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17.04.2017 - 07:49   por HENRIQUE GOMES BATISTA

‘Há 70% de chances de a reforma passar’, diz diretor de consultoria

Para João Augusto de Castro Neves, diretor do Eurasia, na economia, o pior da crise já passou. Mas alerta que mudanças são cruciais para retomada da confiança de investidores

Consultor do Eurasia

WASHINGTON - O mercado financeiro reagiu com calma à crise política da semana passada. Mais que um caso isolado, esta é a nova tendência, segundo João Augusto de Castro Neves, diretor para o Brasil da Eurasia Group, maior consultoria financeira do planeta. Em sua opinião, haverá pouco contágio entre as duas crises, embora exista algum risco, citando a melhora da nota da Petrobras pela Moody’s, na semana passada, como uma prova disso. Ele acredita que os políticos, por instinto de sobrevivência, vão aprovar a reforma da previdência e as medidas para a retomada da economia, única maneira de reduzir um pouco a animosidade da população com o grupo. Mas afirma que há riscos: o cenário tem turbulências e nuvens negras.

O Brasil está vivendo hoje o pior de sua crise político-econômica?

Depende. Se falarmos do sistema político como um todo, estamos no fundo do poço. Talvez estejamos nele há quase três anos e provavelmente continuaremos nele até pelo menos no ano que vem. Neste sentido, ainda teremos muita coisa da Lava-Jato, é difícil falar que o pior já acabou, ainda há muitas incógnitas na dimensão política desta crise. Por outro lado, mas no aspecto econômico, eu acho que, sim, o pior já passou. E vemos aí uma situação quase desconexa entre a crise política e a crise econômica. A crise política, de legitimidade continua e deve até aumentar até as eleições, mas não achamos que isso vai interferir diretamente na dinâmica econômica. Há riscos, sem dúvida, mas vemos o governo Temer, apesar desta crise de legitimidade, ainda com a capacidade de passar algumas reformas e a economia, ainda que lentamente reagindo. Então neste ano de 2017 muito provavelmente será melhor que o ano passado e que o ano retrasado em termos de crescimento e o ano que vem um pouco melhor ainda, se olharmos vários indicadores econômicos. Mas politicamente, sem dúvida, há uma crise muito grande sem uma saída clara. O nosso sistema político parece que está incapaz de processar esta crise, já que uma percentagem altíssima dele está envolvida nela. A nossa visão que a lista do Fachin afeta pouco no curto prazo e não deve interferir no curto prazo, no calendário das reformas, mas terá sim enorme impacto em 2018, reforçando o sentimento antipolítico, antiestablishment para 2018.

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Mercado reagiu relativamente de forma calma em relação à primeira grande lista de políticos na Lava-Jato, há dois anos. Qual é a razão?

Na nossa previsão de calendário da previsão a gente já estava prevendo, preficificando, digamos assim, muito da Lava-Jato nela. É óbvio que quando sai a lista todos ficam impressionados, com a magnitude, mais de um terço do estado formalmente investigado, quase um terço do ministério do (presidente Michel) Temer também, sem dúvida a escala impressiona, mas até certo ponto isso estava precificado sim. A crise política pode sim afetar o andar da economia mas por enquanto temos visto que o governo Temer, embora seja extremamente impopular e com pouca legitimidade, ele tem tido bastante capital político para passar medidas no Congresso desde o ano passado. O que o governo Temer em seu favor hoje é utilizar esta crise política que continua a pleno favor a seu favor. O que eu quero dizer com isso? Há a sensação que a classe política está toda no mesmo barco, o fracasso do governo Temer, no sentido de não passar reformas e de não conseguir colocar a economia de volta nos trilhos, seria o fracasso da classe política como um todo. A única esperança que esta classe política tem de se manter no poder no ano que vem, pois vai levar muita pancada da lava-Jato, é que a economia se recupere um pouco e que, assim, se reduza um pouco a insatisfação popular. Esta é a carta que o Temer tem na mão e acredito que, na maior parte do caso, conseguirá fazer isso sim. Alguns sairão do barco, como Renan Calheiros, mais por uma lógica regional mais específica, mas acreditamos que a lógica principal do instinto de sobrevivência política dos parlamentares vai colocar todo mundo no mesmo barco e no fim do dia eles vão aprovar a reforma da previdência, reconhecendo que é o único caminho para salvar a economia e para reduzir a animosidade frente à classe política.


Estes casos não piora a atração de investimentos estrangeiros, o Brasil não está se tornando tóxico?Depende. Acho que o Brasil é grande demais para ser ignorado pelos investidores. Mesmo quando está ruim, dado a escala do Brasil, há coisas interessantes e, comparando com outros mercados emergentes, o Brasil não está tão mal. É uma região com pouco risco geopolítico, de segurança e terrorismo, você tem uma escala grande, um mercado consumidor enorme, um parque industrial diversificado, grande oferta de matéria prima, é muito fácil entrar e sair do Brasil, o que interessa para o investidor de curto prazo. Então o investidor que está olhando o mundo como um todo vê de fato nuvens negras no horizonte do Brasil, mas ainda é uma história extremamente interessante. Se você olhar o desempenho da bolsa de valores nos últimos meses, da inflação, do dólar, você tem uma série de elementos para apostar no Brasil ainda. Mas nossa visão do Brasil é construtiva, olhando de agora para seis meses a dois anos, sim, só que o curioso é que, quando conversamos com os investidores, é que não se trata de um caminho linear, ou seja, sem nenhum percalço. Lembro que no início deste ano havia muito otimismo sobre o Brasil e a gente falava, “olha, nossa visão é otimista, mas haverá nuvens negras no caminho", e apontamos março e abril como meses onde a percepção de que a coisa estava piorando ia ficar clara, embora não seja isso, de fato, na economia. Então, para o investidor que conhece bem o Brasil tem consciência disso. Agora as pessoas locais, que estão mais expostos ao Brasil, tende a oscilar mais entre os dois extremos, do extremo do pessimismo ao extremo do otimismo. No início deste ano estavam mais no extremo do otimismo e foram agora para o outro extremo, mas a verdade está mais no meio. Muitos investidores olha também isso, qual outro mercado emergente no mundo está implementando reformas ambiciosas como o Brasil? Quase nenhum, então o Brasil continua razoavelmente bem neste aspecto.

Na mesma semana da lista da Lava-Jato vimos a melhora da nota da Petrobras por uma agência de classificação de risco. Isso é uma tendência?

A Petrobras tem feito um trabalho razoável, há mais de um ano, de retomada de correção de rumo da empresa, de venda de ativos, com muitas dificuldades no caminho, sem dúvida, mas fazendo o que tinha que ser feito para melhorar suas finanças e a mudança de nota é um pouco o reflexo disso. Isso mostra um pouco que está havendo um distanciamento, entre aspas entre a crise política e a crise econômica no curto e médio prazo. Você tem algumas notícias boas vindo da economia, com alguns riscos, mas você vê uma linha divergente, Petrobras melhorando, Banco Central cortando juros em um ponto percentual (no último Copom), inflação caindo fortemente, a economia começando a se recuperar há algumas notícias boas e com algumas reformas passando, como o teto dos gastos, outras microeconômicas e a crise política se mantendo o mesmo ritmo. Mas a gente acha que de uma não afeta a outra mas há alguns pontos de contato, que são os riscos que temos. Se, por exemplo, a classe política tentar desesperadamente sobreviver por meio de medidas de proteção, anistias, como o projeto de lei de abuso de autoridade, isso sim poderia conectar os dois pontos, que a rua tenha papel relevante novamente, o que deixaria o Congresso com medo de votar coisas, há uma paralisia total, aumenta a pressão para o TSE tirar o Temer e aí você acaba com as reformas. Se o mercado acreditar que a reforma da previdência não vai para a frente por causa da crise política, as boas notícias da economia param. A reforma da previdência é crucial para a retomada da confiança e da economia do Brasil. Nós acreditamos que isso não vai ocorrer, mas alertamos aos investidores que é um risco razoável, nós passamos aos nossos investidores que o risco da reforma da previdência não passar é de 30%, acreditamos que há 70% de chances da reforma robusta ser aprovada. É isso que justifica o mercado não estar reagindo tão mal assim.


Fonte: OGlobo.com

Tags: ‘há 70% de chances de a reforma passar’ - diz diretor de consultoria

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