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21.04.2017 - 12:31   por CLEIDE CARVALHO, SÉRGIO ROXO E TIAGO DANTAS

Palocci sinaliza delação e diz a Moro ter informações para ‘mais um ano de trabalho’ do juiz

Em depoimento, ex-ministro admitiu existência de caixa 2, mas negou ter mandado pagar marqueteiro no exterior

SÃO PAULO — O ex-ministro Antonio Palocci sinalizou ao juiz Sérgio Moro que pode municiar a Lava-Jato com novas informações, capazes de "dar mais um ano de trabalho". Depois de afirmar em audiência que sabia da existência de caixa 2, mas que nunca operou ou organizou pagamentos, o ex-ministro disse ao juiz que, quando ele quiser, pode apresentar as informações.

- Apresento todos os fatos com nomes, endereços e operações realizadas. Posso lhe dar um caminho que vai lhe dar mais um ano de trabalho, que faz bem ao Brasil - disse Palocci, afirmando que falaria sobre "nomes e situações" que optou por não falar na audiência.

Ao responder perguntas do seu advogado, Palocci contou uma história que pode dar indicativos do que ele tem a contar em uma possível delação. Afirmou que, antes da campanha presidencial de 2010, foi procurado por um banqueiro, a quem ele definiu como "uma personalidade do meio financeiro" a quem caberia fazer "coisas relativas a financiamento de campanha, a reservas, provisões".

Segundo Palocci, o banqueiro lhe disse que falava em nome "de uma autoridade de primeiro escalão do governo", mas que a então candidata Dilma Roussef não sabia disso.


Palocci disse que chamou sua atenção o fato de o banqueiro ter utilizado a palavra "provisões", a mesma usada por Marcelo Odebrecht para se referir a dinheiro reservado à campanha petista um mês antes. Em depoimento de delação, Marcelo relata ter provisionado R$ 200 milhões para o PT, dos quais R$ 133 milhões teriam sido gastos. O empreiteiro afirma que o PT pediu dinheiro duas vezes como "contrapartida" - um crédito para Angola e a aprovação da MP da Crise, este segundo um pedido do ex-ministro Guido Mantega.

O ex-ministro disse ainda que o banqueiro em questão sabia da "provisão" feita pela Odebrecht e pediu ajuda para liberá-la. Palocci teria mentido e dito que sabia sobre o dinheiro da empreiteira.

Dois meses antes de falar com o banqueiro, Palocci diz ter sido chamado pelo então presidente Lula, que teria ficado sabendo da "provisão" da Odebrecht.

Segundo o ex-ministro, Lula ficou "um pouco irritado" ao ficar sabendo que a Odebrecht tinha uma provisão de R$ 200 milhões para doar ao PT e queria saber do que se tratava e por que a doação para a campanha presidencial não havia sido feita pelas vias legais.

- Esse assunto deu muita cria, em assuntos relacionados a Lava-Jato. Se o senhor me ouvir em sigilo, me prontifico a falar tudo. Isso tem desdobramentos importantes, inclusive em relação a Odebrecht... - concluiu o ex-ministro.

- Prefiro não dizer agora porque essa audiência é pública.

Palocci admitiu a existência de caixa 2 nas campanhas, mas disse que nunca operou o dinheiro.

- Digo ao senhor, não deixei de cometer erros (..) Não me sinto em condições de falar o que todo mundo está falando, dizer que nunca existiu, que tudo foi aprovado em tribunais. Todo mundo sabe que teve caixa 2 em todas as campanhas. Não vou mentir - afirmou ao juiz.

Palocci se defendeu com veemencia da acusação de ter determinado pagamentos aos marqueteiros João Santana e Mônica Moura no exterior, com base em contratos de sondas da Petrobras. Disse que o pagamento a Santana foi feito um ano antes da contratação das sondas.


O ex-ministro Antonio Palocci presta depoimento a Moro e diz que está disposto a revelar novos nomes e operações - Reprodução Vídeo
- Jamais, absolutamente não - disse Palocci. - Isso se aplica a João Santana, Mônica Moura. Nunca tratei de onde seria pago ninguém, onde pagar alguém.

Quem decidia como pagar? - indagou o defensor.

- Era a empresa e o recebedor.

Perguntado se solicitou, interferiu ou defendeu interesse da Odebrecht ou da Sete Brasil na questão das sondas, o ex-ministro foi afirmativo.

- Eu digo não. Absolutamente não.

Palocci disse ainda que nunca pediu nem recebeu doações partidárias da Odebrecht como contrapartida por projetos da empresa com o governo federal. O ex-ministro admitiu, porém, que havia episódios em que as empresas procuravam políticos prometendo doações caso seus interesses fossem atendidos. Ele cita como exemplo a votação da medida provisória 460, de 2009, que previa mudanças na cobrança de tributos para incorporadoras.

Palocci: ascensão e queda no cenário político - 1 de 6

1º de janeiro de 2003

É nomeado ministro da Fazenda de Lula. Sua gestão seria marcada pelo controle da inflação, com altas taxas de juros, e baixo crescimento do PIB. Ao mesmo tempo que obteve estabilidade na economia, recebeu críticas por não estimular o crescimento no mesmo ritmo de outros países.

27 de março de 2006

Palocci entrega a Lula carta de renúncia após ser envolvido em denúncias que culminaram na a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, que havia dito à CPI dos Bingos que o petista frequentava mansão no Lago Sul, onde eram realizadas reuniões de lobistas.

1º de janeiro de 2011

É nomeado ministro da Casa Civil a pedido de do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva após atuar na linha de frente da campanha petista que elegeu Dilma Rousseff para a Presidência da República. Sua volta à Esplanada dos Ministérios é vista como reabilitação política.

7 de junho de 2011

Antonio Palocci deixa a Casa Civil do governo Dilma Rousseff após revelações de que seu patrimônio havia aumentado 20 vezes entre 2006 e 2010, em razão de consultorias prestadas, inclusive quando era deputado federal. Sem revelar seus clientes, ele não resiste à pressão e pede demissão.

26 de setembro de 2016

É preso na 35ª fase da Lava-Jato, suspeito de defender interesses da Odebrecht entre 2006 e 2013, em aprovação de medidas provisórias e concessão de financiamentos do BNDES — ele seria o “Italiano” nas planilhas. Em troca teria recebido R$ 128 milhões em forma de propina para o PT.

20 de abril de 2017

Em depoimento a Sérgio Moro uma semana depois da divulgação do conteúdo das delações da Odebrecht, da qual foi alvo, Palocci sinaliza que pode oferecer novas informações para a Lava-Jato. “Posso lhe dar um caminho que vai lhe dar mais um ano de trabalho, que faz bem ao Brasil", diz ao juiz.


Fonte: OGlobo.com

Tags: palocci sinaliza delação e diz a moro ter informações para ‘mais um ano de trabalho’ do juiz

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