trauma, como andar de carro ou outra coisa que a criança relacione àquela situação. Esse trauma talvez não seja expressado de forma imediata, mas daqui a algum tempo. Por isso, é importante que os pais acompanhem, a partir de agora, a reação de seus filhos quando eles forem à escola ou saírem para outro lugar, para evitar o desenvolvimento de possíveis danos.

O pesadelo de ter uma van escolar levada por bandidos já preocupa empresas do setor. Preocupadas com os riscos, algumas transportadoras já adotaram medidas para se precaver, como a instalação de GPS nos veículos e a utilização de uma central de monitoramento. A Santa Rosa, que atua em bairros das zonas Sul e Oeste do Rio, vai além. Ela conta com um sistema apelidado de "cerca eletrônica", que avisa quando o veículo sai de sua rota habitual:

- Nesse rastreamento que fazemos, recebemos um alerta quando, por exemplo, um carro que costuma rodar na Zona Sul aparece na Barra da Tijuca. O sistema apita, como se houvesse, realmente, uma cerca - explica Felipe Cristiano, diretor da transportadora, que atua há 45 anos no Rio.

A Translippe, que faz o transporte de alunos do Colégio Cruzeiro, no Centro, também se vale dessas medidas de proteção. A empresa utiliza micro-ônibus, que, segundo os funcionários, "é menos visado por bandidos por não ser uma opção rápida para fugas". Os motoristas também são orientados a evitar rotas consideradas de risco. E se houver alguma ocorrência em determinada região, a monitora que acompanha o condutor, é avisada por celular, e o trajeto deve ser alterado.


Fonte: OGlobo.com

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