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15.07.2017 - 10:09   por JÚNIA GAMA E CATARINA ALENCASTRO

Divisão da base de Temer na Comissão da Câmara deflagra briga por cargos

Resultado amplia racha de tucanos sobre permanência na base do governo

Beto Mansur do PRB

BRASÍLIA — A batalha pela votação da denúncia contra o presidente Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que terminou com a vitória do governo e um relatório alternativo de Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG) pelo arquivamento da ação no plenário, detonou uma guerra pela redistribuição dos cargos da Esplanada dos Ministérios. Tudo para pagar a conta da fidelidade. O resultado também ampliou o racha dos tucanos sobre a permanência na base do governo.

Líderes do centrão partiram para o ataque e agora cobram de Michel Temer um ultimato ao PSDB para que assuma uma posição definitiva: ficar no governo ou abandoná-lo de vez. De olho em uma possível reforma ministerial quando, e se, passar a votação de todas as denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Temer, esses líderes querem espaço na Esplanada proporcional ao desgaste dos partidos que já assumiram e assumirão a linha de frente para rejeitar as denúncias na Câmara.

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A birra desses partidos, que foram os que garantiram ao presidente a vitória na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), é que, enquanto alguns deputados sofrem o desgaste de votar contra a denúncia de Temer, os tucanos se dão ao luxo de fazer discurso contra o governo, enquanto mantêm quatro ministérios. Na CCJ, apenas dois, dos sete tucanos que integram a comissão, votaram para rejeitar a denúncia.

— O PSDB que faça sua DR, se resolva e diga se fica ou se não fica. Tem gerado uma insatisfação muito grande em partidos como PR, PSD e o próprio PRB, que avalia fechar questão, e o PSDB fazendo discurso contra. O espaço no governo tem que ser proporcional ao número de votos. Não dá para ter um partido com quatro ministérios e metade de seus deputados votando contra o governo. Se essa situação continuar, a tendência é perder apoios em outros partidos — reclama o deputado Beto Mansur (PRB-SP).

Na contabilidade do governo, o PSDB, que tem 46 deputados, entregará 25 votos contra a denúncia no plenário, cuja votação está prevista para o dia 2 de agosto. O número diverge da contabilidade interna do partido, segundo a qual apenas entre 15 e 17 deputados votarão pela rejeição da denúncia.

TUCANOS NÃO ACREDITAM EM DEVASSA

O líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), afirma que cabe a Temer decidir sobre os espaços no governo, mas mantém que é majoritária, na bancada tucana, a posição de que as acusações contra o presidente devem ser investigadas. Ele voltou a defender que o partido abandone os cargos.

— Nós já tínhamos pedido que os ministros deixassem os ministérios. Agora fica uma situação esdrúxula, não tem sentido esse jogo de o governo querer retaliar numa troca de cargos para quem votar a favor do presidente. Quanto mais rápido o PSDB se livrar dos ministérios, melhor. Espero que o governo não crie constrangimentos para o PSDB, que não se incomode de o partido votar livremente como acha que deve votar — rebate Tripoli.

O senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que já defendeu o abandono de ministros tucanos dos “cargos confortáveis”, reafirma que o presidente Michel Temer tem liberdade para fazer o que quiser com os ministérios.

— Os cargos pertencem ao presidente da República, não aos partidos. A grande preocupação hoje no partido não é com os cargos, mas em construir a unidade, que não está fácil. E o gesto de Abi-Ackel vai na direção oposta. A curto prazo, ganha a ala que apoia o governo, mas, no final, o partido perde —afirma Cássio.

Há no partido, porém, uma percepção de que dificilmente Temer vai promover uma devassa nos quatro ministérios hoje ocupados pelo PSDB. Isso porque a consequência imediata de um gesto assim seria, segundo dirigentes tucanos, a perda do apoio daqueles que ainda se mantêm ao lado do governo.

O ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes, por exemplo, é um dos mais enfáticos defensores da permanência do PSDB na base aliada. No início da semana, por exemplo, Temer respirou aliviado com a decisão da cúpula do PSDB, reunida em São Paulo, de não ter aprovado o desembarque em um momento de fragilidade e que poderia ser uma péssima sinalização.

Esse fato teria reflexo direto na votação da denúncia contra Temer no plenário da Câmara. Votos que hoje são computados como contrários à denúncia poderiam migrar para o lado dos favoráveis, que hoje são maioria na legenda. Além disso, lembram parlamentares do partido, essa é apenas a primeira batalha que Temer precisa vencer para se manter no cargo até 2018. Há expectativa de apresentação de novas denúncias por parte do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e de outras adversidades no caminho, como as delações do deputado cassado Eduardo Cunha e do doleiro Lúcio Funaro.

— Não acredito que o presidente vá tirar os cargos do PSDB porque senão vai perder os votos que ainda têm no partido. O Palácio do Planalto tem que saber em que condições vai sair dessa batalha porque outras virão mais à frente. Se sair muito ferido desta, pode acabar perdendo a guerra — afirma um parlamentar do partido.

A consequência mais imediata do resultado na CCJ para o PSDB é trazer de volta para os holofotes a situação do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que defende a manutenção do apoio ao governo e enfrenta as investigações da Operação Lava-Jato. As primeiras versões que circularam entre os tucanos indicam que Abi-Ackel teria se tornado o relator a pedido de Aécio, que trabalha internamente para que o PSDB mantenha o apoio ao governo Temer. Apesar da proximidade, tanto Abi-Ackel quanto Aécio, por meio de assessoria, negaram que isso tenha acontecido. De acordo com o deputado, o colega mineiro nem sequer foi comunicado de sua decisão de relatar o processo, o que pessoas próximas consideram pouco provável.

Abi-Ackel foi um dos dez parlamentares que apresentaram um voto em separado pedindo o arquivamento da denúncia contra Temer. Ele diz que foi escolhido pelo presidente da CCJ, o conterrâneo Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), por ser o autor de um dos votos divergentes.

— Aécio ficou sabendo pela televisão, nem comentei com ele por falta de tempo. Como advogado que sou, não concordando com a denúncia, marquei posição desde o início. Sou radicalmente contra essa denúncia — disse Abi-Ackel.

PACHECO EM BUSCA DO GOVERNO DE MINAS

Interlocutores de Aécio afirmam que ele foi “surpreendido” pela escolha de Abi-Ackel e que viu isso como um gesto de Rodrigo Pacheco à bancada mineira em busca de simpatizantes para sua candidatura ao governo do estado em 2018. Aliados de Aécio dizem que ele considerou, inclusive, “excessivo” da parte de Abi-Ackel encabeçar a missão para salvar Temer.

Para Ricardo Tripoli, o movimento de Abi-Ackel traz Aécio de volta para os holofotes, o que não é bom para o PSDB. O líder lembra que Aécio ainda é presidente da legenda, mesmo que afastado da função, e que essa situação só será resolvida de forma definitiva a partir do fim de agosto, quando a legenda terá convenções.

— Os deputados estão reclamando muito porque ele (Abi-Ackel) não expressa a maioria — diz Tripoli.

(Colaborou Cristiane Jungblut)


Fonte: OGlobo.com

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