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17.07.2017 - 06:34   por MARIA FERNANDA DELMAS

Tiroteio fecha a Linha Vermelha, e motoristas se abrigam em batalhão

Confronto seria entre criminosos da comunidade Nova Holanda, na Maré

RIO — Grávida de sete meses e com um filho de 1 ano, Michele Andrade estava a caminho de casa em Cabo Frio, na Região dos Lagos, quando foi surpreendida por um intenso tiroteio em plena Linha Vermelha, via expressa que liga o Rio à Baixada Fluminense. Ao chegar perto do Complexo da Maré, o barulho dos tiros aumentou. Assustada, ela parou o carro e buscou abrigo dentro do 22º BPM (Maré). Lá, já estavam cerca de 50 pessoas que também tinham abandonado seus veículos na pista para escapar dos disparos.

Michele contou que nunca havia passado por nada semelhante antes:

— Estávamos indo embora para Cabo Frio. Chegando próximo ao batalhão, a gente escutou os tiros, paramos o carro e descemos. Na minha cidade, não escutamos barulho de tiro.

O confronto transformou a Linha Vermelha num território de medo. Segundo um sargento do 22º BPM, houve uma troca de tiros entre criminosos da favela Nova Holanda e policiais militares, que estavam na via expressa. Ele contou ainda que os tiros eram disparados a esmo pelos bandidos em direção à pista. O policial afirmou que os tiros partiram, inicialmente, dos criminosos.

— Os tiros começaram do nada. Não tinha nenhum policial dentro do conjunto. Eles começaram a atirar de dentro da Nova Holanda em direção aos PMs — contou.

Linha Vermelha foi fechada por conta de intenso tiroteio na via - Reprodução/Grupo Informe RJ
Por conta do tiroteio, os policiais do 22º BPM interditaram a Linha Vermelha por cerca de uma hora. Eles também acionaram um veículo blindado para entrar na favela e conter o confronto.

As pessoas permaneceram cerca de uma hora dentro do batalhão. Por volta das 20h40m, a energia da unidade da PM foi cortada, aumentando o pânico. Crianças, idosos e mulheres ficaram meia hora às escuras.

CRÍTICAS AO GOVERNADOR

O secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação, Índio da Costa, por pouco não fica no meio do fogo cruzado. Ele postou um vídeo no Facebook para contar que estava passando com a família pela Linha Vermelha quando percebeu a movimentação estranha na via e optou por seguir pela Avenida Brasil. Segundo Índio da Costa, um amigo que estava em outro veículo, mais à frente, não conseguiu sair da linha de tiro e viveu momentos de pânico com a família:

— Eu estava com minha filha mais velha e, em outro carro que vinha atrás de nós, estavam minha mulher com nossa filha mais nova, de apenas 3 anos. Vi o engarrafamento na Linha Vermelha e tive aquela sensação de que algo estava errado. Peguei a Avenida Brasil para acessar a Linha Amarela.

No vídeo, o secretário fez críticas do governador Luiz Fernando Pezão, que está de licença médica por uma semana:

— Havia carros abandonados, pessoas correndo pela pista, chorando. Ninguém consegue conter a violência. Um trabalho preventivo precisa ser feito. E agora o governador, mais uma vez, pede licença. Embora a situação esteja difícil, não é impossível de resolver. Já conversei sobre isso com técnicos do Exército, do Judiciário, e eles já me disseram que isso é possível.

À tarde, motoristas que estavam em um dos acessos à Ponte Rio-Niterói já tinham enfrentado problemas. Muitos tiveram que voltar na contramão, após um suposto arrastão na via. Nas redes sociais, algumas pessoas relataram que homens armados com pistolas e fuzis estavam atravessando a pista, na região do Caju. Um vídeo que circula na internet mostra parte da confusão. Sem informação e orientação, os motoristas que seguiam para Niterói retornavam desesperados. Procurada, a PM disse que não sabia o que havia ocorrido.

‘O barulho não deixava dúvida: tiroteio’

Na descida da Região Serrana para o Rio, já na Linha Vermelha, por volta das 19h30m, o trânsito parou. “Arrastão”, falamos, logo, eu e meu marido. Não era nada. Apenas mais um engarrafamento no Rio de Janeiro. “Como estamos paranoicos”, comentamos. Quinze minutos depois, mais carros parados à frente. Mas o barulho não deixava dúvidas: tiroteio.

Uns cinco carros à frente, uma viatura da polícia, com homens de arma em punho, bloqueava a pista. Algumas pessoas saíam de seus veículos e usavam as portas abertas como escudos. Um homem deslizou pelo chão do carro até o asfalto para olhar por baixo da porta aberta. Que protocolo seguir nessa hora? Após alguns segundos de incredulidade, meu marido disse: “Abaixa”.

Depois de um tempo abaixados — tempo em que você espera ouvir uma bala estilhaçar o vidro a qualquer momento —, vimos que os motoristas estavam encostando os carros no 22º BPM, logo ali à frente. Assim como tantas outras pessoas desorientadas, largamos o carro e corremos para nos abrigar no batalhão.

Os policiais nos guiaram a um salão. Entrava cada vez mais gente. Uma senhora passava mal, e um policial lhe ofereceu água. Uma mulher grávida estava sentada no chão, respirando fundo, com um menino dormindo em seu colo. Reclamava de dor. Muitas crianças choravam. Para piorar, o batalhão ficou às escuras. Outro policial não soube dizer se o transformador tinha sido atingido por um tiro.

Uma hora e 15 minutos durou o medo de quem se abrigou ali, até poder sair com a pista já liberada. Um medo que quem vive nas comunidades deve sentir constantemente. Na redação, a cada relato de violência que chega a nós, já dizemos: “Apenas mais um dia no Rio de Janeiro”. Neste domingo, vivi apenas mais uma hora e 15 minutos no Rio.


Fonte: OGlobo.com

Tags: tiroteio fecha a linha vermelha - e motoristas se abrigam em batalhão

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